sábado, 26 de março de 2016

CONSIDERAÇÕES SOBRE O EPISÓDIO VII E A TERCEIRA TRILOGIA DE STAR WARS



AVISOS IMPORTANTES:

1. Se você tem problemas com spoilers, simplesmente pare de ler aqui.

2. Se você não assistiu as duas trilogias de Star Wars e o Episódio VII, o primeiro filme da Terceira Trilogia lançado até o momento; ou se assistiu esparsamente apenas alguns dos sete filmes; ou se assistiu apenas ao Episódio VII para acompanhar seus amigos nerds no cinema (e, obviamente, não entendeu absolutamente nada do que viu e ouviu e ficou boiando nas discussões); ou se não sabe que Darth Vader é pai de Luke Skywalker, sugiro que você primeiro assista a TODOS os sete filmes e depois volte aqui para ler estas considerações.

3. Se você ainda está aqui e está lendo este terceiro aviso importante, saiba que eu não me responsabilizo pelo que as considerações abaixo podem causar em sua vida. A partir daqui você está por sua própria conta e risco.


A tão esperada Terceira Trilogia de Star Wars, há tempos anunciada, chegou finalmente. Milhões de pessoas foram aos cinemas para assistir ao Episódio VIIO Despertar da Força, o primeiro dos três novos filmes que dão continuidade à saga da Força pela Galáxia.
Os velhos fãs ficaram felizes em rever velhos amigos de pipoca Han Solo, Chewbacca, Princesa Leia (agora General...), C-3PO e o amado R2-D2 — e conhecer novas figuras que têm potencial (que fofura é aquele BB-8!). Já os jovens fãs (sim, porque o que tinha de adolescentes e jovens de todas as idades nas sessões que fui era incrível!) puderam também, é claro, rever em novo contexto várias personagens clássicas da série e encontrar seus próprios pontos de identificação entre as novas personagens introduzidas.

Nostalgia e novidades à parte, a pergunta que ficou no ar é quais as intenções e pretensões do Episódio VII em relação ao núcleo principal do universo de Star Wars? Essa pergunta leva a uma questão mais ampla: quais as intenções e pretensões desta Terceira Trilogia como um todo (que na verdade é uma Tetralogia, pois há um filme inteiramente dedicado a Han Solo prometido para 2018, entre o Episódio VIII e o Episódio IX) em relação a esse universo ficcional?

Em reflexões pessoais e em conversas com parentes e amigos fãs da série, eu tenho buscado possibilidades de resposta a essas questões. É claro que muitas ideias e teorias tem me ocorrido; mas é claro também que nenhuma dessas minhas ideias e teorias tem um fundamento mais sólido em razão de um aspecto evidente: em termos de enredo, o Episódio VII é muito mal construído e, por essa razão, deixa mais fios soltos do que J. J. Abrams foi capaz de amarrar (propositalmente? Tenho minhas dúvidas...).

Os comentários que seguem são essas minhas ideias e teorias ainda infundadas, as quais compartilho aqui com vocês ao mesmo tempo em que as documento para a posteridade, ou seja, para futuramente comparar com o que será trazido nos lançamentos dos próximos dois filmes da Trilogia mais o filme sobre Han Solo.
Comentários, contra-ideias e contra-teorias são, evidentemente, sempre bem-vindos.

Começo com o ponto principal: a famigerada morte de Han Solo pelas mãos de seu filho Ben Solo, o qual usa, ao que tudo indica, seu nome de batismo Sith, Kylo Ren, no enredo do Episódio VII.
Não há sombra de dúvida que a morte de Solo-pai foi a cena mais impactante (mas não a mais importante) deste primeiro filme da Terceira Trilogia. Meu irmão Vanberto não se conforma até agora, e ainda ressoa em meus ouvidos o silêncio sepulcral que se instalou nas salas de cinema no momento em que isso aconteceu.
É a partir dessa cena que algumas polêmicas se instalaram, principalmente a extremamente discutível (e, em minha opinião, completamente furada) hipótese aventada por Jimmy Piroutek ("A melhor teoria do mundo sobre Star Wars veio da Mooca"), amplamente divulgada em sites nacionais e internacionais e redes sociais, de que Kylo Ren foi para o Lado Negro da Força como agente duplo com os objetivos de ajudar a Resistência e eliminar o Supremo Líder Snoke.

Encaremos os fatos: a personagem Kylo Ren, criada com o intuito evidente de dividir o posto de personagem principal junto de Rey, é muito mal-ajambrada e está sobrando no enredo do Episódio VII. A culpa disso recai no diretor J. J. Abrams, que tentou a todo custo tornar Ren uma personagem convincente usando para isso unicamente seu parentesco e obsessão doentia pelo inigualável e inimitável Darth Vader.
Kylo Ren é, em tudo, uma tentativa falha e de mal gosto de imitar Vader em duas perspectivas que não se ajustam: ele tenta arremedar Jedi/Sith/Jedi psicológica e fisicamente – usa uma máscara desnecessariamente, veste-se de preto desnecessariamente (e sem a capa glamorosa que era uma das marcas registradas do figurino do grande vilão) e fez um altar com a máscara remanescente da pira funerária do Lord Sith!!! (Eu estou absurdado com isso até agora...).
Esse último gesto merece um comentário particular. Rememoremos a cena do Episódio VII: Kylo Ren está dentro de uma sala que lembra a sala particular onde Vader retirava a sua própria máscara para curar suas feridas físicas (essa sala aparece de modo mais claro no Episódio V da saga). Nesse momento, a câmera foca a máscara de Ren enquanto ele faz uma espécie de oração a seu antepassado: “afaste-me da tentação da Luz” e “ajude-me a completar a sua missão”. Após a oração, eis que a câmera se move novamente para revelar o ídolo ao qual a prece fora dirigida: a máscara calcinada do próprio Vader.
O que era para ser uma cena assustadora, cheia de significados e revelações, torna-se quase cômica quando começamos a pensar como essa máscara foi parar nas mãos desse neto transviado: Ren teve que ir à lua de Endor onde foi feita a pira funerária de Vader por Luke Skywalker, enfrentar os ewoks (que são fofinhos, mas perigosos), encontrar o local da pira e, absurdo dos absurdos, pegar a máscara do avô, a qual contém também o seu crânio (sim, a tomada de câmera da cena em questão do Episódio VII dá um close bem demorado no crânio existente dentro dos remanescentes da máscara de Vader...).
Começo a rir ao pensar em Kylo Ren enfrentando os ewoks, ao mesmo tempo em que começo a chorar ao pensar nessa personagem bancando o ladrão de túmulos, praticamente um ghoul das estrelas ou uma versão futurista de Victor Frankenstein.
Essa situação tragicômica leva à segunda das perspectivas para o fato de Ren ser uma imitação de mal gosto de Vader: além de ser um arremedo do grande Sith Lord, Ren é materializado no enredo do Episódio VII como o novo Darth Vader, discípulo do último Jedi existente (Luke Skywalker) que se rebela contra este e sua Ordem para se tornar discípulo de uma pseudo-imitação bastante discutível do antigo Imperador (Snoke) que, hipoteticamente, o levou para o Lado Negro da Força, tornou-o seu “escolhido” e com ele conversa por meio de um holograma duas vezes maior do que o usado por Palpatine para conversar com Vader.
É ofensivamente pretensioso, por parte de J. J. Abrams, meramente cogitar a possibilidade de que possa existir uma outra personagem, parente ou não, capaz de ocupar o lugar de Vader no imaginário ocidental, e é pensando nas implicações de tamanha ofensa que adentro em problemas que me parecem muito mais sérios na trama do Episódio VII em relação ao enredo principal da saga, quais sejam a abordagem da Força escolhida por Abrams, a falta do elemento filosófico que é característico da série como um todo e a incômoda semelhança do enredo do Episódio VII com o enredo do Episódio IV.

Quanto à abordagem da Força mostrada no Episódio VII, é notável que ou J. J. Abrams não entendeu o conceito (o que eu não duvido...), ou a Força está passando por um momento ainda mais grave do que nas duas trilogias anteriores.
Como a primeira dessas duas hipóteses tem implicação direta com o segundo problema que listei, vou abordá-la quando tratar da questão da falta do elemento filosófico. Por hora, pensemos na possibilidade de que a Força está passando por uma crise mais séria.
Se voltarmos à personagem Kylo Ren na perspectiva da Força, notaremos que estamos diante de alguém que recebeu algum treinamento formal (Jedi por parte de Luke, tendo em vista que Ren é o discípulo que se revoltou contra a Ordem Jedi Restaurada que Luke tentou formar; e Sith por parte de Snoke, visto que este é o líder do grupo que se formou a partir dos remanescentes do Primeiro Império Galáctico – a Primeira Ordem – e é, provavelmente e segundo minhas interpretações pessoais, um antigo integrante do Inquisitorius), mas que não consegue controlar seu emocional, recaindo constantemente em arroubos violentos de ódio, o que torna seus poderes também descontrolados. Esse tipo de comportamento é totalmente inapropriado tanto para um Jedi quanto para um Sith, logo, Kylo Ren está perdido entre, no mínimo, duas perspectivas diferentes de abordagem da Força.
Esse drama do sempre estar dividido era o grande drama de Darth Vader e permanece uma espécie de maldição que assombra toda a família Skywalker. Todavia, seu absoluto comedimento e a frieza imprimiam um aspecto complexo e trágico a esse drama. Os arroubos violentos de Ren, no entanto, geram um efeito contrário e enfraquecem sobremaneira a personagem, que claramente foi eleita para ser o grande vilão dessa Terceira Trilogia, bem como o drama em si. Com seu comportamento, Ren torna o drama da ambiguidade, da luta interna entre Bem e Mal, entre Lado da Luz e Lado Negro, entre Anakin Skywalker e Darth Vader, algo caricatural, tolo, sem sentido, praticamente a manha de uma criança mimada. Não é essa, de forma alguma, a concepção dada por George Lucas ao enredo de Star Wars, e vejo nesse ponto o catastrófico “efeito Disney” em ação, que torna uma idiotice tudo que toca.
É justamente essa idiotice, a manha de uma personagem construída para ser o vilão, que vai fazer com que Ren perca a luta contra Rey. Veja bem, minha gente, a situação que nos é apresentada nessa luta: o líder dos Cavaleiros de Ren – uma ordem treinada de Force Sensitives estruturada aos moldes da Ordem dos Cavaleiros Templários (notemos que o lightsaber de Ren tem o formato exato de uma espada cruzada, a espada dos Cavaleiros Templários) –, com certa quantidade de treinamento formal nos dois lados da Força, capaz de parar no ar um tiro de raio laser só com os poderes que adquiriu (admito: essa cena foi genial!), é derrotado por uma Force Sensitive cujos poderes despertaram recentemente e que não detém nenhuma espécie de treinamento. Apesar de ter sido uma batalha memorável, a cena faz tanto sentido quanto a do ex-Stormtrooper Finn lutando com o lightsaber de Luke Skywalker contra um outro Stormtrooper: quando o lightsaber portado por Finn toca a arma de luta do inimigo, tal arma permanece intacta, quando deveria ter sido cortada ao meio, já que há pouquíssimos elementos existentes no Universo que são suficientemente resistentes para suportar o golpe de um lightsaber sem serem destruídos imediatamente. Ou seja, as duas cenas são totalmente incoerentes dentro de todos os preceitos já estabelecidos na saga: um Force Sensitive sem treinamento formal não é páreo para um Force Sensitive treinado (lembremos do famigerado – descartável para a trama, porém útil como exemplo – Episódio I), e o The Jedi Path aponta apenas seis elementos que podem resistir ao golpe de um lightsaber (cortosis, ultracromo, neurânio, phrik, ferro mandaloriano e os ossos e carapaças de algumas poucas criaturas). Mas é claro que, se os fãs reclamarem demais, Abrams vai dar um jeito de explicar esses deslizes flagrantes de quem não conhece adequada e suficientemente o universo ficcional com o qual está trabalhando.
Assim, é preciso que a Força esteja praticamente em vias de extinção para que haja um despertar como o ocorrido com Rey (e provavelmente com Finn também). A considerar que as duas primeiras trilogias da saga narram a história do desequilíbrio da Força e suas consequências e que, nos trinta anos que se passam entre a Batalha de Endor e o presente narrativo do Episódio VII, Luke Skywalker, o último Jedi vivo, não conseguiu reestabelecer ou criar uma ordem sob a qual o Lado da Luz pudesse se organizar, é exatamente nesse estado que a Força se encontra: fragmentada de tal maneira, dividida a tal ponto, que é necessário zerar tudo e retornar ao início. É por essa razão que, no Episódio VII, é dito que Luke desapareceu e foi para o lugar onde foi construído o primeiro templo Jedi, o local onde os Force Sensitives começaram a se organizar para melhor entender a manifestação do poder que sustenta a existência. Como o nome desse lugar não é revelado no filme, mas apenas mostrado, e tendo em vista o cânone da saga previamente estabelecido, talvez o lugar a que Luke se recolheu seja Tython, o planeta onde a Ordem Jedi teve início há trinta e seis mil anos, ou Ossus, o planeta onde a Ordem se consolidou antes de mudar-se para Coruscant.
Meu palpite é que se trata de Tython, um planeta inteiramente regido pela Força e o local onde os primeiros Force Sensitives descobriram como controlá-la e utilizá-la. Se for esse planeta, talvez Abrams tenha acertado (um tiro no escuro? acerto de principiante?) no argumento do retiro de Luke e do planeta onde ele se encontra, pois estando a Força excessivamente fragmentada, um Mestre Jedi só poderia encontrar respostas para suas indagações e preocupações no local onde tudo começou.
Infelizmente, o retiro de Luke é um elemento terciário no enredo do Episódio VII, praticamente uma nota de rodapé (pois é muito mais interessante – e lucrativo, claro – focar na morte de Solo-pai pelas mãos de Solo-filho), o que me leva ao segundo problema desse capítulo da trama.

O fato de Abrams ter relegado o personagem Luke Skywalker a um plano excessivamente secundário, bem como todos os eventos que o rodeiam e nos quais ele esteve envolvido direta e indiretamente nos trinta anos passados da Batalha de Endor, acabou gerando um efeito colateral preocupante: a falta do elemento filosófico, o qual sempre esteve presente no decorrer da saga como  um todo, mesmo na Segunda Trilogia e no desnecessário Episódio I, tendo em vista que a Força só pode ser entendida filosoficamente – ou seja, ela tem que ser interpretada antes de ser usada –, uma vez que o Lado da Luz e o Lado Negro são pontos de vista filosóficos sobre esse poder ancestral.
No contexto do Episódio VII, todos os mestres detentores de conhecimentos mais profundos sobre a Força e capazes de ensinar seus princípios filosóficos, na perspectiva Jedi ou Sith, estão mortos – Mestre Yoda, Darth Sidious, Obi-wan Kenobi e Darth Vader – e não há ninguém a altura para substituí-los a não ser o próprio Luke, que foi deliberadamente omitido no enredo deste primeiro filme da Terceira Trilogia.
Não se pode dizer que Luke, apesar de seus dons natos e grandes esforços, tenha se tornado um mestre da envergadura de Yoda – lembremos as palavras a ele dirigidas pelo próprio Yoda no Episódio V, “você é imprudente”; lembremos ainda que, por um curto período de tempo, Luke se bandeou para o Lado Negro na época em que um clone do Imperador tentou reassumir o poder. No entanto, ele é o herdeiro direto da linhagem de mestres. Aliás, o único herdeiro de ambos os lados da Força.
Kylo Ren, seu discípulo, parece ter aprendido muito pouco com ele, e Snoke está longe de ser um mestre como Darth Sidious, ainda que haja indícios no Episódio VII que apontam que ele pode ser bem mais poderoso no Ladro Negro do que mostram as aparências e, por isso, tenha omitido muita coisa de Ren.
De qualquer forma, no contexto do primeiro episódio da Terceira Trilogia, passados trinta anos da Batalha de Endor, a Força enquanto poder que organiza o Universo está em grande perigo, prestes a se extinguir ou tornar-se errática e, portanto, incontrolável. Não se trata mais de equilibrá-la ou desequilibrá-la, mas sim de voltar a (re)conhece-la para poder senti-la e canalizá-la de algum modo.
Mistério supremo, a Força é o que possibilita a existência de todas as coisas. Como tal, pode ser pensada como uma imensa rede senciente que, diante de sua atual situação, tende “naturalmente” a se reconstruir ao invés de deixar-se obliterar. Isso explicaria, em termos filosóficos, por que ocorreu o despertar em Rey e, muito claramente, em Finn: como nos primórdios em Tython, e sendo um impulso fenomênico, a Força se manifestou novamente em seu estado mais puro, nem Ashla (Lado da Luz) e nem Bogan (Lado Negro), apenas Poder. Por si só, ela não pode existir nesse estado puro, pois é incompreensível em si mesma a qualquer inteligência do Universo, mesmo aos Celestiais. Então, ela precisa direcionar-se, tornar-se conhecimento, e é aqui que a querida Rey retorna ao palco: em Araraquara... quer dizer, Jakku, a Força esteve com ela em estado puro por algum tempo (o motivo, ou um dos motivos, pelo qual a personagem foi ali abandonada, talvez). Mas, como essa situação não poderia permanecer assim, o acaso, o Fado ou o Destino providenciaram para que Rey tivesse a sua própria aventura e com isso chegasse ao local onde estava o lightsaber de Luke Skywalker, ao que tudo indica seu parente ou alguém predestinado a cruzar seu caminho. De posse da arma do último mestre vivo – que foi também a arma de Padawan do Escolhido –, a Força literalmente “desperta” em Rey e a leva não apenas ao conhecimento do paradeiro de Luke, mas também a ir até ele, em seu refúgio no planeta onde tudo começou, para lhe entregar a arma, em um gesto que a torna, de certa forma, sua Padawan.
Em termos de enredo, essa costura é perfeita: a Força desperta em alguém em um local randômico e sem importância e, por meio de sua teia existencial, atrai esse alguém até o local apropriado e a pessoa apropriada para que possa se tornar conhecimento. Ao entregar o lightsaber ao seu verdadeiro dono, Rey se torna, simbolicamente, uma Padawan, ou seja, escolhe um direcionamento, uma canalização, uma expressão de conhecimento para o Poder que a elegeu para “despertar”, para manter-se existente, conhecido, senciente. Com isso, e dessa forma, a Força se renova em Rey e a torna, literalmente, uma nova esperança.
Bem... uma interpretação linda, não? Tudo se encaixa bonitinho, de modo até bastante elaborado eu diria. Mas isso, minha gente, é a minha leitura, a leitura de um profissional em leitura. Duvido muito que J. J. Abrams ou outro diretor façam algo sequer semelhante ao que descrevi nos próximos filmes da Terceira Trilogia, pois, infelizmente, J. J. Abrams – e qualquer diretor que a Disney venha a contratar para dirigir Star Wars – não entendeu (ou não quis entender, ou foi proibido de entender) o conceito filosófico de Força, uma das ideias mais bem trabalhadas de George Lucas (que pode ser uma droga de diretor, mas é um gênio em termos de ideias para enredo).

E por falar em Rey como uma nova esperança, isso me leva ao terceiro e último problema mais sério (este nem tão sério assim se comparado aos outros dois...) do Episódio VII: a incômoda semelhança do seu enredo com o enredo do Episódio IV, justamente o intitulado Uma Nova Esperança.
Não vou fazer uma comparação minuciosa entre os dois filmes, pois basta assisti-los e as semelhanças ficarão gritantes (Tatooine vira Jakku, Luke vira Rey, R2-D2 vira BB-8, Vader vira Kylo Ren etc.). De pronto, uma conclusão gritante para quem assistiu a esses filmes em sequência: o Episódio VII é, em tudo, um remake (ou seria reboot?) do Episódio IV. Em outras palavras, temos, a princípio e virtualmente, a repetição e não a continuação da saga Star Wars.
Direto ao ponto, a questão que se coloca é: por quê? Por que tomar como base temático-estrutural para O Despertar da Força o primeiro episódio da Primeira Trilogia?
O resultado da equação J. J. Abrams mais Disney daria como resposta a essas perguntas um simples e categórico “falta de criatividade”, mal que vem assolando Hollywood há bastante tempo e do qual nem mesmo Star Wars escapou, ao que eu acrescentaria “dinheiro fácil e garantido”. Observo, no entanto, algo que considero mais preocupante do que questões de mercado: o fato das pessoas, dos expectadores nas salas de cinema, e principalmente dos fãs da saga não terem notado que a continuação é, literalmente, uma repetição disfarçada com pseudo-inovações, pseudo-novas-personagens, pseudo-novos-mundos e cenários resultantes de um pseudo-enredo que na verdade é uma cópia de algo feito no final do século XX turbinada para pseudo-públicos do século XXI. Ninguém notou que a ideia central, a espinha dorsal do roteiro do Episódio VII é exatamente a mesma do Episódio IV. Todos viram o novo Star Wars como... novo.
Ponto para J. J. Abrams e para o Departamento de Marketing da Disney, não há dúvida: eles conseguiram vender o mesmo velho produto só mudando o seu rótulo, e fãs, cinéfilos, público em geral e crítica especializada compraram e amaram o “novo” velho produto. Para quê Hollywood se preocuparia com algo tão difícil e caro quanto criatividade?
Duas respostas rápidas à questão, que são também duas conclusões rápidas, porém longe de serem precipitadas: 1) o Pós-moderno é um fato cotidiano e corriqueiro; logo, teoriza-lo, criticá-lo ou mesmo utilizá-lo já se tornou obsoleto (“bem-vindos ao deserto do real” meus queridos sociológicos, antropólogos, escoladeFrankfurtianos, marxistas em geral, positivistas, humanistas, realistas e coisas do gênero); 2) o mundo emburreceu e isso não é culpa e nem tem nada a ver com o Pós-moderno. É simplesmente isso: burrice, a mais preguiçosa burrice; “para que eu vou me dar o trabalho de pensar se o Google, a Wikipedia e o Rotten Tomatoes pensam por mim?”.
Acreditem, essas duas conclusões em nada me preocupam. Já aprendi, há muito tempo, a lidar com a burrice do mundo e a maquiavelicamente me aproveitar dela. 
O que me preocupa é que cada vez mais eu gosto menos do contemporâneo como fato histórico (apesar de amá-lo como teoria e filosofia), e menos ainda das continuações das sagas fílmicas que amei.

sábado, 27 de junho de 2015

SORVETE: AS CRÔNICAS DE GELO, FOGO, AÇÚCAR E PISTACHE DE CIDO - volume 2: AS ORIGENS CELTAS DE CIDO

Neste segundo volume de SORVETE, a autobiografia ficcionalizada da minha vida, eu vou contar a História verdadeira do meu sobrenome e da minha família, tudo por causa de uma aula que ministrei recentemente...

Ah! Se você quiser ler o primeiro volume, intitulado "A novela Vamp, a Psicanálise Freudiana e Cido", clique aqui.

* * *

VOLUME 2:

AS ORIGENS CELTAS DE CIDO

Em 25 de junho de 2015, eu discuti com meus alunos de Narrativa Britânica do Século XX o conto "Structural Anthropology", de Adam Mars-Jones, à luz do pensamento de Stuart Hall no ensaio "A identidade cultural na pós-modernidade".
Em meio à leituras de passagens do conto intercaladas com infinitas explicações sobre o que Stuart Hall quer dizer quando afirma que "A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia" (p. 13), leituras e explicações pontuadas por breves parênteses sobre a absoluta ingenuidade da Escola de Frankfurt, do Modernismo e do Estruturalismo quando tentam explicar a identidade do sujeito contemporâneo, eu dei um exemplo pessoal: para demonstrar que a identidade unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia, mencionei diversos elementos da história do meu sobrenome relacionados aos antigos celtas e romanos de modo a construir uma narrativa aparentemente coerente sobre minhas origens. Convencidos pelos argumentos da minha história, pedi, de modo retórico, que meus alunos perguntassem pelas provas concretas e materiais do que eu havia narrado e, ao dizer que tais provas não existem e que eu simplesmente estruturei elementos esparsos em uma narrativa, demonstrei a eles que minha linda história de origens celtas não passava de uma fantasia, uma fabulação, pura ficção.

Bem... técnica, didática e interpretativamente, foi lindo. Eu mesmo me convenci de que estava criando uma história ficcional de mim mesmo (ou seja, comprovei que minha vida não passa de um simulacro) e teria convencido até Fredric Jameson e Jacques Derrida de que estava narrando uma autobiografia ficcionalizada.

Contudo, fato é que a narrativa pessoal que contei aos meus alunos como exemplo da falácia da identidade coerente e unificada é, na verdade, uma história real.

Eis a história real e verdadeira das minhas origens celtas.

* * *

Hecateu de Mileto, historiador grego do século VI antes de Cristo, disse que

os celtas [Κελτοί, em grego] se espalharam pelo continente europeu a partir do segundo milênio antes de Cristo, tendo eles construído Stonehenge muito antes dos egípcios sequer pensarem na possibilidade das pirâmides (p. 366).

 Stonehenge

No século III antes de Cristo, havia celtas em praticamente todo o mundo conhecido, tanto no ocidente quanto no oriente.
Na Bíblia, os celtas são referidos como gálatas, e Júlio César, no Commentarii de Bello Gallico, afirma que


"Celta" era a maneira pela qual os gauleses se chamavam a si próprios na "língua celta" (lingua Celtae) (p. 125).

Asterix, bem como Obelix e o cachorrinho Ideiafix eram, portanto, celtas.

No século V antes de Cristo, o historiador grego Heródoto já salientava que


O rio Ister nasce na terra dos celtas na cidade de Pyrene e percorre o centro da Europa. Os celtas vivem além das colunas de Hércules, sendo vizinhos dos cinésios e são a mais ocidental de todas as nações que habitam a Europa. E assim, se estendem por toda a Europa até as fronteiras da Cítia (p. 589).

Estrabão (século I antes de Cristo), no entanto, contradizendo Heródoto, é veemente quando comenta que


Eratóstenes diz que até Gades o exterior é habitado pelos gálatas; e se a parte ocidental da Europa é ocupada por eles, esqueceu-se deles na sua descrição da Ibéria, nunca fazendo menção aos gálatas (p. 818).

Mas é Diodoro que, no mesmo século I antes de Cristo, clarificará a questão ao diferenciar o entendimento romano e o entendimento grego de "celta":


E agora, será útil fazer uma distinção que é desconhecida de muitos: os povos que habitam no interior, acima de Massália, os das encostas dos Alpes, e os deste lado das montanhas dos Pireneus, são chamados celtas, ao passo que os povos que estão estabelecidos acima desta terra Céltica, nas partes que se estendem para o norte, ambas ao longo do oceano e ao longo da Montanha Hercínia, e todos os povos que vêm depois destas, tão longe como a Cítia, são conhecidos como gauleses. Os romanos, no entanto, incluem todas estas nações juntando-as debaixo de um único nome, chamando-as a uma e a todos de gauleses (p. 440).

Todavia, Diodoro esqueceu-se de que Timageto, o geógrafo, já havia cartografado a terra dos celtas e relatado, no mesmo século I antes de Cristo, que


o Fásis e o Istro procedem dos Montes Ripeos, que são da terra keltica, e logo vão desaguar numa lagoa dos celtas (p. 915).

De todas essas referências feitas por historiadores, geógrafos e filósofos antigos, pode-se depreender claramente que os celtas dominavam o mundo conhecido antes da ascensão de Roma a partir do século VIII antes de Cristo e, durante os períodos republicano e imperial da Roma Antiga, foram confinados em localidades delimitadas por meio de conflitos bélicos, como a Gália (atual França), a Bretanha (atuais Inglaterra e País de Gales), a Caledônia (atual Escócia) e a Hibérnia (atual Irlanda).
Em razão desse confinamento, afirmam conjuntamente os historiadores medievais Saxo Grammaticus (p. 1032) e Geoffrey of Monmouth (p. 718), ocorreu a reação celta. Aproveitando-se da brecha sangrenta aberta por Átila, o Huno, no século V depois de Cristo, celtas e vikings se uniram no que ficou conhecido como a Confederação Vândala e, em um movimento genial de estratégia militar, saquearam e derrubaram Roma em conjunto (celtas pela terra, vikings pelo mar). Esses dois povos são o que os romanos denominaram genericamente bárbaros.

 Os bárbaros e a queda do Império Romano

Como celtas e vikings já tinham seus reinos estabelecidos no que hoje é conhecido, respectivamente, como Ilhas Britânicas e Escandinávia , Roma não lhes apeteceu como possível posto avançado ou colônia por ser excessivamente mediterrânea.
No entanto, muitos celtas ali permaneceram depois da invasão e se misturaram com os antigos habitantes do Lácio e da Etrúria, celticizando, desse modo, os latinos, naquele que é o primeiro caso conhecido de pós-colonialismo.

No decorrer da invasão e queda de Roma, os celtas foram chamados pelos romanos de rubei, plural de rubeus, "rubros", "ruivos" ou "vermelhos" em latim.
Essa designação, explica o historiador iluminista inglês Edward Gibbon (p. 725), ocorreu porque a genética dos antigos celtas lhes conferia pele muito branca, cabelos ruivos e olhos verdes.
No campo de batalha, os celtas, tanto homens quanto mulheres, lutavam normalmente nus, o que conferia um contraste muito grande entre a cor da pele e a cor dos cabelos, os quais foram associados ao fogo pelos supersticiosos romanos. Filhos do Fogo ou Cabelos de Fogo se tornaram designações comuns dos celtas entre os latinos, o que resultou, por exemplo, em imagens contemporâneas como a da planeswalker Chandra Nalaar do jogo de cartas Magic: the Gathering.

 Chandra Nalaar

Tuatha Dé Danann (os "Povos da Deusa Danu"), seres divinos que vieram de Hy-Brasil a ilha mítica, fantasma flutuante no Atlântico Norte, envolta em brumas e ressignificada como Avalon nas sagas arturianas era como a mitologia irlandesa se referia aos celtas.

 Os Tuatha Dé Danann

Com o declínio do Império Romano e a emergência das línguas, povos e culturas neolatinas, o latim deu lugar às línguas românicas, resultantes da mistura do sermo vulgaris com as diversas outras línguas e dialetos existentes nas ex-colônias do Império.
Na península itálica, onde ficava a antiga Roma, surgem os diversos dialetos do que hoje é identificado como o italiano standard (o italiano falado em Florença). Contribuiu para o aparecimento dessa transformação específica do latim a presença celta no local, cuja língua emprestou ao italiano moderno sua musicalidade característica e cuja cultura estabeleceu o vinho tinto e o molho de tomate como símbolos da italianidade, representados pela faixa vermelha da atual bandeira do país.
Com o passar do tempo, o italiano medieval transformou a palavra latina rubei (que ocorria também como a variante russi, plural de russus) em rossi, plural de rosso. O significado da palavra, no entanto, permaneceu e permanece inalterado: rossi, em italiano, significa "vermelhos", "rubros", "ruivos" e, modernamente, também "tintos". Na etimologia italiana da palavra, ensina-nos o Zingarelli, rossi designava, particularmente durante a Baixa Idade Média, os italianos descendentes dos celtas que mantiveram as características físicas desse povo: pele muito branca, cabelos e demais pelos do corpo de uma coloração vermelha radiante e olhos verdes.
No decorrer do tempo, e com as diversas misturas de raças ocorridas em todos os locais do Ocidente, variações começaram a ocorrer em tais características: o vermelho passou a estar não necessariamente no cabelo e nos pelos, mas nas maçãs do rosto, nas manchas de molho de tomate na roupa, nas cores usadas no cotidiano; o branco não está mais apenas na cor da pele, podendo se manifestar também na cor dos cabelos e dos pelos, nas roupas, nos sapatos e no próprio macarrão; e o verde também já não está mais apenas nos olhos (que podem ser azuis ou castanhos), mas muitas vezes na bandeira do país, em tatuagens, nos trevos de quatro folhas plantados no jardim, no manjericão essencial à pizza margherita.
Independentemente de quaisquer transformações no decorrer do tempo, a palavra rossi continua designando, atualmente, o que se pode entender como a base da italianidade, a qual foi profundamente influenciada e transformada pelos celtas a ponto da palavra que os identificava ser, atualmente, o símbolo máximo da própria Itália (junto do macarrão e do queijo parmesão): todos os italianos e seus descendentes são rossi, como o vinho, o salame, o molho de tomate e a impaciência característica dessa cultura. Rossi se tornou também, particularmente a partir da Renascença ou Alta Idade Média, o sobrenome mais comum na Itália, ocorrendo no país de norte a sul e de leste a oeste.

Rossi é o meu sobrenome, o sobrenome da minha família, que chegou ao Brasil em 1894 no vapor Arno, um dos navios que geralmente fazia o trajeto transatlântico entre o porto de Nápoles e o porto de Santos.
De Santos, diz o documento oficial emitido pelo Museu do Imigrante em São Paulo, o qual tenho aqui em minhas mãos neste momento, meus antepassados tomaram um trem rumo ao norte e desembarcaram na pequena estação ferroviária de Ribeirão Bonito, no interior do estado de São Paulo. Estabeleceram-se na região (particularmente nas cidades de Boa Esperança do Sul, Araraquara e, posteriormente, São Carlos) por meio do trabalho nas lavouras de café.
O sobrenome Rossi é, evidentemente, legado de meu pai, pois as leis brasileiras ditam que os filhos herdam o sobrenome do pai, e não da mãe. Contudo, mesmo que fosse possível, como na Espanha, herdar o sobrenome da mãe, não mudaria muita coisa no meu caso: o sobrenome de família da minha mãe é Lucca, tão italiano quanto Rossi e, desse modo, tão rosso quanto Rossi.
Meu pai conta que, até a sua adolescência, o italiano era falado na casa dos meus avós, e que meus bisavós não falavam português.
Do lado da família de minha mãe, meus bisavós também não falavam português (a avó de minha mãe, inclusive, falava espanhol além do italiano, pois sua família tomou o vapor errado e, ao invés de desembarcarem em Santos, acabaram desembarcando em Buenos Aires, onde ficaram por cerca de um ano e meio antes de conseguirem vir para o Brasil).

Em 2000, quando eu estava no segundo ano de faculdade, cursei língua italiana além do inglês na UNESP - Araraquara. Na primeira aula, um certo professor de italiano chamado Sergio Mauro, também filho de italianos, preocupado em ensinar, além da língua, também a cultura desse povo, perguntou a cada um dos alunos seus respectivos sobrenomes, pois, de acordo com ele, é possível identificar pelo sobrenome (imprecisamente, é claro, mas o suficiente para se ter uma noção mínima) de que região da Itália imigrou um determinado grupo familiar.
Muitos dos meus colegas foram bastante sortudos, pois pelos seus sobrenomes Sergio lhes apontou de onde vieram seus antepassados no mapa da Itália. O mesmo não se pode dizer do meu caso, pois sendo o Rossi italiano equivalente ao Silva brasileiro (palavras do próprio Sergio), simplesmente não é possível utilizar a técnica do sobrenome para descobrir de que cidade, província ou região da Itália vieram os antepassados.
Confesso que fiquei um pouco frustrado com isso, pois fui cursar italiano com a intenção de descobrir um pouquinho mais sobre minhas raízes.
Por sorte, minha frustração não foi completa, pois em uma outra aula eu mencionei ao mesmo Sergio uma palavra que meu pai costumava falar quando eu era criança: polastro.
Sergio ficou bastante espantado com essa menção, pois ela é muito específica e reveladora. Designa "frango" em um dos dialetos do extremo sul da península itálica, certamente siciliano, calabrês ou pugliese.
Graças a essa menção, sei pelo menos que algum dos meus tataravós veio do sul da Itália, ainda que meu pai diga que, quando criança, costumava ouvir com certa frequência a palavra Bergamo, que só pode se referir à cidade homônima na Lombardia, extremo norte do país...

Infelizmente, precisei deixar de cursar italiano (pelo que Sergio nunca me perdoou e não cansa, ainda hoje, de me chamar de tradittore e barbaro) para poder me dedicar ao inglês, a língua e cultura nas quais decidi me especializar durante meus anos de formação.

Hoje, sou professor de literatura inglesa na mesma universidade onde estudei, e eis que o círculo se fecha.

Os celtas habitaram principalmente as Ilhas Britânicas, e sua mitologia, arte e cultura permaneceram e permanecem fortemente entranhadas na literatura inglesa por meio das sagas arturianas, do Romantismo, da tradição da Bruxaria britânica e da ficção de fantasia. Mesmo o romance gótico, uma tradição que não encontra paralelo no universo celta, foi indiretamente influenciado por essa cultura nas construções de cenário e enredo. O castelo de Otranto, por exemplo, primeiro romance gótico, se passa em Otranto, cidade da Puglia (o "salto da bota" na península itálica), um dos possíveis lugares de onde meus antepassados vieram.

Se Jung estiver certo e o inconsciente coletivo de fato existir; se o Espiritismo e o Budismo estiverem certos e a reencarnação existir, então não pode ser coincidência que um descendente de italianos cujo sobrenome designa que sua ascendência mais antiga é, irrefutavelmente, celta, tenha se tornado professor de literatura inglesa e ensine, oriente e pesquise aspectos dessa cultura, que tem nas Ilhas Britânicas seu principal lar.
Dentro desse raciocínio, menos coincidente ainda deve ser o fato de que esse descendente de ítalo-celtas ensine, oriente e pesquise, direta ou indiretamente, sobre sua raiz ancestral em um país cujo nome está presente nos mitos celtas desde tempos imemoriais: Hy-Brasil, a ilha mítica celta, é, provavelmente, uma das inspirações para o nome Brasil, dizem os historiadores da Universidade de Brasília.
Hy-Brasil mostrada em relação à Irlanda em mapa medieval 
 
E quanto mais eu busco, mais coincidências (que obviamente não são coincidências) encontro.
Há algum tempo atrás, meu Pai de Santo chamou-me no terreiro de Candomblé que frequento e me disse que, em uma queda de búzios, o oráculo lhe disse que eu nasci com o dom da bruxaria, e que um indício disso são as feições do meu rosto, particularmente o cavanhaque que uso (que, diferente do cavanhaque comum, não fecha, deixando meu rosto com a famosa feição viperina clássica dos druidas e, posteriormente, da imagem de Lúcifer deturpada pelo Cristianismo católico).
A Bruxaria é um dos principais legados religiosos e culturais dos celtas. O que se entende por Bruxaria britânica ou Bruxaria europeia nada mais é do que a prática da religião celta antiga (que nada tem a ver com Wicca), e está presente em um dos meus textos literários preferidos: a saga Harry Potter.

Inconsciente coletivo, sincronicidade, reencarnação ou simplesmente coincidências, fato é que as identidades são migrantes atualmente. Logo, ter origens celtas pode ser uma escolha, ou mais um dos diversos mitos identitários que se pode escolher para explicar a si mesmo.
É dessa forma que explico a mim mesmo.


Um dos diversos brasões de armas atribuídos à família Rossi


* * *

Referências Bibliográficas

DIODORO. Biblioteca Histórica. Madrid: Gredos, 1872.

ESTRABÃO. Geographica. London: George Bells & Sons, 1903.

GIBBON, Edward. The History of the Decline and  Fall of the Roman Empire. London: Strahan & Cadell, 1789.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

HECATEU DE MILETO. Hecataei Milesii Fragmenta: Scylacis Caryandensis Periplus. Ed. Rudolph Heinrich Klausen. Berlin: G. Reimeri, 1831.

HERÓDOTO. Los Nueve Libros de la Historia. Madrid: Bartolomé Pou, 1802.

JÚLIO CÉSAR. Commentarii de Bello Gallico. New York: Harper & Brothers, 1869.

MONMOUTH, Geoffrey of. Historia Regum Britanniae. Halle: Eduard Anton, 1854.

SAXO GRAMMATICUS. Gesta Danorum. New York: Norroena Society, 1905.

TIMAGETO. Geographica. London: Herbert & Cia, 1810.

ZINGARELLI. Roma: Zanichelli, 1917.

sábado, 25 de outubro de 2014

EXERCÍCIO DE DILETANTISMO EM POLÍTICA



O foco deste blog não é política, é claro. Mas, de vez em quando, abro uma exceção a mim mesmo para falar de assuntos fora do escopo da literatura e das artes. Hoje é um dia desses.



Não sou muito afeito a falar de política, assim como não sou muito afeito a falar de religião. Política e religião não são questões de argumentação lógica, mas sim de convicções individuais, na maioria das vezes inexplicáveis pelo argumento e pela lógica.



Ainda assim, acompanhando toda a cobertura do primeiro turno das eleições feita pelo canal Globo News no domingo (05/10/2014) e assistindo a todos os debates presidenciais neste segundo turno, particularmente o último, veiculado pela Rede Globo em 24/10/2014, eu senti a necessidade de compartilhar algumas reflexões pessoais.



ESTADO DE SÃO PAULO



Começo com o meu estado, o lugar onde nasci, cresci e moro. Como já era esperado, Geraldo Alckmin (PSDB) se reelegeu, no primeiro turno e pela quarta vez, para o governo do estado (aliás, ganhou de lavada).

Motivo: o estado de São Paulo é extremamente conservador, elitista e absolutamente cético em relação à políticas assistenciais de quaisquer tipos, aqui consideradas meramente moedas de troca. Não que tais políticas não sejam moedas de troca. Sim, elas são e, mais do que isso, são a base de formação da famosa “massa de manobra”. Contudo, aqui em São Paulo as pessoas parecem ter uma consciência expandida erraticamente em relação a tal aspecto.



A população da cidade de São Paulo aprendeu, ao longo de vários mandatos, o que é melhor para si. A grande São Paulo, o interior e o litoral do estado, que constituem o grosso da massa de eleitores, não aceita esse aprendizado, tanto que elegeu de novo Alckmin, Marcos Feliciano, Celso Russomano, Tiririca etc. Em suma, a maior parte da população de São Paulo prefere a aristocracia tucana, a homofobia feliciana, a falta de noção russomaniana, a estupidez tiriricana e, novidade da vez, a mais do que comprovada incompetência de José Serra, eleito senador pelo estado. Essas escolhas refletem o tipo de eleitor que constitui a média da popular da assim chamada “lo(u)comotiva do país”.



Não há muito o que dizer. Há, sim, muito a lamentar. Mas é isso que o paulista, na sua extrema arrogância, quer para si. Mesmo que a escola pública em que seu filho estuda seja péssima em todos os sentidos, trata-se de uma escola pública do estado de São Paulo que, só por isso, é, por imanência, infinitamente melhor que qualquer outra escola pública do país. Não interessa se falta água para milhões de pessoas na cidade e no estado de São Paulo, pois o fato é que é o estado de São Paulo, e mesmo a falta de banho aqui é mais valiosa que um banho bem tomado no Amazonas, ou o “CC” daqui é mais cheiroso, por ser do estado de São Paulo, do que o “CC” de Minas Gerais. Não faz a menor diferença se a USP está ou não falida, pois é a USP, e isso basta.



O paulista vive, em sua imensa maioria, envolto em uma ilusão de grandeza que não permite que enxergue nada a seu lado ou diante de si, que dirá a sua volta. E essa ilusão não é imposta por ninguém, mas sim auto-imposta: somos bandeirantes desbravadores, somos ricos, somos a locomotiva do país, somos o estado mais desenvolvido em tudo, não precisamos de esmolas para nada. É isso que o paulista aprende quando vai à escola (que o Brasil não existiria, por exemplo, sem as bandeiras paulistas). É assim que o paulista pensa. É assim que o paulista age, mesmo que more em uma das diversas favelas do estado ou que lhe falte comida na mesa. Logo, se vive em uma situação completamente ilusória criada por e para si mesmo(a), não é de espantar que deseje um governo de ilusões, como é qualquer governo do PSDB.



O estado de São Paulo adora governantes que ajam como Maria Antonieta, já que se considera, dentre outras fantasias de grandeza, a França brasileira: “se não têm pão, que comam brioches”, “se não têm água, que tomem champanhe”. É o típico pensamento que causa um deleite quase orgástico no paulista médio e, quando o paulista “menos favorecido financeiramente” (ainda que ele(a) não acredite nisso, já que ele(a) é paulista, e simplesmente não existem paulistas “pobres”...) clama por uma atuação mais efetiva do governo PSDB no campo social, tal governo se utiliza de ideias do governo PT e cria, por exemplo, para usar a brincadeira de José Simão, o muito apropriado programa Meu Banho, Minha Vida, algo que até o candidato psdbista à presidência da república parece querer copiar na política de desenvolvimento do país (obviamente, o programa Meu Banho, Minha Vida é um chiste de José Simão, mas eu não duvido que a ideia tenha perpassado a mente de Alckmin e seus asseclas para resolver, a partir de uma leitura deturpada, corrompida e fantasiosa do programa petista Minha Casa, Minha Vida, o problema da falta d’água no estado).




A dificuldade maior, ou melhor, a única dificuldade, já que para a maioria está tudo bem, é para os paulistas dissidentes, “reacionários malditos”, “esquerdistas desgraçados comedores de criancinhas”, ou pessoas que gastam muito tempo pensando ou não acreditam em ilusões, como eu e alguns (poucos) outros. Sabendo de tudo isso que descrevi, sou obrigado a sobreviver nesse mundo de ilusões criado pelo PSDB e tão real nas mentes da grande maioria da população paulista que me rodeia (inclusive entre meus próprios colegas de profissão, que, teoricamente, deveriam compor a “massa pensante” do estado).



Na condição de professor de respeitada universidade pública estadual, meu chefe maior na hierarquia é o próprio governador do estado, e eu tenho que conviver com isso, querendo ou não, mesmo sabendo e sendo vítima de todos os desmandos desse governador; como cidadão, vivo em uma cidade governada pelo PSDB que passou, em dez meses, de uma das cidades mais ricas do estado para uma cidade falida, e também sou obrigado a conviver com isso ou, se não, a mudar de cidade (quiçá de estado).



José Simão diria para eu pingar um colírio alucinógeno nos olhos e seguir em frente. O problema é que colírios alucinógenos já não estão mais funcionando, pois já não dá mais para continuar fingindo que o sucateamento da educação pública de São Paulo não é um processo já bastante avançado, que a corrupção tucana não é crônica no estado todo, que todos os mensalões não começaram aqui neste estado e em Minas Gerais sob os auspícios psdebistas, que o preço da comida no estado não é maior do que em todos os demais estados do país etc.



De fato, o assistencialismo petista chega a ser vergonhoso: é bolsa família, bolsa gás, bolsa para tudo. Se eu pensasse psdebisticamente, é fato que eu trabalho o mês inteiro para que 27,5% do meu salário bruto seja dado de graça para o pagamento de bolsas que, sim, eu sei, só servem para gerar massa de manobra, pois não resolvem nenhum problema do país. Mas eu prefiro que esses 27,5% do meu salário sejam transformados em bolsas assistencialistas, mesmo discordando dessa prática, do que embolsados pelos diversos mensalões tucanos que existem no meu estado e no resto do país. Pelo menos, sei que meu dinheiro está ajudando a resgatar alguém do abismo da miséria.



Infelizmente, se eu quiser, vou ter que engolir (e ficar caladinho, ou estou encrencado) a segunda opção: por mais 4 anos, quase um terço do meu salário será sim utilizado para o pagamento de mensalões diversos, dentro e fora do estado de São Paulo, e para ser embolsado em esquemas sujos de corrupção enquanto eu trabalho feito uma mula para conseguir 70 pontos anuais em uma planilha de avaliação que considera apenas a quantidade de coisas que eu produzo como professor e pesquisador, e não a qualidade dessas coisas; enquanto eu pago R$ 15,00 por um pacote de arroz, não por ele ser um arroz melhor, mas porque ele é vendido no estado de São Paulo, onde todos são ricos e felizes; enquanto eu pago R$ 25,00 por um quilo de carne não por ela ser filé mignon, mas por ela ser um coxão mole vendido no estado de São Paulo, onde todas as pessoas são melhores do que todo o resto dos habitantes do país; enquanto eu pago R$ 200,00 em um simples par de sapato não porque é de grife ou coisa que o valha, mas porque é vendido no estado de São Paulo, onde tudo é infinitamente mais caro porque... bem... é o estado de São Paulo, e todos podem pagar mais caro porque se é mais caro, é melhor; enquanto eu pago 18% de ICMS sobre absolutamente tudo que eu compro não porque esse imposto será revertido em melhorias nos serviços estaduais, mas porque o imposto no estado de São Paulo é mais caro porque é o estado de São Paulo, e aqui adoramos pagar impostos mais caros para mostrar ao país que vivemos em um lugar tão abençoado que está, em todos os sentidos, acima de qualquer realidade.



Ah! Sim, claro. A culpa de tudo isso é do PT.

Não! Do PT não! Da pessoa de Dilma Rousseff.



MARINA



Marina Silva podia ter feito a diferença nestas eleições. As urnas mostraram que ela era um nome representativo, e certamente poderia ter ido para o segundo turno não fossem suas posições voláteis, seus ataques infundados ao PT e suas intransigências. Marina poderia ter constituído uma terceira via diferenciada, provavelmente viável, ao PT e ao PSDB, mas Silas Malafaia e Jair Bolsonaro a “influenciaram” a ficar quietinha na dela. Ah! Sim, Marina é facilmente influenciável pela famigerada bancada evangélica, uma neoplasia maligna que tem se agravado cada vez mais nesse país e, se continuar nesse ritmo, logo levará a nação à inevitável e irreversível metástase.



É claro que Marina só pode se aliar a Aécio Neves no segundo turno, visto que seria totalmente incoerente um apoio ao PT de Dilma depois dos posicionamentos tomados por ambas, ainda que Marina seja cria do próprio PT e, é claro, como Fernando Henrique Cardoso (que, apesar de praticamente ninguém se lembrar, estava no momento oficial de fundação do PT em 1980 como petista), agora renegue suas origens e cuspa descaradamente no prato em que comeu durante a maior parte de sua carreira política.



Marina é o típico político sentimentaloide: ressente-se facilmente de uma palavra e de um olhar atravessado, ainda que, como todo bom político, sua língua esteja pronta, a todo instante, para atacar e/ou falar sandices absurdas. Na verdade, é por isso que ela apóia Aécio: por pura birra, já que o PT esfacelou suas máscaras políticas.



Por sorte, o eleitor de Marina não tende a ser tão volátil e sentimentaloide como ela própria: no geral, neste segundo turno, quem votou em Marina nas regiões sudeste e sul votará em Aécio, enquanto quem votou em Marina nas regiões nordeste, norte e centro-oeste votará em Dilma (sim, infelizmente, este país é polarizado dessa forma).



A implicação disso tudo é que a carreira política de Marina Silva, a partir destas eleições, pode estar morta e enterrada. Sim, ela obteve 22 milhões de votos, mas isso foi em grande parte pela tragédia de Eduardo Campo, cujo falecimento foi utilizado e reutilizado incessantemente como massa de manobra (veja a declaração de Aécio após o final da apuração em 05/10/2014); a partir do momento em que se aliou ao PSDB para o segundo turno, Marina teve todo o “projeto político de uma vida”, como ela mesma gosta de colocar, descaracterizado e absorvido pela oligarquia psdbista (além do retorno da pobre alma penada de Chico Mendes do Além apenas para assombrá-la pelo resto de seus dias); se ela se aliasse ao PT, soaria excessivamente falso depois de uma campanha de troca de farpas (além dela ter que se explicar com Lula); se ela ficasse em cima do muro, como fez na eleição passada, atestaria em definitivo que sua atuação e presença no cenário político nacional é indiferente.

Em suma, Marina está em uma situação na qual qualquer escolha resulta em problemas para sua carreira política. Típico caso de político que não sabe fazer política.



Foi um prazer, Marina!

Até algum dia!



DILMA & AÉCIO



Para terminar esses diletantismos em política, vou contar uma historinha (bem pior do que as Historinhas do Aecinho que a gente encontra no site da Dilma). Uma historinha real, já que aconteceu comigo.



Em março de 1999 eu comecei meu curso de Letras na UNESP – Araraquara. Mário Covas (PSDB) era então governador do estado de São Paulo e aquele era também o primeiro ano do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) na presidência da república.



Durante 4 dos 5 anos em que fui aluno universitário, os 4 anos que coincidiram com o governo FHC na presidência e Mário Covas/Geraldo Alckmin no governo do estado, eu tive que trabalhar durante o dia para poder estudar à noite. O curso, apesar da inegável qualidade, não oferecia absolutamente nada além das aulas e de sua estrutura acadêmica: a universidade era de fato elitista, praticamente não se via negros ou indígenas no campus, não havia nenhum tipo de oportunidade para nada (a possibilidade de fazer parte da graduação no exterior, com bolsa do governo, não existia; PROUNI não existia; ajudas de custo com alimentação e moradia não existiam; políticas de permanência na universidade não existiam; bolsas de Iniciação Científica eram restritíssimas, e seus pagamentos eram sempre feitos em atraso; FAPESP era algo mitológico e inacessível).



Que fique muito claro: não é que as oportunidades existiam mais ou menos ou existiam e não funcionavam. Elas simplesmente NÃO EXISTIAM, e não existiam não por causa da má vontade ou indolência de reitores, diretores de campus, coordenadores de curso, chefes de departamento ou professores, mas por que qualquer proposta de abertura de oportunidades era imediatamente tomada como reacionária, assistencialista e contra os preceitos dos governos do país e do estado.



Só estudava em universidade pública quem tinha plenas condições de arcar com seus custos, e pessoas pobres, da classe trabalhadora, como eu e minha família, ou não tinham a menor possibilidade de acesso à tal instituição, ou tinham que trabalhar arduamente durante o dia e fazer um esforço hercúleo para estudar à noite (notem que eu estou falando do final do século XX, não de suas primeiras décadas).



Lembro-me, como se fosse hoje, levantar às 6h da manhã; entrar para trabalhar em uma fábrica às 7h; sair do trabalho às 17h; não ter tempo de ir para casa para tomar um banho ou comer, pois o ônibus para a universidade saía às 18h do centro da cidade (eu tinha que caminhar da fábrica onde trabalhava até o centro da cidade); entrar na aula às 19h; sair da aula às 23h e finalmente chegar em casa à meia-noite e meia e ir tomar banho, comer alguma coisa, estudar etc., para só então ir dormir e, no dia seguinte, começar tudo de novo às 6h da manhã.

Essa foi minha rotina diária por 4 anos, enquanto meu pai se matava de trabalhar em subempregos para poder conseguir pôr comida na mesa de casa, onde ele tinha 4 bocas, além da sua própria, para alimentar.



Dramático? Essa é só uma história dentre muitas semelhantes que eu ouvia de meus colegas de turma, e está longe de ser a pior delas.

Brasileiro não desiste nunca? Não. Pessoas em busca de melhores condições de vida não desistem nunca.

Lamentável coincidência? NÃO EXISTEM COINCIDÊNCIAS.



Sim, é isso mesmo, simples assim. Eu tive que vivenciar isso e abrir meus próprios caminhos por que o governo do PSDB não oferecia qualquer oportunidade, em qualquer nível, em qualquer lugar, para que fosse diferente. Não, pelo menos, para aquilo que eu buscava: um trabalho decente e uma vida melhor. Mérito meu? Com certeza é mérito meu mesmo, e só meu; me orgulho muito disso e é por causa disso que sou um partidário ferrenho da meritocracia. Mas, poderia ter sido diferente se houvesse algum tipo de oportunidade (e a oportunidade caminha junto com a meritocracia), por mínima que fosse, que pudesse ter tornado os meus méritos menos sofridos e menos física e emocionalmente desgastantes. Eu poderia ter estudado mais, me dedicado mais, conhecido mais, descansado mais, me preparado mais se os governos do país e do estado tivessem alguma política de acesso, alguma política social, alguma política de incentivo que fosse.



Hoje, meus alunos na universidade lutam, por exemplo, por melhorias nas políticas de permanência estudantil. Ou seja, essas políticas, pelo menos, já existem.

Eu tive que me virar numa época em que a mera menção à “políticas de permanência estudantil” era tratada como caso de polícia e reprimida pelos rigores da lei, pois é assim que o PSDB administra as coisas: para e elite, e por meio da violência e da repressão. Não existe diálogo com o PSDB, e não preciso lembrar ninguém sobre como foram tratados os professores, funcionários e alunos das 3 universidades públicas do estado de São Paulo, entre maio e setembro deste ano, quando aqueles buscavam melhorias de salário e de condições de trabalho e foram considerados, pela gestão Alckimin, como problemas de segurança pública. Tropa de Choque neles!



O ano de 2003 foi meu último ano na universidade e, “coincidentemente” (eu não acredito em coincidências em absoluto...), o primeiro ano do governo Lula (PT). Ainda que Lula tenha herdado o país falido depois de 8 anos de PSDB, já nesse primeiro ano as coisas começaram a indiciar alguma melhora na minha vida e na vida de minha família, pois meu pai conseguiu um emprego melhor e pôde, por exemplo, comprar um carro (usado).



Em 2004 consegui dar um passo importante na minha carreira, que foi entrar no mestrado. Também consegui um emprego melhor, tendo surgido, por “sorte”, a oportunidade de iniciar minha carreira no ensino público, o que significou muito para mim: retribuir os anos em que fui aluno no sistema de ensino público (e toda a minha formação, do jardim da infância ao doutorado, vem única e exclusivamente da escola pública) e, principalmente, poder me libertar da ditadura segregadora, embrutecedora e emburrecedora que é o trabalho na iniciativa privada, principalmente em indústrias de produção de bens de consumo (as preferidas e favorecidas pelo PSDB), o que, acreditava eu (e o tempo me fez ver que eu estava certo), seria a catapulta para uma melhoria efetiva de vida.



O tempo passou. Sob os ventos transformadores do governo Lula, eu concluí meu mestrado no início de 2006 e, ao final desse mesmo ano, prestei os exames para o doutorado. Passei e, em 2007, iniciei essa jornada. Já nessa época, CNPq e CAPES, os principais órgãos federais de fomento à pesquisa universitária no país, haviam sido saneados e funcionavam como tinham que funcionar. Foi por causa desse saneamento promovido pelo governo Lula que, entre 2009 e 2010, eu pude ficar um ano fazendo minhas pesquisas de doutorado nos Estados Unidos inteiramente custeado pelo governo federal em seu programa de bolsas para doutorado-sanduíche (pouco tempo depois, já no governo Dilma, o programa Ciência sem Fronteiras seria criado, facilitando ainda mais esse acesso). Desnecessário dizer que, se o governo federal estivesse entregue à aristocracia tucana, tal oportunidade jamais teria sido possível, já que, no pensamento psdbista, que é exatamente o mesmo pensamento da iniciativa privada, educação é custo, não investimento, logo, deve ser cortada.



Defendi meu doutorado no início de 2011, nos primeiros meses do governo Dilma. Ao final daquele mesmo ano, prestei concurso na universidade pública em que sempre estudei e, desde 2012, sou professor do ensino superior, ainda que sob a ditadura PSDB que rege o estado de São Paulo desde 1995.

Certamente, não fosse o saneamento e a abertura de oportunidades (obviamente unidas aos meus próprios méritos) promovidos pelo governo PT, eu não teria chegado onde estou e nem melhorado minhas condições de vida.



Portanto, diante da minha própria experiência de vida, Aécio Neves não tem autoridade, competência ou know-how alguns para falar qualquer coisa sobre os assuntos que realmente interessam para o desenvolvimento do Brasil, quais sejam Educação, Políticas Públicas e Economia.

O país do futuro que ele tanto prega, mas que em nenhum momento define, é uma falácia, pois o governo PT possibilitou e possibilita o acesso ao futuro hoje, aqui, agora, a quem nunca teve qualquer oportunidade de futuro: os filhos dos trabalhadores e os próprios trabalhadores. Hoje, por causa do governo PT, meus alunos podem lutar por melhores condições de permanência estudantil porque EXISTE uma permanência estudantil que pode ser melhorada. Hoje eu posso fazer meu pós-doutorado na Inglaterra porque as políticas de fomento à pesquisa do governo PT abriram à pessoas como eu, filho de trabalhadores do campo, semi-analfabetos, que nunca tiveram condições de dar uma vida de confortos a seus filhos, esta possibilidade antes simplesmente inexistente.



Só espero que o povo brasileiro, que tem memória fraca, não ignore todas as melhorias que o governo PT lhe trouxe e, neste segundo turno, faça justiça a si mesmo.

Senão, eu vou exigir minha Bolsa Cashmere, já que no último dia 23/10/2014 a Avenida Faria Lima (avenida muito apropriada, por sinal), em São Paulo, presenciou um espetáculo ridículo, deplorável e risível, chamado pela revista britânica The Economist de Revolução de Cashmere.



Eis os links da notícia da Revolução de Cashmere: