Mostrando postagens com marcador O Morro dos Ventos Uivantes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O Morro dos Ventos Uivantes. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de julho de 2012

GAGA HEIGHTS

No primeiro semestre do ano passado eu estava ainda às voltas com preocupações referentes à conclusão da escrita da minha tese e do meu doutorado. Como se não bastasse, eu também estava com aulas de Literatura Inglesa para ministrar na UNESP - Araraquara e na UNICASTELO - Descalvado. Por conta de tantas preocupações causadas por uma pós-graduação e dois empregos, minha mente estava muito atribulada para sentar e preparar uma aula decentemente como hoje tenho tempo de fazer.

É nesses momentos de adversidades que entra o "jogo de cintura", também conhecido como "improviso", por parte do professor. Como eu mesmo ensino para os meus alunos, se você não sabe lidar com o inesperado e não sabe improvisar você não serve para ser professor, pois aquela aulinha quadradinha e bonitinha previamente preparada nunca será dada: aula preparada em plano de aula NUNCA vai sair do papel simplesmente por que não existe como planejar uma aula. Uma aula só poderia de fato ser planejada se fosse possível saber previamente o que vai acontecer na situação de ensino e como estão os alunos em termos emocionais. Como quem consegue fazer isso são apenas seres que têm o poder de prever o futuro, portadores da Espada Justiceira que sabem usar a Visão Além do Alcance, a professora Sibila Trelawney, Usutu e Isaac Mendez (de Heroes), deuses, magos, planinautas etc., você já notou que nem eu, nem você e nem ninguém vai conseguir planejar uma aula. Além disso, como eu também sempre digo para os meus alunos e para os meus amigos pedagogos: Didática é para os fracos. Ou você nasce com o Dom de ser didático, ou você pode desistir de sê-lo, pois Didática não se ensina e nem se aprende (sorry, teóricos da Pedagogia, mas vocês estão, mais uma vez, se enganando, enganando e sendo enganados neste ponto...). Didática é um fenômeno de interação absolutamente imprevisível, vago, momentâneo e evanescente que só funcionada em dado momento, em dada situação e com dados indivíduos, tendo que ser permanentemente renovado, remodelado e adaptado. Por isso, meu filho e minha filha, Didática é algo que a gente já nasce sabendo.

Mas porque eu estou dizendo tudo isso pra vocês, que a estas alturas já estão achando que eu vou encher linguiça? Por que hoje eu vou fazer algo prosaico: vou contar a história de um dos meus improvisos como professor.
Não se trata de qualquer improviso, nem de uma cena engraçada, nem de alguma cretinice, que é com que normalmente os improvisos se parecem. Trata-se de um improviso tão inusitado e que acabou fazendo tanto sentido que me deixou assombrado e em dúvida se se tratou mesmo de um improviso ou se foi um ato de interpretação até certo ponto inconsciente diante de duas coisas aparentemente incoerentes. Fato é, no entanto, que a articulação da ideia deste improviso me levou, e ainda me leva, a considerar a possibilidade de pesquisar academicamente a relação entre as duas coisas nele envolvidas.

Chega de mistérios e rodeios e vamos ao que interessa.

No primeiro semestre de 2011, assim como neste primeiro semestre de 2012, estava sob minha responsabilidade uma disciplina de Literatura Inglesa em que se estuda o romance do século XIX. O romance que eu escolhi para analisar com os alunos foi, é claro, O Morro dos Ventos Uivantes [Wuthering Heights, 1847], de Emily Brontë, o mesmo que foi analisado neste ano.
A primeira questão que me coloquei foi: como abordar este romance com os alunos?
Trata-se de uma obra tão rica, tão complexa, tão cheia de possibilidades, que fica difícil pensar em algo que, ao mesmo tempo, não seja tão introdutório e nem tão avançado para um aluno de graduação que já viveu metade de sua vida no século XXI, um século que trocou a profundidade pela superficialidade. O Morro dos Ventos Uivantes não permite uma abordagem superficial: o próprio texto, da forma com que foi escrito, resiste a isso; mas também um mergulho muito profundo em seus meandros, como os que costumo fazer em minhas leituras acadêmicas, pode ser algo traumático e indigerível a um graduando que não tenha as experiências corretas de leitura (e este é o caso da maioria esmagadora deles).
Foi diante destas questões que eu me fiz uma pergunta crítica: Cido, porque você foi escolher um texto tão perigoso? Ao que meu lado aventureiro e investigador, uma mistura de Indiana Jones com Mestre Yoda, respondeu que a escolha estava certa, visto que se trata de uma obra que pode mudar vidas.
Como abordá-la, então? Era a pergunta que me incomodava. Possibilidades foram surgindo e sendo descartadas na minha mente:

a) uma leitura pós-estruturalista.
OK. Perfeito. É, certamente, a abordagem teórica mais adequada, mas os Departamentos de Literatura de todas as universidades do estado de São Paulo são muito conservadores e não deixam chegar aos alunos os conhecimentos necessários para eles minimamente entenderem uma leitura pós-estruturalista de uma obra literária. Dificilmente um aluno de graduação de terceiro ou quarto ano leu Freud, Marx, Barthes, Foucault, as Feministas e/ou os Desconstrucionistas. Possibilidade descartada até segunda ordem.

b) uma leitura comparatista.
Incrível! Ideia maravilhosa! Há toda uma tradição de escritores e escritoras que foram influenciados por O Morro dos Ventos Uivantes como Kate Chopin, Virginia Woolf, Edith Wharton, Charles Dickens, Henry James etc. Mas que aluno de graduação leu esses caras? Para piorar, eis que eu descubro que os protagonistas da asquerosa série Crepúsculo estão lendo e tentando transportar para suas vidas a história de Catherine e Heathcliff!!! E esta descoberta deu-se da pior e mais traumática maneira possível: primeiro, fui à livraria e me deparei, na entrada, com uma pilha de edições da obra-prima de Emily Brontë cuja capa dizia em letras garrafais "a obra que deu origem à série Crepúsculo". Desnecessário dizer que quase tive um troço diante de uma barbaridade dessas. Fiquei ali diante da pilha de exemplares, paralisado por vários minutos, em estado de absoluto horror ante aquelas palavras abomináveis. Como se não bastasse, no primeiro dia de aula de 2011, quando anunciei que iríamos estudar O Morro dos Ventos Uivantes, uma aluna vira para mim, em estado de êxtase epifânico, na frente de toda a sala e diz que estava muito feliz e ansiosa com isso porque ela estava lendo Crepúsculo e enfim poderia conhecer melhor a obra sobre a qual Edward e Bella tanto falavam. Foi o absurdo, o surreal da situação que não me permitiu colocar a infeliz da aluna para fora da minha aula para sempre. Isso não aconteceu neste ano, graças a Deus!
Como vocês podem notar, sem a menor chance de abordar o romance nesta perspectiva.

c) uma leitura estruturalista, new critic, formalista etc.
Clássicas demais. Ultrapassadas demais. Reducionistas demais. O básico do básico: o feijão com arroz da Teoria Literária. É isso que os alunos basicamente aprendem nesta disciplina nas universidades do estado de São Paulo, e falo por experiências própria, visto que foi justamente isso que aprendi em Teoria Literária: que há 3 tipos da narrador (autodiegético, homodiegético e heterodiegético), 2 tipos de personagens (planas e redondas), 3 tipos de espaço (interno, externo e psicológico), que a interpretação do texto é imanente ao texto etc. O que ninguém me ensinou, e ninguém ensina mesmo, é como articular tudo isso para extrair uma possibilidade de interpretação para um objeto artístico que é contrário a quaisquer tipos de classificações, como é o caso do texto literário.
Fora de cogitação estas abordagens. Elas reduziriam a grandeza de O Morro dos Ventos Uivantes.

d) uma leitura psicanalítica, mas não-ortodoxa.
Esta foi a única possibilidade adequada que restou. A Psicanálise é algo praticamente de domínio público, uma tradição interpretativa constituída e muito produtiva para interpretar literatura. O Morro dos Ventos Uivantes é uma aula prática de Psicanálise, logo não poderia haver abordagem melhor. Junte-se a isso alguns toques sutis e imperceptíveis de Desconstrução e temos uma abordagem rica de significados para os alunos.
Pronto! Decidido: uma leitura psicanalítica não-ortodoxa de linha freudiana e com pequenos toques imperceptíveis de Jacques Derrida para a obra máxima de Emily Brontë.

Eu comecei, então, a refletir como faria a abordagem, quais termos utilizaria, quais conceitos, quais cenas e aspectos do romance etc. Enfim, comecei a montar as aulas em minha mente e, um belo dia à noite, ouvindo música e pensando no Nada (não há nada mais maravilhoso do que pensar no Nada! É como pensar em tudo ao mesmo tempo...) enquanto dirigia de volta de Descalvado para São Carlos depois das aulas, eis que uma ideia estranha insinuou-se insidiosamente por entre as sinapses dos meus neurônios perturbados pela indecidibilidade do indecidível. Aquela ideia foi contaminando a minha mente de tal forma que ela passou de uma abstração para um evento no mundo físico, ainda que um evento sobrenatural: um sussurro de um nome (Lady Gaga), um sussurro de um título de música ("Bad Romance"), um movimento repentino com o dedo no rádio do carro para ouvir o som e prestar atenção na letra.
Em segundos o espaço diminuto e recluso do carro, cercado pela escuridão e pelo silêncio sepulcral de uma noite sem luar, estava tomado pelos acordes poderosos de "Bad Romance", de Lady Gaga, uma das músicas mais conhecidas, importantes e inovadoras desta que é o atual fenômeno do Pop, o que aconteceu de mais diferenciado na música pop dos últimos 20 anos, ainda que Madonna a tenha chamado, não sem uma pontinha de inveja, "reductive".


Eis a letra da música:

Oh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh!
Caught in a bad romance
Oh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh!
Caught in a bad romance

Rah-rah-ah-ah-ah-ah!
Rama-ramama-ah
GaGa-ooh-la-la!
Want your bad romance

Rah-rah-ah-ah-ah-ah!
Rama-ramama-ah
GaGa-ooh-la-la!
Want your bad romance

I want your ugly
I want your disease
I want your everything
As long as it's free
I want your love
Love, love, love I want your love

I want your drama
The touch of your hand
I want your leather-studded kiss in the sand
I want your love
Love, love, love I want your love
(Love, love, love I want your love)

You know that I want you
And you know that I need you
I want it bad, your bad romance

I want your love and
I want your revenge
You and me could write a bad romance
(Oh-oh-oh--oh-oooh!)
I want your love and
All your lover's revenge
You and me could write a bad romance

Oh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh!
Caught in a bad romance
Oh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh!
Caught in a bad romance

Rah-rah-ah-ah-ah-ah!
Rama-ramama-ah
GaGa-ooh-la-la!
Want your bad romance

I want your horror
I want your design
'Cause you're a criminal
As long as your mine
I want your love
(Love, love, love I want your love)

I want your psycho
Your vertigo stick
Want you in my rear window
Baby your sick
I want your love
Love, love, love
I want your love
(Love, love, love I want your love)

You know that I want you
('Cause I'm a freak bitch baby!)
And you know that I need you
I want a bad, bad romance

I want your love and
I want your revenge
You and me could write a bad romance
(Oh-oh-oh-oh-oooh!)
I want your love and
All your lover's revenge
You and me could write a bad romance

Oh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh!
Caught in a bad romance
Oh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh!
Caught in a bad romance

Rah-rah-ah-ah-ah-ah!
Rama-ramama-ah
GaGa-ooh-la-la!
Want your bad romance

Walk, walk fashion baby
Work it
Move that bitch c-razy

Walk, walk fashion baby
Work it
Move that bitch c-razy

Walk, walk fashion baby
Work it
Move that bitch c-razy

Walk, walk passion baby
Work it
I'm a freak bitch, baby

I want your love
And I want your revenge
I want your love
I don't wanna be friends

J'veux ton amour
Et je veux ton revanche
J'veux ton amour
I don't wanna be friends
Oh-oh-oh-oh-oooh!
I don't wanna be friends
(Caught in a bad romance)
I don't wanna be friends
Oh-oh-oh-oh-oooh!
Want your bad romance
(Caught in a bad romance)
Want your bad romance!

I want your love and
I want your revenge
You and me could write a bad romance
Oh-oh-oh-oh-oooh!
I want your love and
All your lovers' revenge
You and me could write a bad romance

Oh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh!
Want your bad romance
(Caught in a bad romance)
Want your bad romance

Oh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh!
Want your bad romance
(Caught in a bad romance)

Rah-rah-ah-ah-ah-ah!
Rama-ramama-ah
GaGa-ooh-la-la!
Want your bad romance

Vários pontos me chamaram a atenção nesta letra, pontos estes que parecem guardar uma forte ligação com o enredo de O Morro dos Ventos Uivantes: "caught in a bad romance" ("presa em uma história de amor do mal"), "I want your love" ("eu quero o seu amor"), "I want your drama" ("eu quero o seu drama"), "I want your revenge" ("eu quero a sua vingança"), "You and me could write a bad romance" ("você e eu poderíamos escrever uma história de amor do mal"), "I want your love and / All your lover's revenge" ("eu quero o seu amor e / toda a sua vingança de amante"), "I want your psycho" ("eu quero a sua insanidade"), "I don't wanna be friends" ("eu não quero que sejamos amigos").

O que é o enredo de O Morro dos Ventos Uivantes senão um "bad romance" ("uma história de amor ruim" ou, mais adequadamente, "uma história de amor do mal")? O que buscam as personagens principais, Catherine Earnshaw e Heathcliff, senão o amor? Essa busca é dramática, resulta em vingança, é insana tanto por parte de Catherine ao voltar como fantasma de si própria quanto por parte de Heathcliff com sua vingança. Apesar dos dois protagonistas serem, inicialmente, amigos, Heathcliff, a grande personagem satânica da obra, não quer apenas amizade mas sim casar-se com Catherine.
As relações amor/ódio e amor/vingança são elevadas a tal ponto que suas barreiras se amainam e os membros desses pares se mesclam, se interpenetram e não mais se excluem mutuamente. Emerge daí uma história de amor do mal, uma história de amor entre seres do mal que vai além da Vida e da Morte e além do próprio Bem e do próprio Mal. Sim, Catherine e Heathcliff são seres malignos consigo próprios e com os outros que os rodeiam. No entanto, nenhum de nós, leitores, consegue sentir algo de ruim por eles: as duas personagens foram vítimas inexoráveis de circunstâncias não propícias para que seu amor pudesse ser vivenciado enquanto eram habitantes deste mundo que chamamos erroneamente de real. Somente no Além, onde não há amarras ou impedimentos de quaisquer tipos, onde não há preconceitos e normas sociais espúrias, eles conseguiram se encontrar em paz e vivenciar o que sentiam um pelo outro.
Eis uma das minhas passagens preferidas da obra:

an odd thing happened to me about a month ago. I was going to the Grange one evening — a dark evening, threatening thunder — and, just at the turn of the Heights, I encountered a little boy with a sheep and two lambs before him; he was crying terribly; and I supposed the lambs were skittish, and would not be guided.
‘What is the matter, my little man?’ I asked.
‘There’s Heathcliff and a woman yonder, under t’ nab,’ he blubbered, ‘un’ I darnut pass ‘em.’
I saw nothing; but neither the sheep nor he would go on so I bid him take the road lower down. He probably raised the phantoms from thinking, as he traversed the moors alone, on the nonsense he had heard his parents and companions repeat. Yet, still, I don’t like being out in the dark now; and I don’t like being left by myself in this grim house: I cannot help it; I shall be glad when they leave it, and shift to the Grange.
(BRONTË, 2003, p. 282)

Romântico? Mexicano? Shakespeareano?
Sim, todos estes adjetivos se aplicam a O Morro dos Ventos Uivantes. Mas uma história de amor do mal, a la Gaga, é tudo isso: romântica, mexicana e shakespeareana. Pós-moderna, em outras palavras. Pop. Pois tudo que é Pop, desde que seja de qualidade, se torna clássico e permanece através dos tempos, assim como os românticos, o dramalhão mexicano, as peças de Shakespeare e a obra-prima de Emily Brontë. E sim, eu estou sugerindo que Lady Gaga tende a permanecer através dos tempos pelo simples motivo de que o que ela faz enquanto artista é bom.
Tão bom quanto Shakespeare, Cido Rossi, seu louco, desvairado?!!!
Sim, tão bom quanto o Supremo Shakespeare e a Suprema Emily Brontë. Como eu sempre digo, Shakespeare era a Lady Gaga do século XVI: ele fazia Londres vir a baixo com o poder vibrante de suas obras popularíssimas entre nobres e plebeus; e Emily Brontë foi a Lady Gaga do século XIX: ela era mais lida que o próprio Shakespeare naquela época.


* * *

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BRONTË, Emily. Wuthering Heights. Hazleton: The Pennsylvania State University, 2003.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

OS 10 LIVROS QUE VOCÊ TEM QUE LER ANTES DE MORRER

A grande maioria das pessoas adora me perguntar quais são meus filmes preferido, quais são minhas músicas preferidas, quais são meus atores e atrizes preferidos, quais são meus cantores preferidos, qual é minha maquiagem preferida etc.

Mas raríssimas foram as pessoas que, até hoje, me perguntaram quais são meus livros preferidos.
E é claro que isso tem uma explicação lógica: 99,99% das pessoas, e essa porcentagem NÃO se aplica apenas às pessoas que conheço, simplesmente não lêem, não têm o hábito da leitura. Sim, isso é lastimável.
Mas mais lastimável do que isso é saber que os 0,01% restantes que dizem ler geralmente lêem Paulo Coelho, Gabriel Chalita, Roberto Shiniachique, Padre Marcelo Rossi (não, ele não é meu parente, graças a Deus!), Lair Ribeiro, Padre Fábio de Melo e todo esse lixo asqueroso conhecido como auto-ajuda (auto-ajuda para os autores, é claro, que estão ganhando horrores de dinheiro enquanto idiotas lêem as infinitas bobagens que eles escrevem e, pior do que isso, acreditam e pautam suas vidas por esses rabiscos!). Quando a ínfima porcentagem de leitores que conheço — absoluta exceção, é claro, aos amados amigos da área de Literatura — não lêem auto-ajuda, eles lêem ficção fantástica de décima categoria (Dean Koontz, Stephen King e praticamente todas as publicações brasileiras do gênero).

Mesmo meus alunos no curso de Letras geralmente não lêem. Já perguntei a vários deles o que estavam lendo e, quando a resposta não era simplesmente "nada", era um paradoxal "não gosto de ler". Interessante isso... não gostar de ler e ir estudar Letras. É o mesmo que não gostar de números e ir estudar Matemática.

Muitas pessoas com quem converso sobre leitura dizem ter assistido aos filmes que adaptam textos literários ao cinema. Algo do tipo: "Você já leu 'O Senhor dos Anéis'?", pergunto eu na minha inocência naïve, ao que o ser humano responde "Não... mas já assisti o filme!". É claro que a conversa sobre leitura termina aí e eu já desisti de tentar explicar o óbvio ululante, que por ser tão óbvio é tão difícil: livros e filmes com o mesmo título NÃO SÃO A MESMA COISA. A grande maioria das pessoas sabe disso, mas assistir a um filme é muito mais rápido do que ler um livro... e então está tudo certo.

Em suma, hoje vou responder uma pergunta que quase nunca me foi feita (talvez porque eu adore responder a perguntas que normalmente não são feitas): quais são seus livros preferidos?, livros que, por extensão, são os livros que todos deveriam ler antes de morrer. É óbvio, não é minha gente?!, que eu mesmo criei meu cânone e agora estou apresentando-o ao Mundo! Contra-cânones ao meu são muito bem vindos... se você tiver coragem, é claro, de propor um outro cânone diferente do meu. Aos que se sentirem tentados, fiquem à vontade em usar os comentários pra isso... rsrsrs

Aproveitando a onda das listas das 1001 coisas que você tem que fazer antes de morrer, abaixo estão os singelos 10 livros que eu mais gosto e que VOCÊ TEM QUE LER ANTES DE MORRER!

10º - O NOME DA ROSA [Il Nome della Rosa, 1980], de Umberto Eco.
Meu décimo lugar é um clássico dos clássicos: um romance policial que se passa na Idade Média. Tudo em O Nome da Rosa é genial: as personagens fascinantes (AMO Dom Guilherme de Baskerville, o frei-detetive), o cenário esfumaçado e sombrio (aquela biblioteca labiríntica é a própria "Biblioteca de Babel", de Borges...), os crimes hediondos (para quem só assistiu ao filme — que, diga-se de passagem, é uma porcaria — perdeu pelo menos 4 dos 7 crimes que acontecem).
O que eu mais gosto nesse livro, no entanto, é a chave da história: o mítico livro sobre a comédia que Aristóteles teria escrito em continuação à sua Arte Poética. Na Poética, um ensaio sobre a tragédia, Aristóteles diz que trataria da comédia em um outro texto. A questão é que esse texto nunca foi encontrado. Umberto Eco usa esse fato como ponto central de seu livro e, lá no final da história, apresenta para nós, leitores, sua versão de como seria a primeira página desse texto mítico. Enfim... é orgástico.

9º - UM BONDE CHAMADO DESEJO [A Streetcar Named Desire, 1947], de Tennessee Williams.
Essa é uma peça de teatro. "A" peça de teatro. Aqui está todo o drama de ser alguém pertencente ao século XX, de ser alguém deslocado em um século de deslocamentos. Tennessee constrói um brilhante e vertiginoso jogo de luz e sombra, de passado e presente, de sanidade e loucura. Blanche DuBois... ah! Blanche, Blanche querida, eu sou você.
"Seja você quem for — eu sempre dependi da gentileza de estranhos" (cena 11).

8º - O SENHOR DOS ANÉIS [The Lord of the Rings, 1954 - 1955], de J. R. R. Tolkien.
Não há texto fantástico mais brilhante e mais bem construído do que esse. Tudo que se produziu depois (As Crônicas de Nárnia, Harry Potter, Percy Jackson etc., etc., etc.) não passa de simples sombra, de simples arremedo do texto supremo.
O Senhor dos Anéis é muitas coisas: um épico, um romance, um texto fantástico, um mito para o povo inglês, a história do Um Anel, a história de Frodo, a história de todos nós, a história que todos nós gostaríamos de ter contado, o motivo de existência dos jogos de RPG. Mas, acima de tudo, ele é a história da nossa vida, das escolhas que temos que fazer ou que somos levados a fazer por força das circunstâncias, e das responsabilidades que assumimos ao fazer essas escolhas.

7º - FAUSTO [Faust, 1806 - 1832], de Johann Wolfgang von Goethe.
A história da maior das ambições humanas: o conhecimento. Basicamente, é a história do doutor Fausto, um cientista que, em busca do conhecimento último, vende sua alma ao Diabo para consegui-lo; e sim, ele consegue. Mas, é claro, fica exasperado com o que descobre e luta para conseguir desfazer o contrato de venda com Mefistófeles, um dos vários nomes do Demônio.
Ao terminar de ler o Fausto ficamos com a interessante sensação de que o Diabo somos nós mesmos... somos todos demônios de nós mesmos, sempre buscando o pior para nós, iludidos que somos por nossas crenças errôneas.
Fausto é também uma belíssima visão do Demônio, a mais incompreendida de todas as personagens inventadas pela Literatura Ocidental.

6º - O MORRO DOS VENTOS UIVANTES [Wuthering Heights, 1847], de Emily Brontë.
De longe o mais arrebatador, o mais poderoso, o mais brilhante romance que já li em toda a minha vida. A força da narrativa é tão grande que precisei ler aos poucos, parando de tempos em tempos para respirar e não infartar. Se você puder ler no original, faça isso. Infelizmente, a tradução aqui perde muito.
O Romeu e Julieta, de Shakespeare, parece uma novela mexicana perto dessa obra.
Um aviso para você que leu Crepúsculo e só ouviu falar dessa obra via essa cretinice idiota e imbecil rabiscada por uma pseudo-escritora: NÃO LEIA ESSE ROMANCE! O Morro dos Ventos Uivantes NÃO É PARA VOCÊ! E lhe digo porque: por que essa é uma obra de verdade, é Literatura de verdade, e não isso que você leu ou está lendo. Para você, a obra máxima de Emily Brontë vai fazer mal por ser complexa demais e brilhante demais para o seu nível de compreensão. Então, coloque-se no seu lugar e vá agora ler Danielle Steel ou Sidney Sheldon se você já leu todo o lixo escrevinhado por Stephenie Meyer.

5º - O DESPERTAR [The Awakening, 1899], de Kate Chopin.
De uma delicadeza imponderável. De um brilhantismo comparável apenas a O Morro dos Ventos Uivantes. Revolucionário. Inovador. Desarticulador. O romance que ensinou as mulheres e o Feminismo a resistir. O romance que me ensinou a resistir e a persistir.
Eu sou extremamente suspeito para falar dessa obra depois de ter escrito uma dissertação de mestrado e artigos sobre ela. Contudo, certamente você será uma pessoa antes de lê-la e outra pessoa depois de lê-la. Aliás, será uma pessoa muito melhor depois de lê-la.

“Eu desistiria do não-essencial; daria meu dinheiro, daria minha vida, por meus filhos; mas não daria a mim própria” (capítulo XVI).

4º - A ILÍADA [Ιλιάδα, c. VIII a.C.], de Homero.
O texto fundador de toda a Literatura Ocidental. Antigo, difícil de ler mesmo nas melhores traduções, um texto que exige uma paciência de leitura e compreensão que há muito perdemos. Ainda assim, A Ilíada é estonteante, de uma beleza ímpar e de uma originalidade incomparável. Não há como deixar de se apaixonar pelo irado Aquiles, não há como não odiar Agamêmnon com todas as forças, não há como não chorar por Heitor, não há como não amar as maquinações de Afrodite.
Qualquer leitura d'A Ilíada é desconcertante por dois motivos: 1) Descobrimos que toda a literatura, o cinema e a cultura já foram escritos, filmados e produzidos oito século antes de Cristo, e que tudo que parece novo é só isso: parece novo, mas não é. 2) Nós nos reconhecemos, hoje, nesse texto profético: A Ilíada descreve, com toda naturalidade e sobriedade que só os gregos poderiam ter, quem somos nós, seres humanos, hoje, agora, século XXI. Nenhum texto literário é mais atual do que A Ilíada, porque nela encontramos nosso espírito cultural e individual. Nós estamos escritos nesse texto, por mais assombroso que isso possa parecer.

3º -  A DIVINA COMÉDIA [La Divina Commedia, 1307 - 1321], de Dante Alighieri.
A Comédia de Dante funda, na minha opinião, o Ocidente como ele é hoje. Nossos medos, nossos desejos, nossas incompreensões, nossos erros, nossas buscas. Tudo está ali, trançado em terza rima.
As imagens do Inferno, do Purgatório e do Paraíso construídas no nosso imaginário foram inventadas e pintadas por esse texto.
O Inferno! Ah, o Inferno! Nenhum poema que eu tenha lido até hoje se compara à força poética do Inferno de Dante.
Esse é um texto para quem não tem preconceitos, para quem não tem medo do Inferno, do Demônio, de Deus etc. É um texto para quem quer compreender o que são os dogmas de todas as religiões, dogmas que fundaram nossa cultura e que estão tão arraigados em nós que passaram a pautar nossa existência.
Não, esse não é um texto para pessoas fracas de espírito e de compreensão, nem para diletantes em Literatura, nem para iniciantes e nem para pessoas com menos de 30 anos de idade. 99% das pessoas que tentam ler a Comédia de Dante a abandonam no primeiro canto do Inferno, portanto não perca o seu tempo se você tem pouca experiência de vida: esse não é um texto para leitores comuns.

2º - Hamlet [Hamlet, Prince of Denmarke, 1599 - 1601], de William Shakespeare.
O que dizer de Hamlet? Nada.
Hamlet é um texto que nos cala, que nos assombra, que nos prostra. Ele nos lança dentro de nós mesmos sem a menor compaixão, escava o mais íntimo do nosso ser e coloca à mostra nossas feridas mais sangrentas. Hamlet é o texto que dramatiza a condição humana como ela é, e não como nós gostaríamos que ela fosse. É por isso que toda a Literatura Ocidental divide-se entre Antes de Hamlet e Depois de Hamlet.
"Que obra-prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Que capacidade infinita! Como é preciso e bem-feito em forma e movimento! Um anjo na ação! Um deus no entendimento, paradigma dos animais, maravilha do mundo. Contudo, pra mim, é apenas a quintessência do pó" (Ato II, cena II).

1º - ÉDIPO REI [Οἰδίπους Τύραννος, c. III a.C.], de Sófocles.
Finalmente, o primeiro, o Livro dos Livros, o Texto dos Textos, o Texto Supremo. NADA, ABSOLUTAMENTE NADA, se compara a esse. Ele é único, inigualável, inimitável. O único texto que pode ser chamado de PERFEITO em letras garrafais, e ainda assim essa palavra é muito limitada para exprimir o que ele de fato é.
Pouco há a se dizer sobre esse texto, porque só é possível lê-lo e senti-lo. É praticamente impossível falar sobre ele. Não porque se trate de um texto como Hamlet, que cala o leitor, ou de um texto de extrema complexidade, mas sim por que Édipo Rei funda a nossa cultura e o nosso eu. Ele inaugura nossa existência. Como falar de algo que te criou? Como falar de algo que sabe mais sobre você do que você mesmo? Como falar de algo que está em você e é você de uma maneira inelutável e inescapável?
É como tentar falar de Deus: não é possível falar de Deus, pois se fosse possível falar de Deus Ele não seria Deus. Essa mesma impossibilidade se aplica ao Édipo Rei.
Apenas duas coisas eu consigo exprimir sobre essa obra: 1) É o texto que instaura a questão da existência, a pergunta-chave, a bifurcação do ser a que todos nós um dia chegamos em nossas vidas: quem sou eu? 2) Ele dá a resposta para essa pergunta.
Antes de ler Édipo Rei, no entanto, eu recomendo veementemente que você considere as palavras escritas no portal do Oráculo de Delphos: "Conhece a ti mesmo".