segunda-feira, 18 de abril de 2011

A "CONTROVÉRSIA" VAN-CIDO SOBRE A OBRA TARANTINIANA

Há meses que não publico aqui no meu amado blog.
Estive hibernando no adorável Mundo das Teses de Doutorado, um lugar cheio de fantasia e aventura perdido entre o mundo “real” e o mundo da “ficção”, de onde você só consegue sair depois de escrever umas trezentas páginas sobre alguma coisa bem difícil que dificilmente alguém vai ler. Logo mais virá um post sobre essa minha interessante experiência nesse multiverso maravilhoso, fantástico e, evidentemente, completamente fora de qualquer concepção de realidade. Aliás, como eu sempre digo, realidade é para os fracos... rsrsrs.

Agora, depois de ter parido meu lindo bebê de quatrocentas e dez páginas e batizado a criança com o cabalístico nome de “Segredos do Sótão” (os padrinhos foram Jacques Derrida, Sigmund Freud, Sandra Gilbert e Susan Gubar), eis que aos poucos começo a retornar à vida cotidiana e eu não poderia deixar de retornar ao meu querido blog sem ser em grande estilo.
Por isso, quero marcar este retorno trazendo uma assim chamada “controvérsia”: a Controvérsia Van-Cido sobre a obra Tarantiniana.

Vem comigo, minha gente! Se joga na “controvérsia”!

 
ADVERTÊNCIA: HÁ SPOILERS (revelações importantes sobre o enredo de vários filmes) ABAIXO.

No dia 18 de março último, meu irmão publicou em seu blog (o Perversão!, altamente recomendado àqueles que gostam de uma boa discussão sobre o mundo hoje) um interessante post intitulado “Café re-Quentin Tarantino”. Eu sugiro que você leia esse post do meu irmão antes de ler o que segue, assim você poderá se inteirar melhor da questão e, é claro, ter acesso à uma brilhante leitura e interpretação dos filmes do Grande Mestre do Cinema Pós-Tudo.

Como todo bom cientista social de linha sociológica, meu irmão ADORA uma “controvérsia”. Aliás, os cientistas sociais são rigorosamente treinados nesse tipo de coisa: cursam disciplinas obrigatórias como “Teoria e Prática da Luta Armada de Classes”, “Prática de Guerrilha Aplicada ao Capitalismo Selvagem”, “Introdução à Greve nos Setores Público e Privado”, “Como destruir seu interlocutor com uma só palavra ou com um golpe de muoi-tai” e fazem estágio supervisionado em Sierra Maestra, na parte colombiana da Floresta Amazônica e nos acampamentos do MST. Em resumo, mexe com eles e você pode ser raptado pelas FARC para sempre, ser obrigado a assistir a um discurso de Hugo Cháves ou, pior ainda, ir para “El Paredón” ou, que coisa tenebrosa!, ter que discutir Política com eles.

Sim, por que o povo de Sociais tem os contatos mais escabrosos da face da Terra, já que a primeira disciplina que eles cursam no primeiro ano de faculdade é “Como organizar motins (armados ou não)”, que é pré-requisito para a importantíssima disciplina “Modos de fabricação do Coquetel Molotov e derivados”. Ou seja, trabalho em grupo é especialidade deles; e só se você for um masoquista inveterado se porá a discutir Política com alguém de Sociais.

Note que, se você achava que o povo de Sociais é composto apenas por fumantes de maconha e hippies mal-encarados e barbudos como aparições de Woodstock ou reencarnações fantasmagóricas de Che, VOCÊ SE ENGANOU REDONDAMENTE!

Há muito tempo eles deixaram de ser meros marxistas comedores de criancinha para serem hackers futuristas que estão secretamente tramando a instauração de uma nova ordem mundial por meio de um golpe de estado simultâneo em todos os países do mundo. O primeiro passo para a concretização desse plano maquiavélico de dominação do Universo (sim, eles pretendem destituir Deus desse cargo e colocarem no lugar uma junta de trabalho em reunião permanente) é a absoluta obliteração do Capitalismo e a instauração de um novo sistema que vai trocar moedas de toda espécie por minutos de discussões políticas gravadas e transmitidas ao vivo pela TV Câmara... não é por acaso, minha gente, que o blog do meu irmão se chama Perversão! (da Ordem)!

Aliás, meu irmão é uma das mentes diabólicas por trás da CBPBAANOMCACM (Comuna Brasileira de Paris em Buenos Aires para a Articulação da Nova Ordem Mundial Cubana Anti-Capitalista de Marisales), o insidioso partido político que tomará o poder do Universo nos próximos anos a partir de panfletos comunistas distribuídos em surdina, na calada da noite, entre a população das classes C, D, E, F, G e H que, futuramente, será fundida em uma única e nova classe social: a classe PG (Perestroika & Glasnost).
RSRSRSRSRSRSRS!

Brincadeiras à parte, o que meu irmão chama de “controvérsia” sobre a maneira como Tarantino trata algumas questões concernentes ao seres humanos resume-se, basicamente, no seguinte: Van concebe os filmes de Tarantino como retratos da perversão humana; Cido concebe os filmes de Tarantino como tratados sobre a violência em todas as suas manifestações.

Haveria alguma possibilidade de consenso entre os dois debatedores? Você decide sobre isso. Mas (e sempre há um maldito “mas”...), fique advertido(a) desde já que respostas como “sim” e “não” são excessivamente simplistas para tratar da questão.

A leitura de Van sobre a obra Tarantiniana é muito boa. Como toda boa leitura, ela demanda uma “contra”-leitura, uma leitura outra, não necessariamente oposta, mas suplementar, ou seja, que ao mesmo tempo possa complementá-la e, de algum modo por demais misterioso, ser um excesso a ela.

Por isso, o que eu vou propor abaixo não é exatamente uma outra leitura e sim uma leitura outra, uma leitura da leitura de Van que não é, em absoluto, uma re-leitura ou propriamente uma contra-leitura, mas sim uma desleitura.

Vamos por partes, como diria Jack.
Eu vou seguir aqui a mesma interessante divisão em capítulos proposta por Van. Cada um dos meus capítulos é um espelho dos capítulos escritos por ele em seu post.


Capítulo I – Au-delà

Van diz que a grande temática de Tarantino é a perversão.
Eu continuo na minha posição de que é a vingança.

Todo filme de Tarantino contém um trajeto, uma busca, uma empreitada, e essa busca, como Van nota sem perceber, é o Caminho do Herói, o caminho do qual falarei em instantes.

A perversão não demanda esse tipo de busca. Ela pode, é claro, fazer parte da busca como um ingrediente a mais, como de fato ocorre, por exemplo, quando Marsellus Wallace é capturado e estuprado por Zed e Maynard em Pulp Fiction. No entanto, nós não podemos esquecer que isso ocorre por que Marsellus estava perseguindo Butch, ou seja, estava em busca de Butch, e não por que Tarantino quer dissecar a perversão humana do gay S&M black leather.

Tarantino usa a perversão humana nas suas mais variadas formas como uma maneira de desviar a atenção dos espectadores, como um jogo, uma brincadeira, um “segredinho só nosso” entre diretor e público. Esse desvio de atenção, no entanto, é sempre na medida certa e é sempre impactante, o que resulta na construção de sub-enredos, mini-universos coadjuvantes da composição de um multiverso que, ao final, ajudam a delinear esse multiverso, mas estranhamente não o são ou não o caracterizam. Toda vez que a perversão se manifesta nos filmes de Tarantino, ela deixa uma linha solta que poderia ser puxada e resultaria, invariavelmente, em outro(s) filme(s). Isso faz parte da técnica do cineasta.

No entanto, nenhuma das poucas perversões que Tarantino mostra ou alude fundamenta seus filmes ou é a chave-mestra de quaisquer dos seus enredos.

É importante lembrar aqui que eu entendo perversão sempre na perspectiva freudiana do termo, ou seja, um desvio de comportamento e/ou personalidade do eu (ego) em relação ao outro (superego) resultante de uma neurose ou psicose (um distúrbio causado pelo id). Dentro desse escopo, perversão não é golpes de artes marciais, instilação de dor ou sofrimento humanos por si só, perseguições, acidentes, jorros de sangue, órgãos decepados, enterros de pessoas vivas, usos assombrosos de espadas Hanzo etc.
Perversão é o prazer do eu no sofrimento do outro. Não basta apenas gerar ou causar sofrimento. É preciso que alguém, personagens ou espectadores, sinta prazer com esse sofrimento.

Além disso, a perversão pode ser, além de um desvio psíquico, também um desvio ético-moral às regras sociais, caso de Chefe Matsumoto em Kill Bill. Chefe Matsumoto era pedófilo, o que não é exatamente um desvio psíquico, mas sim o desvio às normas ético-morais de comportamento estabelecidas pela sociedade. Esse último caso de perversão é, no entanto, muito discutível à medida que traz à tona a questão do entendimento da perversão enquanto perversão: "perversão na perspectiva de quem?" é a pergunta que emerge ao colocarmos o aspecto social na jogada.

Dentro desse entendimento, temos muito pouca perversão na obra Tarantiniana. Na verdade, o que temos são mais pervertidos do que perversões propriamente ditas: Mr. Blonde em Cães de Aluguel; a cena a que me referi acima em Pulp Fiction; Buck, Chefe Matsumoto e Gogo em Kill Bill; Stuntman Mike em À Prova de Morte; Hans Landa em Bastardos Inglórios; e Calvin Candie em Jango Livre. Não consigo vislumbrar outras possibilidades além dessas e, em termos estatísticos, Jackie Brown é o filme que menos tem perversões/pervertidos e Kill Bill é o que mais tem esse tipo de ocorrência.

Assim, permaneço com a opinião de que a obra de Tarantino é uma reflexão especificamente sobre a vingança, e a vingança não é, em absoluto, uma perversão, mas sim um trajeto de busca que pode ou não levar à aniquilação do vingador e/ou de sua vítima/algoz e, pelo que temos visto nos filmes do cineasta, ele tem optado pela vingança que não leva à aniquilação, ou seja, pela vingança que se concretiza de modo indelével, pela vingança como prato de fato comido frio, e não como algo que é ruim ou que se volta contra o vingador.

Quem caminha pelo Caminho da Vingança nos filmes de Tarantino tem duas características: 1) sua vingança é justa, ou seja, a vingança é merecida e até mesmo as vítimas da vingança, que em momento anterior foram os algozes de quem se vinga, têm consciência disso (lembremos a fala de Budd em Kill Bill 2: “Essa mulher merece sua vingança. E nós merecemos morrer".); 2) uma vez buscada, ainda que a duras penas, a vingança será conseguida e todos ficarão quites, pois todos são, no fundo e cada um a sua maneira, bandidos.

Esse fato da vingança ser um trajeto, um caminho, na obra Tarantiniana nos traz de volta à questão do Caminho do Herói que mencionei no início.

Van diz que reconhece em Kill Bill, em Pulp Fiction e em Bastardos Inglórios a saga do herói grego, ou seja, do herói épico clássico, aquele a quem é oferecido escolher seu Destino por que ele é um semideus ou um protegido dos deuses, logo ele conhece sua Nêmesis, o final de sua existência terrena. Além disso, não podemos esquecer que o herói grego clássico deve ser tomado como uma entidade social, a representação do espírito cultural de um povo, o que o torna um modelo a ser seguido. Exemplos desse tipo de herói são os grandes guerreiros das epopéias gregas: Aquiles, Heitor e Ulisses.

Eu creio que esse modelo de herói não se aplica facilmente aos filmes de Tarantino por uma questão básica: o herói épico grego luta pela justiça, e não pela vingança. Justiça e vingança não são a mesma coisa: justiça é uma concepção resultante de uma convenção coletiva; enquanto vingança é a busca por uma justiça pessoal e particular.

Exemplo básico é Aquiles, o grande e contraditório herói épico grego por excelência: quando Helena, o espírito do povo grego, é “raptada” por Páris Alexandre, Aquiles entra na batalha contra Tróia por justiça, ou seja, para resgatar um bem coletivo, mesmo sabendo que ao fazê-lo encontraria sua Nêmesis. No entanto, quando Heitor mata Pátroclo, primo e possível “amante” de Aquiles, por acidente, Aquiles é tomado por uma fúria incontrolável que o leva a buscar a vingança contra Heitor. Ele assim procede e mata Heitor. Se a questão parasse por aí não teríamos um problema tão grande. No entanto, além de matar Heitor, Aquiles vilipendia seu cadáver, um ato imperdoável mesmo entre os deuses, e atrai sobre si a justiça das Erínias, as Senhoras do Destino: como a vingança de Aquiles não foi justa e, mais do que isso, ele vilipendiou o corpo do injustiçado, Heitor será vingado pelas próprias Erínias, que farão com que Aquiles encontre sua Nêmesis da forma mais desprezível para um herói grego, pois ele será morto acidentalmente (a flecha atirada por um mau-arqueiro que atinge o calcanhar) por um guerreiro sem honra (Páris Alexandre) que não lhe dará a chance de pelejar com dignidade, o que é uma desonra para o herói grego.

Não é isso que vemos nos filmes de Tarantino.

O (anti)herói Tarantiniano está sempre em busca de vingança, ou seja, em busca de uma justiça pessoal que o leva a desafiar toda e qualquer forma de convenção social (ética e moral), mas, paradoxalmente, esse (anti)herói pauta-se sempre pela honra.

Isso torna o herói Tarantiniano não um exemplo de herói épico grego, mas um brilhante exemplo de herói pós-moderno, o herói fragmentado que de claro só tem a sua própria busca, geralmente uma busca que transita por caminhos obscuros e dúbios.

O herói pós-moderno reúne características do herói épico grego, do herói medieval e do anti-herói romântico. Como tal, ele nunca é exatamente um herói na concepção clássica do termo, ou seja, um modelo a ser seguido, pois sempre apresenta uma face má que o identifica com o vilão. O paradigma desse tipo de herói pode ser expresso na fala de Beatrix Kiddo a Vernita Green quase ao final da primeira cena de Kill Bill: “O que me falta é compaixão e clemência, não racionalidade”.

São esses paradoxos que guiam Tarantino na sua composição da vingança como busca do herói, pois assim como o herói pós-moderno tem muitas faces, e todas esdas faces são infixas, o caminho perseguido por esse herói também é infixo: nunca se sabe o que se vai encontrar quando se trilha o Caminho da Vingança. É o trilhar desse caminho que interessa a Tarantino, pois é no caminhar que vêm à tona os dramas da condição humana, sendo a perversão um desses dramas, mas não só. No Caminho da Vingança há também a maternidade (Kill Bill); há uma louca que cheira heroína (Pulp Fiction); há o revidar da vítima que se torna, então, algoz (À Prova de Morte); há a justiça daqueles que foram cruelmente assassinados sem motivo (Bastardos Inglórios); há a vingança das vítimas/algozes da vingança (rumores sobre Kill Bill 3), que poderíamos então chamar de justiça?

Capítulo II – A Narrativa, Fatalmente

Van coloca em questão duas características fundamentais de todos os filmes de Tarantino: a fragmentação do enredo e as tomadas de cena.

Para Van, os usos que o cineasta faz dessas técnicas remetem a um livro de contos, onde até pode haver alguma coerências entre os enredos, mas todos mantêm primeiramente uma coerência interna que não necessariamente os conecta uns aos outros.

Se os filmes de Tarantino tivessem essa organização teríamos obras simplesmente ininteligíveis e incompreensíveis por uma questão técnica: um filme não tem os mesmos recursos de um livro.

Um livro não precisa necessariamente ser um todo de sentido. Ele pode, como bem aponta Van, ser um livro de contos ou mesmo um livro de ensaios em que as partes não precisam ter absolutamente nenhuma conexão entre si. É por isso que a maneira de se ler um livro de contos ou um livro de ensaios é totalmente diferente da maneira de se ler um romance: enquanto num livro de contos podemos ler apenas um conto e teremos já ali um todo de sentido completo, não é possível ler apenas um capítulo de um romance, pois o todo de sentido da obra não estará inteiramente condensado ali.

O mesmo ocorre com um filme: um filme é sempre um todo de sentido, e aqui eu me refiro especificamente aos filmes de ficção (isso não se aplica a documentários, filmes institucionais etc.). Não é possível assistir apenas uma cena de filme e tomá-la como as completas possibilidades de sentido de todo o filme. Um filme é como um romance: todas as partes têm, necessariamente, que estar conectadas de alguma forma nem que seja pela desconexão mútua.

Mestre Tarantino, em sua sabedoria suprema, entende como poucos essa semelhança a ponto de usar a própria estrutura do romance em seus filmes: Tarantino normalmente divide suas obras em capítulos demarcados, às vezes até intitulados (como ocorre em Pulp Fiction e Kill Bill), o que deixa claro que há uma organização interna presente na obra e que essa organização não é casual ou meramente técnica, mas significativa.

Desse modo, certamente todas as partes são interligadas entre si e elas objetivam com isso formar um todo de sentido. No entanto, esse todo de sentido não é fixo e sim móvel: o espectador pode assistir o filme não apenas na ordem proposta pela organização dada pelo diretor, mas compor sua própria organização. Em outras palavras, pode-se assistir Pulp Fiction ou Kill Bill pulando-se as cenas como se queira que, ainda assim, o espectador encontrará um todo de sentido outro e diferente do proposto ao se assistir ao filme em sua sequência original.

Genial como só poderia ser Mestre Tarantino, seus filmes não foram feitos para serem assistidos no cinema, mas sim no DVD, onde o espectador tem a liberdade de iniciar e concluir o filme da forma que quiser, de ordenar as cenas ao seu bel prazer e, com isso, assistir não apenas a um filme, mas a vários filmes. Ao mesmo tempo, e misteriosamente, os filmes de Tarantino adquirem proporções épicas quando assistidos na tela do cinema.

Deixo aqui uma sugestão a quem quiser tentar comprovar minhas palavras. Assista Pulp Fiction na seguinte ordem (e depois me conte, é claro!):

1) Prelude to “The Gold Watch” (flashback);
2) Prelude to “Vincent Vega and Marsellus Wallace’s Wife”;
3) “The Bonnie Situation”;
4) Prologue – “The Diner” (part 1);
5) Epilogue – “The Diner” (part 2);
6) “Vincent Vega and Marsellus Wallace’s Wife”;
7) Prelude to “The Gold Watch” (present);
8) “The Gold Watch”.

Capítulo III – AMINADAB [leia a palavra de trás para frente... rsrsrs]

No seu terceiro capítulo, Van propõe um intrincado enigma sobre o contrato que o espectador assina com sangue com Tarantino para poder assistir aos seus filmes. Jogando com referências que só quem teve infância conhece [o conto de fadas “Rumpelstiltiskin”, dos irmãos Grimm; e o nome enigmático Tenbreenan Cragsistan, uma personagem que aparece num dos mais emocionantes episódios da animação “Cavalo de Fogo”], Van está tratando justamente das referências contidas nos filmes de Tarantino, referências que são as chaves-mestras dos seus enredos e que apenas cinéfilos e especialistas conseguem distinguir. O interessante enigma proposto por Van, variação do enigma que Tenbreenan Cragsistan propõe à Princesa Sarah no mencionado episódio de “Cavalo de Fogo”, diz o seguinte:

Se você descobrir os meus personagens onde o nome delas não está [ou seja, nos diversos filmes que são as bases dos enredos de Tarantino] e o meu nome em personagens onde eu não estou [ou seja, nas diversas personagens cinematográficas e literárias referidas por Tarantino em seus filmes], eu pagarei o seu preço.

É um mistério qual seria o preço que Tarantino pagaria ao espectador que conseguisse encontrar as referências feitas por ele em seus filmes, e esse mistério deve assim permanecer como o Mistério de Van. Certamente que esse preço não seria o espectador deixar de assistir aos filmes do Grande Mestre. Pelo contrário, descobrir as referências de Tarantino seria um motivo a mais para assisti-los e conseguir distinguir a magistralidade com a qual ele elabora e conecta tais referências de modo a construir algo totalmente novo e impressionante.

Diferente de Lady Gaga, que eu ADORO, mas que tenho que reconhecer que é uma cópia da cópia, cuspida e escarrada, de Madonna e Elton John, Tarantino é infinitamente mais sutil na construção de suas referências: ele as burila, ele as oculta em seus filmes, ele deixa pequenos fios propositalmente soltos para que o espectador atento os puxe. Tarantino sugere e, com isso, respeita seu espectador, que pode ou não aceitar seguir a sugestão. Se ele não o fizer, estará diante de um excelente filme, o que já é bastante para os padrões atuais; mas se ele assim fizer... descobrirá que está diante de uma obra-prima.

Eu comecei recentemente a fazer algumas pesquisas nesse sentido para tentar descobrir as possíveis referências de Tarantino em seus filmes. Confesso que é uma tarefa difícil, pois ele é um cinéfilo que conhece praticamente tudo e teve acesso a filmes praticamente impossíveis de achar como They Call Her One Eye [Thriller – en Grym Film (1974), de Bo Arne Vibenius] e Lady Snowblood [Shurayukihime (1973), de Toshiya Fujita], dentre diversos outros. Em They Call Her One Eye encontramos a inspiração para Elle Driver e em Lady Snowblood para O-Ren Ishii.

De qualquer forma, a tarefa não é impossível de ser levada a cabo hoje em dia, pois a Internet ajuda muito no perseguir as referências e encontrá-las, o que não quer dizer que se vá conseguir reconhecê-las ou mesmo entendê-las, pois o mundo virtual ainda não faz, por si só e no momento desejado, interpretação de texto. Logo, é possível resolver o enigma e, ao que me parece, não é exatamente isso que torna única cada obra de Tarantino. O que torna única tal obra é a composição do enredo, o jogo de sugestões e a magistralidade com que o diretor manipula e (re)constrói suas referências.

É claro, neh minha gente, que se você for à Wikipedia você vai encontrar de cara as referências óbvias feitas pelo cineasta (Hattori Hanzo é uma personagem do mangá Hanzo no Mon; uma personagem interpretada por Sony Chiba na série Shadow Warrios, veiculada pela TV japonesa entre 1980 e 2003; uma personagem dos videogames Samurai Shodown e The King of Fighters Maximum Impact; dentre diversas outras referências que trazem tal nome e que você pode encontrar na Wikipedia).

O que interessa para cinéfilos como meu irmão e eu não são essas referências óbvias, mas aquelas que NÃO são óbvias e que podem revelar um multiverso inteiro de possibilidades de interpretação que se agrega aos filmes de Tarantino, daí o enigma proposto por Van.

Qualquer dia desses eu postarei aqui sobre as referências feitas por Tarantino em seus filmes e prometo colocar, também nesse post, os resultados das minhas pesquisas pessoais sobre o assunto.

Capítulo IV – Um chá com Tarantino

Van conclui suas elucubrações (gastaram da palavra agora, hein?! rsrs) dizendo que “Tarantino tenta demonstrar quão ridículas são as nossas tentativas de controlar tudo, inclusive nossas próprias vidas”, e que “a balança sempre se equilibra, não necessariamente, no fim”.

Eu creio que, diante de tudo que foi dito acima, Tarantino tenta demonstrar que a Vida é feita de buscas, e que o que importa é a busca em si, e não o chegar a lugar algum. Tarantino demonstra também que somos inteiramente responsáveis por nossas buscas e que a diferença entre eu e o outro que se interpõe no meu caminho é apenas um ponto de vista.

Sendo assim, a balança nunca se equilibra em nenhum momento, pois quando isso acontece a Vida torna-se Morte e finalmente atravessamos o Véu de Ísis para constatarmos que Vida e Morte também são questões de ponto de vista.

Talvez “Café Requentado” não seja um epíteto justo para Tarantino. “Chá Requentado” me parece mais apropriado, pois enquanto o café requentado se torna ruim, o chá requentado é muito melhor do que em sua primeira infusão.

Tomemos um chá com bolinhos com Tarantino, então, no diner de Pulp Fiction recoberto com pedaços de corpos cortados pela espada Hanzo de Beatrix Kiddo e com alguns escalpos gentilmente cedidos por Aldo Reine pendurados no teto. Sobre a mesa, as armas de Jackie Brown próximas à pasta de Mr. Pink e ao barroco e delicioso prato com o apfelstrudel recoberto de chantilly degustado por Hans Landa. Lá fora, vemos o carro de Stuntman Mike e o cavalo de Jango decorando a entrada.

— O que você teria a dizer sobre A Noiva Estava de Preto, de Truffaut? — Pergunto eu a Tarantino.
— Nem queira saber...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

EU ODEIO PAULO COELHO!!!

Zaragoza, capital do Reino de Aragão, ano da graça de Nosso Senhor de 1250, aos auspícios de Sua Alteza Real, Don Jaime I, el Conquistador, por volta de três da tarde.

Ante a visita especial do Grande Inquisidor Tomás de Torquemada, vindo duzentos anos do futuro especialmente para aquela cerimônia, transcorria pelas ruas centrais da cidade o cortejo de um Auto de Fé: à frente iam os penitentes, auto-flagelantes, implorando clemência pelos tenebrosos pecados que lhes disseram que cometeram; logo atrás seguiam os padres e bispos de Zaragoza entoando piedosamente o Kyrie; ao meio estava o Grande Inquisidor, impassível, inescrutável, carregado em sua liteira de brocados e púrpuras de Tiro; e fechando o cortejo estava o prisioneiro, o herege, o sumo-heresiarca, o acusado de lesa-majestade divina.
O cortejo espalhou-se pela praça central da cidade e todos os atores tomaram suas posições. Torquemada, absorto que estava em meio a pensamentos vários sobre sua alcunha de Lenda Negra, só deu-se conta do absoluto silêncio que se instaurara minutos depois.
— Tragam o herege. — Ordenou, impassível.
O herege, um homem de seus sessenta anos, cabelos brancos, barba em “V” também branca, estava vestido de mago.
— Como hai nome? — Perguntou Torquemada ao herege, impenetrável.
— Paulo Coelho.
— Paulo Coelho, és acusado de lesar a majestade divida com teus livros e idéias ridículas e sem o menor fundamento. És acusado de lesar a inteligência de teus leitores com tua auto-ajuda de quinta categoria. És acusado de lesar a gramática da língua portuguesa com teus erros grosseiros e períodos mal e porcamente estruturados. És acusado de falsidade ideológica ao declarardes publicamente ser um mago. Por tudo isso estás condenado a padecer pelo fogo que a tudo purifica, juntamente de teus escritos eivados de enganações e sandices.
Ao final do pronunciamento do Grande Inquisidor, os guardas reais empilharam milhões de livros no centro da praça e, no topo da pilha, colocaram o herege, autor de todos eles, amarrado a uma estaca de madeira.
O povo estava ensandecido, gritando em coro e a plenos pulmões “Falsário! Plagiador! 171! Produto de ghost-writer!”.
Óleo foi espalhado em abundância por toda a pilha e, do alto do palanque onde estava, o próprio Torquemada fez questão de atirar a tocha que acendeu a fogueira.
O fogo espalhou-se por tudo em instantes, como se sedento em tornar cinzas toda aquela escória asquerosa. Ele incinerou autor e obra, livrando a face da Terra daquela chaga execrável.

* * *

Infelizmente, a cena descrita acima é fictícia. A Inquisição Espanhola queimou milhares de pessoas, mas todas as pessoas erradas. Os pouquíssimos que, de fato, mereciam ser queimados — padres, bispos, papas, reis — não o foram e o Tribunal do Santo Ofício virou Congregação para a Doutrina da Fé em 1965, quando Paulo Coelho completou 18 anos e ainda não tinha escrito nenhum de seus rabiscos.

Sim, eu ODEIO Paulo Coelho. Na verdade, eu EXECRO Paulo Coelho e todo aquele desperdício de papel que ele, seus editores e seus leitores insistem em chamar de “obra”. Chamar qualquer livro de Paulo Coelho de “obra” é uma ofensa, uma imprecação lançada contra a Literatura, seja ela erudita ou pop.

Meus amigos, parentes e alunos, desavisados ou simplesmente para me provocar, perguntam o porquê: por que você odeia tanto Paulo Coelho? O que ele fez ou deixou de fazer? Você já leu algum texto dele para dizer o que diz? Será que ele é mesmo tão ruim assim?
Chegou o momento de responder definitivamente a essas perguntas.

Por que você odeia Paulo Coelho?

Uma resposta do tipo “porque sim” seria o suficiente, mas... bem... OK... vamos lá. ODEIO Paulo Coelho porque ele é um falsário e um plagiador que se utiliza da escrita para disseminar enganações. Pior do que isso, os textos que ele “escreve” são construídos a partir de um recorte e colagem de outras obras e autores editados de forma distorcida para que se constituam no que se pode genericamente chamar de “auto-ajuda”, que de fato é auto-ajuda mesmo, mas não para o público e sim para o próprio Paulo Coelho.
Paulo Coelho, portanto, é um “escritor” que age de má-fé com seu público; que se apropria de idéias e palavras alheias e as vende como se fossem suas; que sequer se preocupa com a correção da linguagem dos textos, o mínimo que um escritor sério tem por obrigação fazer; que vende mentiras para um público que, ao que tudo indica, quer deliberadamente comprar essas mentiras e, o que é mais absurdo, nelas acredita.

Sem dúvida isso é um terrível reflexo de que há algo errado com nossa sociedade e com os seres humanos, o que é fato: o sujeito está fragmentado, sua identidade se perdeu em meio a milhares de referências indistintas, sem propósito ou causa, sem começo ou fim; a esperança em qualquer coisa se desintegra a cada dia; nós estamos perdidos em meio ao que nós mesmos criamos; o mundo perdeu seus sentidos, sua estabilidade, suas certezas — certamente porque essas coisas nunca existiram — e nós estamos sem rumo. Por isso, qualquer coisa que ofereça algum tipo de resposta, alguma possibilidade mais clara de caminho a seguir, alguma explicação para esse sentimento de dispersão e de eterna sensação de um presente contínuo de repetições é imediatamente tomada como um guia, como um profeta, um Messias que restabelece nossa unidade perdida e aponta os caminhos que não somos capazes de trilhar por nós mesmos à nossa própria sorte.

Evidente que algo desse tipo está tornando mercadoria a fé alheia simplesmente porque respostas sólidas, caminhos claros e precisos, explicações, guias, profetas, Messias, sentidos (pré)estabelecidos, verdades, esperanças, certezas, tudo o que o ser humano construiu como objetivo, racional e sólido para explicar sua existência e, principalmente, para ser e viver nessa mesma existência não existe mais desde a década de 1950, e foi destruído pelo próprio ser humano que o construiu porque, como reza o 15º Mandamento escrito por São Marx, “Tudo que é sólido desmancha no ar”, e como bem ensina o Oráculo de Matrix, “Tudo que tem um começo, tem um fim”. O fim da humanidade e da sociedade como a conhecemos já se iniciou há sessenta anos e eu diria que falta relativamente pouco para que esse fim se concretize como tal.

Isso é a condição pós-moderna, minha gente. Isso é o que nós fizemos conosco mesmos e com o mundo que nos rodeia. Isso é o nosso legado aos nossos filhos, netos, sobrinhos, alunos.
Sim, parece desesperador. Sim, parece apocalíptico (2012 esta aí! RSRSRS). Mas nós não devemos nos esquecer que o fim é a condição inexorável do começo, e que é preciso que as coisas voltem ao pó para que encontrem um novo início, um novo modo de ser. Há, portanto, sempre algo de positivo no Apocalipse: a renovação. E entre o Apocalipse e o novo começo, o pós-Apocalipse, há um momento indistinto, nebuloso, disforme, em que tudo parece ser nada e nada parecer ser tudo.

É justamente esse momento que estamos vivenciando e Paulo Coelho, ciente disso — lembremos que era ele quem compunha as letras das músicas de Raul Seixas... —, transformou em mercadoria esse momento, em mercadoria que vende e, por isso, dá lucro e enriquece. Mercantilizar é o paradigma da nossa época.
Inteligente ele? Sim, sem dúvida. Burros os seus leitores? Alguns com certeza, mas a maioria é vítima da situação e, como tal, digna muito mais de nossa pena do que de nosso julgamento.

O que Paulo Coelho fez ou deixou de fazer?

Bem... dizem as lendas que ele “escreve”, o que eu não acredito em absoluto, e isso já é suficiente para tirar o sono de qualquer um. A tiragem mínima de um livro de Paulo Coelho publicado no Brasil está em torno de 300 mil exemplares segundo as últimas estatísticas a que tive acesso, algo surreal para um mercado editorial deficitário como o do nosso país. Isso significa que pelo menos 300 mil pessoas vão comprar livros do “mago”, e é irrelevante se essas pessoas vão ou não de fato ler esses livros.

E quanto ao que Paulo Coelho deixou de fazer? É certo que há muito ele deixou de escrever seus próprios livros, tendo possivelmente contratado ghost-writers para fazê-lo sob sua “supervisão” (ou nem isso, visto que Paulo Coelho de fato não sabe escrever e eu não duvidaria que os ghost-writers são os verdadeiros escritores de TODAS as suas “obras”). Afinal, como ele poderia aproveitar toda a riqueza que adquiriu se tivesse que continuar a despender o longo tempo necessário para a escrita de um livro?
Óbvio que isso é teoria da conspiração, neh meu povo?, e, como tal, é evidente que eu não tenho como e nem quero provar nada. Mas, isso talvez seja a única explicação para que alguém, em sã consciência e sendo um pretenso “escritor”, tenha permitido que suas “obras” sejam totalmente repletas de erros grosseiros de linguagem, de recortes e colagens despropositais e de uma espiritualidade de almanaque. Convenhamos: João Bidu é melhor e mais digno do que Paulo Coelho, pois pelo menos ele não tenta ser aquilo que ele não é capaz de ser...

Você já leu algum texto de Paulo Coelho para dizer o que diz?

Normalmente, eu respondo a essa pergunta citando o crítico Davi Arrigucci Júnior em um artigo que ele escreveu para uma edição da Revista Cult dedicada a Paulo Coelho: “não li e não gostei”. É claro que uma resposta dessas tem a intenção de chocar, de provocar o ouvinte/leitor e de expressar algo que de fato eu gostaria de ter feito, ou seja, não ter lido Paulo Coelho e permanecer não gostando dele.
Contudo, isso não é verdadeiro.
Eu, infelizmente, tenho que admitir: sim, eu já li Paulo Coelho.

OOOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHH!!!

[silêncio constrangedor na platéia]

Vanberto: — PUTA QUE PARIU!
Cher: — Eu sabia! Eu tinha certeza!
Vívien: — Ninguém é perfeito... mas também não precisava ser tão imperfeito assim!
Diógenes: [mudo e pálido, A Divina Comédia cai estrondosamente de suas mãos]
Juliana: — Ai... se mata, Cido.
Rejane: — Não vou falar nada.
Rogério: — Prefiro não comentar...
Fernando: — Até você, Cidinho?!
Kenneth: [chora e não quer vir mais no meu colo]

Em eras há muito passadas e esquecidas, anteriores à Pré-História, quando a Internet ainda era uma lenda e tudo que existia das esquisitices de Lady Gaga eram os originais por ela copiados desbragadamente, ou seja, Elton John e Madonna, eu era um estudante cursando o segundo ano do Ensino Médio.
Foi quando eu conheci uma amiga que há muito não vejo. Seu nome é Ana e, na época, ela era uma respeitável senhora já casada, com filhos e com uma vida estruturada.
Nós voltávamos juntos da escola todas as noites e Ana era a penúltima de nós a chegar em casa (eu era o último). Um dia, depois de virmos conversando sobre Paulo Coelho durante todo o caminho, paramos eu e Ana em frente à casa dela e ela, em toda a sua bondade, insistiu que eu levasse para casa uma edição então recém-lançada de “O Alquimista” em quadrinhos.
Ana era uma fã de Paulo Coelho. E sim, até quadrinhos existem da “obra” do “mago”.
Assumo sem a menor vergonha: tudo que eu li de Paulo Coelho, em toda a minha vida, é uma edição em quadrinhos de “O Alquimista”, e eu garanto que foi mais do que o suficiente e que me basta para o resto desta encarnação.
Enfim, eu li o máximo que um leitor amante da boa leitura, amante dos clássicos e dos pós-modernos (eu não gosto dos modernos...), consegue ler de Paulo Coelho, logo eu posso sim dizer o que digo sobre aquilo que ele “escreve” (rsrsrs).

Será que ele é mesmo tão ruim assim?

Não. Paulo Coelho não é ruim. Paulo Coelho é PÉSSIMO! É um LIXO! É uma CATÁSTROFE SEM PRECEDENTES!
E isso encontra bases sólidas entre especialistas diversos.
Em 2007 foi publicado um livro por Eloésio Paulo, doutor em Letras pela UNICAMP e professor da Universidade Federal de Alfenas (MG), intitulado Os 10 Pecados de Paulo Coelho (Vinhedo, SP: Editora Horizonte – http://www.editorahorizonte.com.br/MaisProduto.asp?Produto=115).

Eu fico imaginando o sofrimento do crítico para escrever esse livro... deve ter sido uma tortura sem precedentes... tanto que, quando à época do lançamento, em conversa com Eliane Oliveira, a dona da Horizonte, esta me disse que estava difícil pra ele terminar.
Nada mais compreensível, neh minha gente! Um especialista em Literatura, quando se debruça sobre alguma coisa, precisa ler tudo a respeito. Imaginem, por um breve instante, ter que ler TUDO que Paulo Coelho “escreveu”. Só de pensar me dá calafrios. Eu preferiria a eternidade em Giudecca, no Inferno de Dante, a ter que fazer uma coisa dessas.
Por isso, gostaria de deixar aqui expressos a Eloésio Paulo meus mais sinceros agradecimentos e minha mais profunda admiração pelo seu trabalho heróico. Obrigado, Eloésio, por ter poupado a todos nós de ter que ler Paulo Coelho para saber algo a respeito.

Eis os 10 pecados que o crítico aponta:

1) IGNORÂNCIA
A ignorância é uma afinidade eletiva entre Paulo Coelho e seu típico leitor. A manifestação mais grave desse pecado nem são os erros gramaticais [...]. O mais grave é a ignorância da tradição literária, uma vez que se passou a reivindicar para a obra de P.C. o status de prosa de ficção (PAULO, 2007, p. 40).

2) DESLEIXO
Por desleixo, entenda-se simplesmente isto: o produto é mal acabado. E se aqui não se apontam muitas ocorrências mais que evidenciam esse desleixo é porque ele é transversal aos outros pecados: manifesta-se no descuido com a linguagem, mas também nos tropeços lógicos e nas imperícias narrativas (PAULO, 2007, p. 55).

3) SUPERFICIALIDADE
A profissão de fé de Paulo Coelho na simplicidade pode enganar os pobres de espírito, que não sabem a diferença entre o simples e o simplório. [...]. Se não à primeira vista, a reiteração abusiva das três ou quatro idéias que subjazem a sua religiosidade de almanaque deveria mostrar o quanto elas são gratuitas, superficiais. Tudo começa pela pretensão de generalizar: o mergulho na “alma do mundo” está ao alcance de todos, o caminho da magia é o caminho das “pessoas comuns”. O que mais? “A face do seu anjo está sempre visível quando você vê o mundo com os olhos belos”, e “Qualquer coisa pode levar à sabedoria suprema, desde que feita com amor no coração”. Tudo, todos, sempre; essa generalidade democrática das coisas do espírito é certamente um dos segredos do sucesso do autor. Afinal, em um mundo onde os bens palpáveis são acessíveis à minoria, prometer o Reino dos Céus a granel nunca deixará de ser um bom negócio (PAULO, 2007, p. 61 – 62 – grifo do autor).

4) INCONSISTÊNCIA
A falta de embasamento para o que diz, sobretudo quando consideramos a pretensão sapiencial de seus livros, é uma característica constante dos escritos de P.C. Não se trata, é claro, de negar que o escritor tenha sempre buscado uma síntese do que considera a sabedoria; mas a realidade é que essa busca, quando se materializa em cenas, falas e digressões, resulta muitas vezes num composto meio aleatório de idéias meio aleatórias, sem qualquer compromisso verdadeiro com as fontes — a ponto de carnavalizá-las e malversá-las sem cerimônia — nem o mínimo rigor com o significado do que é dito (PAULO, 2007, p. 74).

5) GRATUIDADE
Assim como não tem compromisso com as fontes em que se baseia ou com o sentido exato do que escreve, Paulo Coelho não costuma pesar a real importância das informações que veicula, das falas de suas personagens e de certos episódios inseridos em seus relatos. Às vezes, parece escrever como se fizesse uso de uma espécie de piloto automático; em outras ocasiões, dá a nítida impressão de estar, como se diz, enchendo lingüiça, tal a desnecessidade de certos elementos na economia do enredo (PAULO, 2007, p. 83).

6) IMPERÍCIA NARRATIVA
As grandes obras de ficção costumam ser amplamente reveladoras de algum aspecto da condição humana ou das condições de vida em um lugar ou uma época. Algumas também conseguiram, principalmente no século XX, inovar a linguagem ou a técnica narrativa. Paulo Coelho, apesar de certa vez ter-se qualificado como "escritor de vanguarda" está longe de preencher qualquer desses requisitos. [...].
As tramas do autor, quase sempre contemporâneas ao momento da escrita e sustentadas por estruturas narrativas lineares que ocasionalmente são perturbadas por pequenos saltos ou cortes temporais, nada trazem de novidade. Pelo contrário, mostram um desenvolvimento primário de técnicas consagradas pela ficção romântica. O estilo, preso à função referencial, quando dela procura afastar-se acaba em truísmos pseudopoéticos (PAULO, 2007, p. 90).

7) INCOERÊNCIA
Há uma “falta de compromisso de Paulo Coelho com a lógica. Essa característica, longe de justificar a apologia da ignorância que o escrito costuma fazer em nome dos privilégios espirituais da simplicidade, no entanto a explica. De fato, não se poderia esperar outra atitude de quem passa ao largo de qualquer noção de rigor, seja na linguagem, seja nas idéias, seja na construção da narrativa. Ressalvado mais uma vez que seu estilo às vezes progrediu de livro para livro, não se pode deixar de observar que o patamar atingido, mesmo que seja suficiente para manter seu prestígio mercadológico e até tenha contribuído para que muitos leitores profissionais fechassem os olhos às insuficiências do escritor, é ainda pífio se considerado à luz da tradição ficcional brasileira” (PAULO, 2007, p. 103).

8) REPETIÇÃO
Existem escritores que passam a vida reescrevendo o mesmo livro. Às vezes, conseguem melhorá-lo tanto que acabam produzindo uma obra-prima. Pelas razões mencionadas anteriormente, esse provavelmente não será o caso de Paulo Coelho. Em sua obra, a repetição de temas, situações, idéias e personagens é algo mais que obsessão; é um sinal inequívoco de limitação de repertório. O universo vive conspirando a favor dos sonhadores, os corações vivem conversando com as personagens — parece que a principal referência das variações é O alquimista, e que elas significam principalmente tentativas de reeditar a afortunada recepção desse "conto de fadas para adultos" (PAULO, 2007, p. 109).

9) DISTORÇÃO
A inabilidade para usar as referências dá lugar, em diversas passagens da obra paulocoelhana, à pura e simples malversação das fontes. Aquela emoção expressa pelas lágrimas do narrador ao pôs os pés no caminho de Santiago, penhor aparente da sinceridade do escritor/personagem, vai-se apagando pela banalização dos sentimentos ao longo das narrativas seguintes e, principalmente, pela visível contradição entre a espiritualidade de que parte o projeto de Paulo Coelho e o oportunismo do "aggiornamento" a que é submetida sempre que necessário para atrair o leitor comprometido com o modo de vida do capitalismo tardio, leia-se a imitação, em quase todos os aspectos, do modo de vida americano, em tudo oposto a qualquer transcendência ou sabedoria oculta. É assim que, a meio caminho desse percurso, o leitor atento — especialmente aquele minimamente versado em cultura bíblica — já terá percebido a malversação das revelações místicas feita sistematicamente pelo escritor (PAULO, 2007, p. 121 – 122).

10) AUTO-ELOGIO
Desde o primeiro livro, Paulo Coelho revela um pendor irresistível para a autobiografia. Mesmo que sua narrativa tenha evoluído em direção à pura ficção, fica sempre no meio do caminho. Não, talvez, devido à incapacidade do escritor para inventar — ou reciclar — histórias. Mas, principalmente, por causa de sua necessidade (estamos no campo das mais elementares motivações psicológicas da literatura) de contar e recontar sua vida. Tal necessidade se reflete na constância com que o autor emprega, ao longo de seus escritos, auto-referências que afinal desembocam no puro e simples auto-elogio (PAULO, 2007, p. 132).

Por fim, depois de apresentar os 10 pecados de Paulo Coelho, Eloésio Paulo ainda conclui com aquela que é, na minha modesta opinião, a última palavra, a definição máxima da “obra” paulocoelhana: “Uma das maneiras mais exatas de definir sua obra é justamente: turismo espiritual” (2007, p. 138).
Eu também adoro o último parágrafo do estudo, que diz o seguinte:

Fernando Pessoa foi um dos maiores entendidos em ocultismo na sua época e isso o levou a corresponder-se com Aleister Crowley, o “bruxo” invocado como um dos patronos da aventura espiritual paulocoelhana. Indagada certa vez sobre a seriedade do conhecimento de Crowley, de cujo sumiço encenado numa caverna de Portugal o poeta acabou participando — ao que se sabe, involuntariamente —, Pessoa respondeu que duvidava da possibilidade de alguém dominar os poderes do Mal sem nem mesmo conseguir manejar competentemente a gramática da língua inglesa. O senso comum ensina que a do português é bem mais difícil (PAULO, 2007, p. 143).

Bem... respondidas as perguntas que todos me fazem sobre Paulo Coelho, vamos por um momento pensar que se queira ainda insistir no assunto. Vamos supor que alguém, insatisfeito com minhas respostas e com minha argumentação, queira fazer ainda outras perguntas.

Existe a possibilidade de você mudar sua opinião, Cido?, perguntaria alguém que tenha chegado até aqui e que tenha sentido certa alacridade ou mesmo certo ar de arroubo irrefletido de minha parte, ou mesmo alguém que goste de Paulo Coelho...
A resposta é invariavelmente, inquestionavelmente e imutavelmente NÃO.

Não seria essa sua atitude uma forma de preconceito?, continua a pessoa.
Sem dúvida que sim. Mas toda forma de discurso crítico é, invariavelmente, uma forma de preconceito, ou não seria um discurso crítico.
Eu assumo esse meu “preconceito”, então, e peço perdão àqueles que, de alguma maneira, se sintam vítimas dele.
Esse pedido de perdão NÃO se estende a Paulo Coelho, é claro, a quem eu só teria duas coisas a dizer: seus livros são um lixo e sua “obra” está fadada ao recôncavo mais profundo do Limbo do Esquecimento.

E se — insiste a pessoa — o tempo, o Cânone ou algo desse tipo revelar que Paulo Coelho é um grande escritor, ou mesmo torná-lo um escritor canônico da Literatura Brasileira: seu julgamento enquanto leitor e crítico não deporia, então, contra você?
Bem... o tempo não existe, pois é um desdobramento do espaço. O Cânone é uma convenção sócio-cultural, logo é arbitrário e, por isso, de modo algum confiável. O Cânone e nada são a mesma coisa.
Se Paulo Coelho tornar-se um escritor canônico, por isso respeitável, da Literatura Brasileira — o que é uma possibilidade que eu não descarto em absoluto, visto que ele já faz parte da ignominiosa Academia Brasileira de Letras, que tem em suas fileiras Alfredo Bosi, um dos bastiões da crítica e teoria literárias do país —, então eu só tenho a lamentar pela literatura do meu próprio país e a tomar esse fato como um vaticínio de que eu estava certo em ter escolhido amar e me especializar nas Literaturas de Língua Inglesa.
Se isso um dia acontecer eu renego a Literatura Brasileira de minha vida e minha paixão por Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector ficará profundamente abalada a ponto de ser questionada, talvez mesmo — que Homero me livre disso — para sempre comprometida.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

OS 10 LIVROS QUE VOCÊ TEM QUE LER ANTES DE MORRER

A grande maioria das pessoas adora me perguntar quais são meus filmes preferido, quais são minhas músicas preferidas, quais são meus atores e atrizes preferidos, quais são meus cantores preferidos, qual é minha maquiagem preferida etc.

Mas raríssimas foram as pessoas que, até hoje, me perguntaram quais são meus livros preferidos.
E é claro que isso tem uma explicação lógica: 99,99% das pessoas, e essa porcentagem NÃO se aplica apenas às pessoas que conheço, simplesmente não lêem, não têm o hábito da leitura. Sim, isso é lastimável.
Mas mais lastimável do que isso é saber que os 0,01% restantes que dizem ler geralmente lêem Paulo Coelho, Gabriel Chalita, Roberto Shiniachique, Padre Marcelo Rossi (não, ele não é meu parente, graças a Deus!), Lair Ribeiro, Padre Fábio de Melo e todo esse lixo asqueroso conhecido como auto-ajuda (auto-ajuda para os autores, é claro, que estão ganhando horrores de dinheiro enquanto idiotas lêem as infinitas bobagens que eles escrevem e, pior do que isso, acreditam e pautam suas vidas por esses rabiscos!). Quando a ínfima porcentagem de leitores que conheço — absoluta exceção, é claro, aos amados amigos da área de Literatura — não lêem auto-ajuda, eles lêem ficção fantástica de décima categoria (Dean Koontz, Stephen King e praticamente todas as publicações brasileiras do gênero).

Mesmo meus alunos no curso de Letras geralmente não lêem. Já perguntei a vários deles o que estavam lendo e, quando a resposta não era simplesmente "nada", era um paradoxal "não gosto de ler". Interessante isso... não gostar de ler e ir estudar Letras. É o mesmo que não gostar de números e ir estudar Matemática.

Muitas pessoas com quem converso sobre leitura dizem ter assistido aos filmes que adaptam textos literários ao cinema. Algo do tipo: "Você já leu 'O Senhor dos Anéis'?", pergunto eu na minha inocência naïve, ao que o ser humano responde "Não... mas já assisti o filme!". É claro que a conversa sobre leitura termina aí e eu já desisti de tentar explicar o óbvio ululante, que por ser tão óbvio é tão difícil: livros e filmes com o mesmo título NÃO SÃO A MESMA COISA. A grande maioria das pessoas sabe disso, mas assistir a um filme é muito mais rápido do que ler um livro... e então está tudo certo.

Em suma, hoje vou responder uma pergunta que quase nunca me foi feita (talvez porque eu adore responder a perguntas que normalmente não são feitas): quais são seus livros preferidos?, livros que, por extensão, são os livros que todos deveriam ler antes de morrer. É óbvio, não é minha gente?!, que eu mesmo criei meu cânone e agora estou apresentando-o ao Mundo! Contra-cânones ao meu são muito bem vindos... se você tiver coragem, é claro, de propor um outro cânone diferente do meu. Aos que se sentirem tentados, fiquem à vontade em usar os comentários pra isso... rsrsrs

Aproveitando a onda das listas das 1001 coisas que você tem que fazer antes de morrer, abaixo estão os singelos 10 livros que eu mais gosto e que VOCÊ TEM QUE LER ANTES DE MORRER!

10º - O NOME DA ROSA [Il Nome della Rosa, 1980], de Umberto Eco.
Meu décimo lugar é um clássico dos clássicos: um romance policial que se passa na Idade Média. Tudo em O Nome da Rosa é genial: as personagens fascinantes (AMO Dom Guilherme de Baskerville, o frei-detetive), o cenário esfumaçado e sombrio (aquela biblioteca labiríntica é a própria "Biblioteca de Babel", de Borges...), os crimes hediondos (para quem só assistiu ao filme — que, diga-se de passagem, é uma porcaria — perdeu pelo menos 4 dos 7 crimes que acontecem).
O que eu mais gosto nesse livro, no entanto, é a chave da história: o mítico livro sobre a comédia que Aristóteles teria escrito em continuação à sua Arte Poética. Na Poética, um ensaio sobre a tragédia, Aristóteles diz que trataria da comédia em um outro texto. A questão é que esse texto nunca foi encontrado. Umberto Eco usa esse fato como ponto central de seu livro e, lá no final da história, apresenta para nós, leitores, sua versão de como seria a primeira página desse texto mítico. Enfim... é orgástico.

9º - UM BONDE CHAMADO DESEJO [A Streetcar Named Desire, 1947], de Tennessee Williams.
Essa é uma peça de teatro. "A" peça de teatro. Aqui está todo o drama de ser alguém pertencente ao século XX, de ser alguém deslocado em um século de deslocamentos. Tennessee constrói um brilhante e vertiginoso jogo de luz e sombra, de passado e presente, de sanidade e loucura. Blanche DuBois... ah! Blanche, Blanche querida, eu sou você.
"Seja você quem for — eu sempre dependi da gentileza de estranhos" (cena 11).

8º - O SENHOR DOS ANÉIS [The Lord of the Rings, 1954 - 1955], de J. R. R. Tolkien.
Não há texto fantástico mais brilhante e mais bem construído do que esse. Tudo que se produziu depois (As Crônicas de Nárnia, Harry Potter, Percy Jackson etc., etc., etc.) não passa de simples sombra, de simples arremedo do texto supremo.
O Senhor dos Anéis é muitas coisas: um épico, um romance, um texto fantástico, um mito para o povo inglês, a história do Um Anel, a história de Frodo, a história de todos nós, a história que todos nós gostaríamos de ter contado, o motivo de existência dos jogos de RPG. Mas, acima de tudo, ele é a história da nossa vida, das escolhas que temos que fazer ou que somos levados a fazer por força das circunstâncias, e das responsabilidades que assumimos ao fazer essas escolhas.

7º - FAUSTO [Faust, 1806 - 1832], de Johann Wolfgang von Goethe.
A história da maior das ambições humanas: o conhecimento. Basicamente, é a história do doutor Fausto, um cientista que, em busca do conhecimento último, vende sua alma ao Diabo para consegui-lo; e sim, ele consegue. Mas, é claro, fica exasperado com o que descobre e luta para conseguir desfazer o contrato de venda com Mefistófeles, um dos vários nomes do Demônio.
Ao terminar de ler o Fausto ficamos com a interessante sensação de que o Diabo somos nós mesmos... somos todos demônios de nós mesmos, sempre buscando o pior para nós, iludidos que somos por nossas crenças errôneas.
Fausto é também uma belíssima visão do Demônio, a mais incompreendida de todas as personagens inventadas pela Literatura Ocidental.

6º - O MORRO DOS VENTOS UIVANTES [Wuthering Heights, 1847], de Emily Brontë.
De longe o mais arrebatador, o mais poderoso, o mais brilhante romance que já li em toda a minha vida. A força da narrativa é tão grande que precisei ler aos poucos, parando de tempos em tempos para respirar e não infartar. Se você puder ler no original, faça isso. Infelizmente, a tradução aqui perde muito.
O Romeu e Julieta, de Shakespeare, parece uma novela mexicana perto dessa obra.
Um aviso para você que leu Crepúsculo e só ouviu falar dessa obra via essa cretinice idiota e imbecil rabiscada por uma pseudo-escritora: NÃO LEIA ESSE ROMANCE! O Morro dos Ventos Uivantes NÃO É PARA VOCÊ! E lhe digo porque: por que essa é uma obra de verdade, é Literatura de verdade, e não isso que você leu ou está lendo. Para você, a obra máxima de Emily Brontë vai fazer mal por ser complexa demais e brilhante demais para o seu nível de compreensão. Então, coloque-se no seu lugar e vá agora ler Danielle Steel ou Sidney Sheldon se você já leu todo o lixo escrevinhado por Stephenie Meyer.

5º - O DESPERTAR [The Awakening, 1899], de Kate Chopin.
De uma delicadeza imponderável. De um brilhantismo comparável apenas a O Morro dos Ventos Uivantes. Revolucionário. Inovador. Desarticulador. O romance que ensinou as mulheres e o Feminismo a resistir. O romance que me ensinou a resistir e a persistir.
Eu sou extremamente suspeito para falar dessa obra depois de ter escrito uma dissertação de mestrado e artigos sobre ela. Contudo, certamente você será uma pessoa antes de lê-la e outra pessoa depois de lê-la. Aliás, será uma pessoa muito melhor depois de lê-la.

“Eu desistiria do não-essencial; daria meu dinheiro, daria minha vida, por meus filhos; mas não daria a mim própria” (capítulo XVI).

4º - A ILÍADA [Ιλιάδα, c. VIII a.C.], de Homero.
O texto fundador de toda a Literatura Ocidental. Antigo, difícil de ler mesmo nas melhores traduções, um texto que exige uma paciência de leitura e compreensão que há muito perdemos. Ainda assim, A Ilíada é estonteante, de uma beleza ímpar e de uma originalidade incomparável. Não há como deixar de se apaixonar pelo irado Aquiles, não há como não odiar Agamêmnon com todas as forças, não há como não chorar por Heitor, não há como não amar as maquinações de Afrodite.
Qualquer leitura d'A Ilíada é desconcertante por dois motivos: 1) Descobrimos que toda a literatura, o cinema e a cultura já foram escritos, filmados e produzidos oito século antes de Cristo, e que tudo que parece novo é só isso: parece novo, mas não é. 2) Nós nos reconhecemos, hoje, nesse texto profético: A Ilíada descreve, com toda naturalidade e sobriedade que só os gregos poderiam ter, quem somos nós, seres humanos, hoje, agora, século XXI. Nenhum texto literário é mais atual do que A Ilíada, porque nela encontramos nosso espírito cultural e individual. Nós estamos escritos nesse texto, por mais assombroso que isso possa parecer.

3º -  A DIVINA COMÉDIA [La Divina Commedia, 1307 - 1321], de Dante Alighieri.
A Comédia de Dante funda, na minha opinião, o Ocidente como ele é hoje. Nossos medos, nossos desejos, nossas incompreensões, nossos erros, nossas buscas. Tudo está ali, trançado em terza rima.
As imagens do Inferno, do Purgatório e do Paraíso construídas no nosso imaginário foram inventadas e pintadas por esse texto.
O Inferno! Ah, o Inferno! Nenhum poema que eu tenha lido até hoje se compara à força poética do Inferno de Dante.
Esse é um texto para quem não tem preconceitos, para quem não tem medo do Inferno, do Demônio, de Deus etc. É um texto para quem quer compreender o que são os dogmas de todas as religiões, dogmas que fundaram nossa cultura e que estão tão arraigados em nós que passaram a pautar nossa existência.
Não, esse não é um texto para pessoas fracas de espírito e de compreensão, nem para diletantes em Literatura, nem para iniciantes e nem para pessoas com menos de 30 anos de idade. 99% das pessoas que tentam ler a Comédia de Dante a abandonam no primeiro canto do Inferno, portanto não perca o seu tempo se você tem pouca experiência de vida: esse não é um texto para leitores comuns.

2º - Hamlet [Hamlet, Prince of Denmarke, 1599 - 1601], de William Shakespeare.
O que dizer de Hamlet? Nada.
Hamlet é um texto que nos cala, que nos assombra, que nos prostra. Ele nos lança dentro de nós mesmos sem a menor compaixão, escava o mais íntimo do nosso ser e coloca à mostra nossas feridas mais sangrentas. Hamlet é o texto que dramatiza a condição humana como ela é, e não como nós gostaríamos que ela fosse. É por isso que toda a Literatura Ocidental divide-se entre Antes de Hamlet e Depois de Hamlet.
"Que obra-prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Que capacidade infinita! Como é preciso e bem-feito em forma e movimento! Um anjo na ação! Um deus no entendimento, paradigma dos animais, maravilha do mundo. Contudo, pra mim, é apenas a quintessência do pó" (Ato II, cena II).

1º - ÉDIPO REI [Οἰδίπους Τύραννος, c. III a.C.], de Sófocles.
Finalmente, o primeiro, o Livro dos Livros, o Texto dos Textos, o Texto Supremo. NADA, ABSOLUTAMENTE NADA, se compara a esse. Ele é único, inigualável, inimitável. O único texto que pode ser chamado de PERFEITO em letras garrafais, e ainda assim essa palavra é muito limitada para exprimir o que ele de fato é.
Pouco há a se dizer sobre esse texto, porque só é possível lê-lo e senti-lo. É praticamente impossível falar sobre ele. Não porque se trate de um texto como Hamlet, que cala o leitor, ou de um texto de extrema complexidade, mas sim por que Édipo Rei funda a nossa cultura e o nosso eu. Ele inaugura nossa existência. Como falar de algo que te criou? Como falar de algo que sabe mais sobre você do que você mesmo? Como falar de algo que está em você e é você de uma maneira inelutável e inescapável?
É como tentar falar de Deus: não é possível falar de Deus, pois se fosse possível falar de Deus Ele não seria Deus. Essa mesma impossibilidade se aplica ao Édipo Rei.
Apenas duas coisas eu consigo exprimir sobre essa obra: 1) É o texto que instaura a questão da existência, a pergunta-chave, a bifurcação do ser a que todos nós um dia chegamos em nossas vidas: quem sou eu? 2) Ele dá a resposta para essa pergunta.
Antes de ler Édipo Rei, no entanto, eu recomendo veementemente que você considere as palavras escritas no portal do Oráculo de Delphos: "Conhece a ti mesmo".