segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

APOCALIPSE

Vamos ao primeiro post de 2012!
Como não poderia deixar de ser no ano do Apocalipse, esta primeira postagem será justamente sobre o Juízo Final, o Crepúsculo dos Deuses, o Final dos Tempos, a Revelação, o Fim, a Sétima Trombeta, o Último Dia (que, como todos nós sabemos, é o próximo dia 21/12 ou, para alguns, 12/12... rsrsrsrssrsrsrsrs) etc.

Mas eu não vou fazer aqui toda uma articulação filosófica sobre essa questão. Ela é totalmente desnecessária. Já temos filósofos, místicos, historiadores, teólogos, apresentadores de TV, Aparecida Liberato etc. que já discutiram a problemática com maior propriedade que eu. No que me concerne, no próximo dezembro participarei do Viradão do Apocalipse e, caso o Fim do Mundo de fato ocorra, voltarei à Santa Casa do Pai bebericando uma boa dose de Famous Grouse ou Chivas.

O que vou fazer é uma resenha de um livro, um dos livros mais impressionantes, brilhantes e bem escritos que já li até o momento. Trata-se de

A BATALHA DO APOCALIPSE, de Eduardo Spohr


ESTA RESENHA NÃO CONTÉM SPOILERS

Eu já mencionei este livro em uma das respostas aos comentários do meu post sobre Os 10 livros que você tem que ler antes de morrer. Naquela época, eu ainda estava lendo a obra, lendo muito lentamente é verdade, visto que estava às voltas com meu doutorado.
Mas terminei de lê-la recentemente e a impressão que ficou foi de "gente, que coisa brilhante!".

A Batalha do Apocalipse trata de anjos, arcanjos, demônios e humanos ao longo de toda a existência conhecida da Humanidade até o Pós-Apocalipse. Sim, é isso mesmo: é narrado também o que acontece depois do Apocalipse, o que é bastante inusitado mesmo para os padrões da literatura fantástica.

A personagem principal é Ablon, um anjo renegado, que vive entre os terrenos há séculos. Nesta convivência forçada ele conheceu e encontrou muitas coisas e muitos seres: boa parte da natureza humana, seja seu lado bom, seja seu lado ruim; uma feiticeira necromante chamada Shamira, personagem encantadora, talvez até mais encantadora do que o próprio Ablon, que é um típico guerreiro na linha dos nórdico-germânicos Sigurd e Siegfried e do Beowulf do poema homônimo; um dos reis da Babilônia; o rei da Atlântida; o Anjo Exterminador de Sodoma e Gomorra; a Estrela Guia dos reis magos, que é na verdade um anjo; dentre diversos outros seres e coisas realmente muito interessantes e muito diferentes do que normalmente encontramos nas típicas narrativas fantásticas de aventura.

Ablon também enfrenta, no decorrer da história, vários inimigos muito poderosos, dentre eles três dos cinco arcanjos criados por Spohr em seu universo mítico: Gabriel, Lúcifer e Miguel. A batalha com Miguel, a mais esperada da trama (mas não a última e nem a de importância cabal), é simplesmente uma das sequências literárias mais brilhantes e bem construídas que eu já li, demonstrando um grande domínio não só do enredo, mas também e principalmente da técnica narrativa por parte do autor.

Aliás, o domínio da técnica narrativa é um dos pontos fortes de A Batalha do Apocalipse e, de longe, o que mais me impressionou, especialmente no que concerne às complicadas questões estruturais do espaço e do tempo.
A história se passa em várias eras da História da humanidade e para contar os fatos importantes do enredo que ocorreram nessas eras Spohr se vale de um complexo jogo de flashbacks, o que, na linguagem técnica da Teoria Literária é uma anacronia chamada analepse, ou seja, o movimento de parar a narrativa do enredo em um determinado ponto e voltar a um momento anterior ao próprio enredo para explicar o que aconteceu no ponto de parada ou o que vai acontecer em seguida.
O cinema usa muito esse clichê a partir da seguinte situação: uma personagem dorme e tem um sonho com algo que aconteceu antes de começar o enredo do filme. Quando a personagem acorda, coisas ocorrem dali para frente que remetem ao seu sonho.
Na literatura as possibilidades dessa técnica são muito mais amplas e complexas. Quando o escritor não a domina muito bem temos verdadeiros lixos literários. Porém, quando o escritor consegue dominá-la adequadamente ele pode nos presentear com  uma obra-prima. Este é o caso de Spohr em A Batalha do Apocalipse.
Somos transportados com toda leveza e naturalidade para a Babilônia, para a Roma antiga, para a China, para o Rio de Janeiro, para Portugal e para Israel sem que a história perca o sentido e sem que fiquemos com aquela desagradável sensação de "porque/para que viajar tanto?". Ou seja, Spohr constrói o flashback de forma que ele faça total sentido para a história, de forma que o enredo caminhe adiante e não se perca ou volte para trás (como, aliás, constitui-se a técnica propriamente dita: flashback = voltar para trás). O resulta é um todo muito rico de sentidos, uma história repleta de aventuras, significados e nuances, e um romance de arquitetura magistral que remete à obras arquetípicas da estruturação narrativa como Frankenstein, A Abadia de Northanger, Drácula e, eu arriscaria dizer, mesmo Os Irmãos Karamázov e O Nome da Rosa. O típico livro que se começa a ler e não se consegue parar, mas que não se sabe exatamente por que ele nos causa essa reação.

Outro ponto muito interessante de A Batalha do Apocalipse são as personagens. Excetuando-se Ablon — o anjo renegado que é evidente e obviamente o motor da história, seu herói inquestionável e uma personagem profunda, rica, de grande beleza física (a imagem de Ablon em minha mente é de um homem de uma beleza estonteante) e inteligência —, as outras personagens também são muito bem construídas e encantadoras. Dentre a miríade dessas personagens, que por si só já chama a atenção dada a incrível capacidade de Spohr em conseguir manipular de maneira coerente, lúcida e concatenada uma grande quantidade de personagens complexas, algumas merecem especial destaque.

Primeiramente, a necromante Shamira. Uma mortal única de sua raça, pois teve sua aldeia dizimada, que fora feita escrava na antiga Babilônia e que acabou sendo salva por Ablon. Isso mudou seu destino — não se iludam com o aparente clichê do "salva pelo anjo" que se pode invocar aqui. Garanto que se trata de algo bem mais complexo que isso — e levou Shamira a encontrar o Elixir da Vida Eterna, ainda que o narrador de Spohr jamais mencione a questão nestes termos. Shamira é uma mortal que se tornou imortal sem, ao que parece, ter feito um ritual de lichificação, ou seja, sem ter passado pela morte. Ela não é um morto-vivo de nenhuma das espécie que conhecemos nas tradições literárias (vampiro, zumbi, lich etc.). A Feiticeira de En-Dor, como é chamada pelo narrador e por algumas personagens, permanece humana durante milênios e gosta de colecionar conhecimentos ocultos: em sua jornada existencial ela adquiriu os arcanos mágicos de praticamente todas as culturas do mundo antigo e moderno por meio exclusivo do estudo in loco desses arcanos. Vemos, então, Shamira estudando com as fadas e com os elfos da Inglaterra antiga, com os chineses, com os turcos, com os romanos etc.
É difícil dizer se Shamira, acima de tudo uma bruxa, é boa ou má, pois ela é uma daquelas personagens-chave que aparecem nos momentos cruciais para ajudar o herói Ablon. Na verdade, eles formam o par romântico da história, mas de uma maneira bastante peculiar, sem os típicos clichês shakespeareanos e mexicanos em que normalmente recaem os pares românticos, mas também sem as complexidades de um amor como o de Heathcliff e Catherine Earnshaw em O Morro dos Ventos Uivantes. O amor de Ablon e Shamira é o amor-amor, o amor verdadeiro, não o amor-paixão, e isso muda tudo na história à medida que não há um deslize nem para o melodramático e nem para a morte.
Shamira, é claro, será a vítima dos grandes e verdadeiros vilões da história, que só se revelam nos capítulos finais, e será salva por Ablon, é óbvio. No entanto, ela também o salvará de uma maneira que me surpreendeu muito: foi a primeira vez que li um texto em que as artes mágicas de um ser humano foram capazes de salvar por completo um ser divino como um anjo.

Uma outra personagem que realmente me deixou perplexo foi o arcanjo Gabriel, um dos cinco arcanjos criados pelo próprio Deus para ajudá-Lo nas Batalhas Primevas contra as forças das trevas lideradas por uma deusa chamada Tehom. É interessante notar, antes de mais nada, as escolhas de Spohr aqui: Deus é um guerreiro que luta contra uma deusa e a vence, o que talvez possa ser lido como uma alusão ao domínio patriarcal da sociedade desde sempre. Ao que tudo indica, o Inferno foi feito com partes do corpo de Tehom, o que nos remete à cosmogonia nórdica na qual o Universo é construído a partir dos pedaços do corpo do gigante Ymir. Há cinco arcanjos na história — Miguel, Lúcifer, Gabriel, Rafael e Uziel, criados nesta ordem por Deus —, o que contraria a tradição angélica cabalística que lista nove arcanjos. Ao que parece, Spohr segue a tradição bíblica cristã aqui, e não a judaica, pois seus arcanjos são os mencionados no texto bíblico de linha cristã, ainda que o nome "Uziel" não seja tão fiel a essa tradição (o nome desse quinto arcanjo deveria ser Uriel, normalmente reconhecido como o Anjo da Morte no Livro do Êxodo, mas este ponto também é relido por Spohr de maneira muito peculiar). Lúcifer, é claro, é pintado como reza a tradição: o arcanjo rebelde, traiçoeiro etc., mas sem os absurdos da imagem gargulesca do Demônio que se cristalizaram no imaginário ocidental. O que vai chamar muito a atenção é que ele não será o único grande vilão de A Batalha do Apocalipse.
No que concerne a Gabriel, ele é chamado pelo narrador por seus epítetos cristãos clássicos: o Mensageiro de Deus e o Anjo da Anunciação. Gabriel vai se opor aos dois grandes vilões da trama e, apesar de ter lutado contra Ablon em dado momento, vai restabelecer sua amizade com o anjo renegado e constituí-lo general de suas forças rebeldes. Há uma fala de Gabriel a Ablon no final da obra que me emocionou como há muito um livro não era capaz de me emocionar (sim, reconheço, eu chorei):

— Assisto hoje ao último pôr do sol, com o mesmo fascínio com que contemplei o primeiro — confessou, melancólico. — Sou um vigilante do mundo, general, lanceado pela saudade e castigado pela lembrança. Posso sentir a passagem das eras e tocar as marcas do tempo, como as pegadas na areia, que vão sumindo a cada lambida do mar (SPOHR, 2010, p. 479).

Mas isso não é tudo quanto ao Mensageiro de Deus. Há uma passagem em A Batalha do Apocalipse que, à semelhança do movimento de desenvolver uma teoria sobre a Cristandade inaugurado por O Código Da Vinci (a teoria existente neste livro de Dan Brown é o seu único aspecto de interesse), propõe uma leitura simplesmente inovadora, inusitada e muito audaciosa em relação à encarnação de Jesus Cristo entre os humanos. É claro, neh minha gente, que eu não vou revelar aqui essa teoria, mas eu posso dizer que fiquei simplesmente fascinado com a possibilidade, uma possibilidade que, vista com olhos desprendidos dos dogmas católicos, é muito lógica, além de também explicar o amor entre Ablon e Shamira.
De modo geral, especialmente nos capítulos finais da obra, há uma reflexão sobre o amor que relaciona Gabriel, Ablon e Shamira e desconcerta o leitor quando este se depara, por exemplo, com a seguinte fala do narrador:

A realidade, definida pelo Mensageiro [Gabriel], era absolutamente clara e singela. Deus é a totalidade do universo, e a compreensão do infinito. Ele é a pura bondade, o amor irrestrito e a aceitação do desigual. Na ciranda dos sentimentos, o amor é o mais grandioso, porque reúne uma mistura de sensações convergentes, tais como a paixão, a amizade e o respeito (SPOHR, 2010, p. 483).

Claro está que tal concepção é eminentemente cristã e totalmente discutível, mas eu não me lembro de ter lido um texto literário que a colocasse de forma tão despretenciosa e tão límpida pois, repito, a tradição da Literatura mostra que, quando há o tratamento do amor, o texto desliza ora para o melodrama à la Romeu e Julieta, ora para a morte à la O Morro dos Ventos Uivantes. Até certo ponto, A Batalha do Apocalipse rompe com essas tradições neste aspecto, ainda que permaneça muito atrelado à outras tradições, especialmente as das convenções da literatura fantástica de aventura.

E quanto ao Apocalipse: o que acontece?
Sim, o Apocalipse ocorre em A Batalha do Apocalipse, e de maneira até bastante fiel às tradições estabelecidas pelo Apocalipse de São João, pelo Livro de Daniel e pelos profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel, além de incorporar visões mais recentes (guerras nucleares, por exemplo). Há, é claro, adaptações e transformações bastante engenhosas da questão por parte de Spohr, o que torna tudo bem mais interessante do que o geral das ficções do gênero. A solução que é dada para o depois do Apocalipse, o Pós-Apocalipse, aspecto que quase nunca é tratado pela Literatura e, quando o é, constitui um dos clichês da ficção científica (o mundo pós-apocalíptico no qual o Apocalipse já aconteceu há bastante tempo), é realmente muito bem arquitetada e me levou a uma quase Epifania ante tamanho cuidado cirúrgico na construção do enredo neste ponto.

Em suma, A Batalha do Apocalipse é uma obra-prima, algo único do gênero na Literatura Brasileira. O cuidado com a escrita, o cuidado com a estruturação da história, a magistral condução do enredo, a habilidade na construção das instâncias clássicas da narrativa (espaço, tempo, personagens); todos estes aspectos tornam a obra algo muito acima da média da ficção fantástica nacional que, como eu já disse na resenha de Anjo: a Face do Mal e repito, é pífia e de qualidade precária.
Quando leio um livro de André Vianco, o Stephen King tupiniquim, ou da maioria dos escritores de ficção fantástica nacionais tenho vontade chorar diante da total falta de cuidado com o texto em si: mal escrito, desconexo, às vezes incoerente, inchado de frases feitas e curtas demais, sem revisão gramatical e editorial. Nada disso ocorre na textualidade de A Batalha do Apocalipse. Excetuando-se um jogo um tanto quanto incomum de repetições ao final da obra, que evidencia a mão canhestra de um editor mexendo aonde não devia ou uma preocupação totalmente desnecessária por parte do autor em deixar tudo muito claro ao leitor, a obra praticamente não apresenta nenhum problema de construção e nenhum dos problemas que se verifica comumente na ficção fantástica brasileira.

É mais um daqueles seletíssimos livros de ficção fantástica nacional que eu recomendo e, neste caso, recomendo veementemente, pois se trata de um texto que nada deixa a desejar ao supra-sumo dessa vertente da ficção nas literaturas inglesa e norte-americana, os inventores do gênero, e também nas literaturas italiana e espanhola, os principais continuadores e desenvolvedores.
Eu colocaria A Batalha do Apocalipse na mesma linha das obras de Kim Newman, Neil Gaiman, Carlos Ruiz Zafón e Umberto Eco, ou seja, dos atuais grandes mestres do fantástico.
E discordo completamente da aproximação que José Louzeiro faz de A Batalha do Apocalipse com O Senhor dos Anéis na orelha da quinta edição da obra. Até o momento não há nada escrito por um brasileiro ou brasileira que possa ser comparado, mesmo que de longe, a O Senhor dos Anéis, e a obra de Spohr não constitui exceção. Para começar, uma questão básica: Spohr não cria uma mitologia ou línguas próprias e inovadoras, antes aproveitando-se das já conhecidas pela humanidade e das já trabalhadas na tradição literária ocidental. Já aqui ele se distancia muitíssimo de Tolkien e não, o simples fato da obra apresentar características evidentes do gênero épico — sim, há vários aspectos recorrentes do épico em A Batalha do Apocalipse, como a figura do herói, a grandiosidade dos acontecimentos, as forças envolvidas etc. em nada a torna minimamente próxima do tipo de épica que constitui O Senhor dos Anéis, uma épica muito mais elaborada, que dialoga com e se estabelece a partir de toda uma tradição clássica do gênero e de um teor de complexidade ainda não atingido por nada escrito no Ocidente desde sua publicação.
A meu ver, esta obra de Spohr talvez inaugure um novo caminho, mesmo uma nova vertende, na ficção fantástica brasileira que, num futuro indefinido, pode vir a resultar na aparição na literatura nacional de uma obra que se aproxime da obra máxima do mestre sul-africano. Percebam que este feito de A Batalha do Apocalipse não é pouca coisa. Mas, até lá, é totalmente imprudente, inadequado, exagerado e pretencioso aproximar esta ou qualquer outra obra de literatura fantástica brasileira à obra de Tolkien.
No entanto, atualmente é até compreensível tal absurdo, visto que virou um surto mundial comparar boas obras de literatura fantástica com O Senhor dos Anéis, ainda que essas boas obras nada tenham a ver com a história do Um Anel. Ou seja, pura incoerência crítica e clara jogada de marketing.

Por fim, todos esperamos que a saga Filhos do Éden apresente o mesmo nível superior de qualidade.

* * *

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

SPOHR, Eduardo. A batalha do Apocalipse: da queda dos anjos ao crepúsculo do mundo. 5. ed. Campinas: Verus, 2010.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

OS 11 FILMES QUE VOCÊ TEM QUE ASSISTIR ANTES DE MORRER

Ultimamente, só tenho falado de Literatura e de mim mesmo neste espaço (ainda que falar de Literatura seja falar de mim mesmo e vice-versa).
Então, está na hora de agitar as coisas com um pouquinho de cinema, crítica e polêmica! rsrsrsrs
Bora chutar o balde com os 11 filmes que vocês têm que assistir antes de morrer, minha gente!

Primeiro uma explicação: por que 11 e não 10?
Porque existe um site maravilhoso e que eu recomendo a todos vocês chamado That Guy with the Glasses (http://thatguywiththeglasses.com/). Nesse site existe o Nostalgia Critic (http://thatguywiththeglasses.com/videolinks/thatguywiththeglasses/nostalgia-critic), que VOCÊS TÊM QUE VER! Doug Walker, o Nostalgia Critic, faz crítica de cinema de filmes antigos e normalmente considerados ruins ou de "B" pra baixo. Os filmes podem ser ruins, mas as críticas são FAN-TÁS-TI-CAS e hilárias!
Em dados momentos Doug faz uma set list contendo 11 coisas, motivos etc. sobre os filmes que critica (uma set list muito boa é a Top 11 Nostalgia Critics I Will Never Do), e ele diz que faz 11 porque ele quer dar um passo além em relação a uma simples lista de 10 títulos.
É isso que vou fazer aqui nessa minha modesta lista dos 11 filmes que vocês têm que assistir antes de morrer: vou listar 10 e dar um passo além com um décimo-primeiro. Além disso, também vou listar 11 pra não ficar tão igual à fabulosa lista d'Os 10 livros que você tem que ler antes de morrer, o meu post mais visitado até o momento segundo as estatísticas do Blogger! Aliás, obrigado a todo os visitantes e continuem visitando, comentando etc.

Ah1! Vou listar do décimo-primeiro ao primeiro, sendo que o primeiro é o filme supremo, o mais mega-master-blaster, o oitavo dan, aquele que se você não assistiu ainda é porque sua vida ainda não começou. Trata-se de um filme que não pode ser comparado aos demais.
Ah2! Não se esqueçam que tanto os filmes listados quanto os comentários são minhas singelas opiniões e, como tal, são plenamente discutíveis e criticáveis. Então, não se façam de rogados se quiserem propor outras listas, me questionarem, elogiarem e/ou meterem o pau.
Ah3! Todos os títulos dos filmes abaixo são links diretos para suas informações no IMDb e todos eles podem ser encontrados em boas locadoras ou baixados pela internet.

Vamos à lista!

11º
[Pink Flamingos, 1972], de John Waters

Pink Flamingos é considerado a obra-prima do trash, um filme que poucos conseguem assistir até o final sem pelo menos uma ânsia de vômito. Sim, ele chega a ser mais nojento que o Saló (1975) de Pasolini.
O filme é tão ruim, mas tão ruim que ele se torna hilário, brilhante e maravilhoso por ser o cúmulo do péssimo em todos os sentidos. É um filme para se divertir com as suas barbaridades indescritíveis e absolutamente cômicas: o roteiro é ridículo, as atuações são precárias, a filmagem é tosca, as cenas são sem noção e o filme e seu diretor sabem disso, deixam isso claro para quem assiste e se divertem horrores.
Neste filme está uma das minhas personagens favoritas no cinema: Babs Johnson, interpretada por Divine, a drag queen que era musa do diretor John Waters. Aliás, John Waters dirigiu também o primeiro Hairspray (1988), infinitamente melhor que o segundo, e Divine interpretava o papel de Edna Turnblat (que no segundo foi interpretado por John Travolta numa atuação bastante discutível).
A vibe de Pink Flamingos é o nonsense: para vocês terem uma ideia, o filme tem esse título simplesmente porque há dois flamingos de plástico que enfeitam o jardim do trailer onde Babs mora com sua mãe, uma viciada em ovos (sim, é isso mesmo que você leu: ela é uma viciada em ovos), e seu filho, um maluco viciado em drogas; e a grande questão do filme (RSRSRSRSRS) gira em torno de um casal que ousa desafiar Babs para lhe roubar o título de Pior Pessoa Viva (kkkkk!). A cena de Divine vestida com um collan vermelho e apontando uma arma é antológica e provavelmente uma das mais conhecidas do cinema. Imaginem para quem ela está apontando essa arma... Ah! Esta é Também minha cena preferida neste filme.

10º
[Life of Brian, 1979], de Terry Jones

O supremo A Vida de Brian é o terceiro longa da Monty Python, a incrível e genial trupe de comediantes ingleses composta por Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones, John Cleese e Michael Palin. Trata-se da mais brilhante comédia já feita no cinema, e desculpe mas você vai achar um lixo todas as comédias que assistiu depois de ver A Vida de Brian. Ah! Não recomendo assistir este filme no Natal, pois você pode se sentir ofendido(a)... rsrsrs
Os pontos altos do filme, que são também minhas cenas preferidas, são a cena da "aula de latim", Michael Palin interpretando Pôncio Pilatos e todo o processo de crucificação.
Não, não vou falar mais nada sobre esse filme... acho que já disse o suficiente para vocês perceberem qual é a vibe, neh? Então vai chorar de rir, minha gente!

[The Rocky Horror Picture Show, 1975], de Jim Sharman

Assim como Star Wars, Matrix, O Senhor dos Anéis e Harry Potter, The Rocky Horror Picture Show é um objeto de culto. Aliás, é um dos filmes mais cultuados da história do cinema, senão o mais cultuado (desculpas aos fãs de Star Wars chocados com a informação). Estatísticas dizem que este é o único filme que está em cartaz desde o dia em que foi lançado, e isso é uma informação que não deve ser colocada em dúvida: há um cinema na Alemanha que projeta Rocky Horror toda semana e em New York e Los Angeles há sessões especiais (sing along) mensais desse filme em que os fãs vão fantasiados como suas personagens preferidas e se apresentam durante as cenas, e isso ocorre desde 1975.
Trata-se de um musical que parodia os filmes baseados no Frankenstein, a obra-prima da ficção científica escrita por Mary Shelley, ou seja, é uma paródia da paródia simplesmente brilhante. Susan Sarandon interpreta seu primeiro papel no cinema neste filme e Tim Curry (As Panteras, Caçada ao Outubro Vermelho) faz aqui o papel que o consagrou para sempre e de longe o melhor papel de toda a sua extensa carreira.
Minha cena preferida é, evidentemente, a Time Warp... rsrsrs. Meu sonho era ser um dos transilvanianos que cantam e dançam aqui.


cena da Time Warp

[Wall-E, 2008], de Andrew Stanton

Toda lista de "Os filmes que você tem que..." que se preze precisa ter pelo menos uma animação. Esta aqui é, na minha opinião, a arqui-animação até o momento. Sim, eu sei que vocês vão dizer que eu poderia ter listado Toy Story 3 (quem não chorou quando assistiu?), Shrek, A Viagem de Chihiro, Persépolis etc. Perdoem-me, mas Wall-E é mais genial do que todos estes e do que todas as animações já feitas até o momento, inclusive Animatrix (vislumbro alguns de vocês já pegando as pedras... rsrsrs).
Por que esta animação da Pixar é mais genial do que a fabulosa Animatrix? Por um motivo muito simples: Wall-E prende o expectador completamente por 98 minutos, consegue passar uma carga imensa de emoção e é de uma delicadeza tocante com uma quantidade ínfima de diálogos e textos. Todos os efeitos emocionais e imagéticos causados pelo filme no expectador, que não são poucos, são quase totalmente conseguidos pelos usos do som e da expressão das personagens, ou seja, da imagem. Até então, e até onde eu me lembro, somente George Lucas conseguiu algo próximo disso no inesquecível R2D2 de Star Wars.
A personagem principal de Wall-E é um robô, minha gente! E não um robô humanóide como em Eu, Robô ou um robô mega-inteligente e louco como em 2001, mas um simples robozinho mecânico coletador de lixo!
Choro toda vez que assisto esse filme e tenho um Wall-E de pelúcia em cima da minha cama.

[Star Wars - Episode V: The Empire Strikes Back, 1980], de Irvin Kershner

E por falar em Star Wars, é claro que esse filme não podia faltar em minha lista. A franquia Star Wars como um todo é a arqui-ficção científica. Nenhum sci-fi pode ser comparado a este, que eu considero a evolução máxima do gênero durante o século XX (falaremos da Mãe/Pai da ficção científica mais adiante, no terceiro filme da minha lista). E das seis sequências existentes até o momento (George Lucas tinha prometido mais três, como todos nós sabemos, mas eu duvido que ele venha a realizar/produzir esses filmes) O Império Contra-Ataca é, na minha modesta opinião, a melhor.
Como Star Wars narra a saga do herói, é em O Império Contra-Ataca que temos o herói (Luke Skywalker) se estabelecendo como herói, se tornando verdadeiramente herói. A cena antológica da luta de Luke com Darth Vader ainda dá uma excelente aula de Psicanálise freudiana e as falas de Mestre Yoda são verdadeiros conselhos para a Vida.
Aliás, minha cena preferida neste filme é justamente aquela em que Luke, já na casa de Yoda e durante a conversa deste com o espírito de Obi-Wan para aceitar ou não o jovem Skywalker como padawan, diz ao grande mestre Jedi que se considera pronto para iniciar os treinamentos e que não tem medo de nada, ao que Yoda responde "Mas você terá... você terá". Me arrepia toda vez que revejo essa cena.

[Matrix Reloaded, 2003], de Andy e Lana/Larry Wachowsky

Sim, eu sei: somente o primeiro Matrix deveria estar nesta lista. No entanto, eu gosto dos três, e mais especialmente do segundo, Matrix Reloaded. O primeiro Matrix é antológico, revolucionário, filosófico etc. Mas o segundo mistura tudo isso num filme de ação magistral, instigante e de tirar o fôlego. Sim, admito: meu gênero preferido de cinema é a ação. Eu ADORO um filme arraza-quarteirão de Michael Bay ou algo como todos os Missão Impossível. Lara Croft é TU-DO e O Procurado é simplesmente DE-MAIS!
Então, sorry, mas o segundo Matrix é o meu preferido. As falas do Oráculo e do Arquiteto são incríveis e explicam muito sobre os principais mistérios do universo que é a Matrix, o Merovíngio é uma personagem inesquecível e Neo está na plenitude de seus poderes como o Escolhido. Enfim, nem tão profundo quanto o primeiro Matrix (que uso para dar aula de Teoria Literária e, reconheço e concordo, é um filme brilhante...) e nem tão superficial quanto o terceiro Matrix (razoável, para dizer muito).
Todas as cenas deste filme são minhas preferidas.

[The Fall, 2006], de Tarsem Singh

Este é um daqueles filmes indescritíveis, que só podem ser compreendidos e/ou sentidos quando assistidos. O título em português, como vocês podem notar, é ridículo, mas creio que foi necessário para que o filme não fosse confundido com A Queda (tradução literal do título em inglês), um daqueles cansativos e desagradáveis filmes sobre o Holocausto.
Dublê de Anjo é uma homenagem lírica às artes da narrativa e da imagem: um dublê de filmes que se feriu e está internado em um hospital conta histórias para uma menina que está também hospitalizada. Ao serem contadas, as histórias ganham vida na mente da menina e na tela à nossa frente com imagens, cores e texturas grandiosas, únicas, incríveis, maravilhosas e, é claro, começam a influenciar a realidade da protagonista e, por consequência, a nossa. Na verdade, assistir Dublê de Anjo é uma experiência inigualável de sensações, uma espécie de Máscara da Ilusão (2005) e de O Labirinto do Fauno (2006) infinitamente melhorados.
De todos os filmes que assisti nos quais a imagem é a chave (O Clã das Adagas Voadoras, Avatar etc.), este me parece ser o mais belo, o mais tocante, o mais emocionante. Todas as cenas deste filme, sem exceção, são as minhas preferidas.

[Battle Royale / バトル・ロワイアル, 2000], de Kenji Fukasaku

Bem... este é um filme para mentes, corações e espíritos fortes, pois trata-se de uma história extremamente violenta, mas violenta mesmo: algo como Holocausto Canibal (1980) e Ichi: o Assassino (2001), filmes que tornam o tão comentado O Albergue (2005) uma história da carochinha. Lembro-me de tê-lo assistido junto com alguns amigos estrangeiros quando morei na Califórnia, e todos ficaram horrorizados. No entanto, eu ri muito durante o filme todo e vou contar a vocês por que.
Eu sou professor e Battle Royale faz uma espécie de justiça aos professores. Não se trata de algo idiota como Ao Mestre, com Carinho (1967) ou pretencioso como Entre os Muros da Escola (2008). Trata-se da realização na ficção do sonho de todo professor: matar aqueles alunos imbecis que atrapalham a aula (sim, podem me chamar de psicopata... rsrsrsrs).
Japão num futuro próximo. O sistema de educação faliu e os alunos dominam a escola, violentam os professores e a desordem predomina (notem que se trata de um contexto muito semelhante ao da escola pública brasileira, algo que no Japão é sinômino de filme de terror dado o valor cultural da educação naquele país). O governo decide baixar um decreto, o Decreto da Batalha Real: uma sala de alunos de colegial é dopada, levada para uma ilha deserta e obrigada a caçar e matar uns aos outros até que reste apenas um sobrevivente, e tudo isso supervisionado por um dos professores que foi violentado por esses alunos, interpretado por ninguém menos que o grande Takeshi Kitano (Zatoichi, Sonatine). Juro para vocês que as mortes são insanas, e por isso mesmo hilárias.
Mas há um outro motivo para este filme estar aqui nesta lista, um motivo bem mais elevado. Battle Royale é o filme preferido de Mestre Quentin Tarantino, o Cineasta de Deus e o diretor que mais gosto. Mais do que isso, como ele mesmo diz na fala abaixo, este é o filme que, caso ele pudesse escolher, seria o que ele gostaria de ter dirigido.


[Metropolis, 1927], de Fritz Lang

Com certeza vocês já assistiram Blade Runner, o Caçador de Andróides (1982), Matrix (1999, 2003), Minority Report: a Nova Lei (2002), Eu, Robô (2004) e tantos outros filmes de ficção científica nesta e em outras linhas do gênero. Pois é... nenhum deles existiria sem Metrópolis. Aliás, não existiria ficção científica, não existiria cinema sem Metrópolis, o filme que é a Mãe e o Pai do gênero ficção científica no século XX.
Eu costumo chamar Metrópolis de o arqui-filme, pois todos os filmes hollywoodianos foram, são e sempre serão influenciados por ele.
Trata-se de um filme em preto e branco e mudo. Só recentemente conseguiu-se reunir todas as partes conhecidas e existentes do filme, visto que o rolo original completo se perdeu. Acredita-se que os 153 minutos conhecidos hoje sejam o filme completo, mas ninguém tem certeza.
Contudo, e independente de qualquer coisa, Metrópolis é uma experiências única, uma visão de um futuro distante em que linhas de metrô cruzam a cidade, aviões cruzam os céus a todo instante e robôs são produzidos para substituir seres humanos inconvenientes. Detalhe: esses robôs são a réplica exata do ser humano por eles substituídos. Não se enganem, meus caros, e nem julguem de imediato: num primeiro momento Metrópolis pode parecer risível para os expectadores de hoje, mas a força da história que este filme conta e a mensagem que ele passa continuam sendo visões de um futuro distante para nós mesmos, seres do século XXI.
Minha cena preferida é, sem dúvida, a da criação de Maria.

A cena da criação de Maria

[Det Sjunde Inseglet, 1957], de Ingmar Bergman

Teoricamente, numa lista de 10 títulos este aqui seria o primeiro. Nada mais justo: trata-se da obra-prima de Mestre Ingmar Bergman e da atuação inigualável do grande Max von Sydow.
O Sétimo Selo é, na minha modesta opinião, o filme perfeito em absolutamente tudo, tanto técnica quanto esteticamente. Nele não há falhas de nenhuma espécie: até mesmo os erros de continuidade, praticamente imperceptíveis, são magistrais.
A história é gótica: gira em torno de um cavaleiro cruzado que voltou à sua terra depois das guerras e agora se depara com a destruição de tudo pela Peste. Entretanto, ele deveria ter morrido nas lutas e agora a Morte o persegue. A personificação da Morte neste filme detém a genialidade por trás da simplicidade: Bengt Ekerot vestindo um traje negro e com uma expressão ao mesmo tempo irônica e paralisada no rosto. É o suficiente para a atuação da Grande Ceifeira no filme e estabelece, então, a imagem da Morte no ideário ocidental.
Filosófico, profundo, crítico, reflexivo, uma aula de existência e de vida são algumas das qualidades deste filme que o tornam magistrais. Todavia, para mim a sua magistralidade reside na singeleza do enredo, na absoluta tranquilidade da direção de Bergman, uma tranquilidade que é transmitida ao expectador de uma maneira mágica e inexplicável, e da atuação do elenco.
Minhas cenas preferidas são, evidentemente, as antológicas cenas em que a personagem de Max von Sydow joga xadrez com a Morte.

As cenas iniciais de O Sétimo Selo, que contém uma das cenas de jogo de xadrez com a morte


Finalmente, o passo além, o arqui-filme, o filme supremo, o filme dos filmes, o filme que se vocês não assistiram ainda suas vidas não têm sentido! rsrs

[Kill Bill vol. 1 e vol. 2, 2003 - 2004], de Quentin Tarantino

Óbvio que todos vão discordar de mim aqui: o grande filme de Tarantino é Pulp Fiction (1994), e não Kill Bill. Concordo. Pulp Fiction é uma aula de cinema. Mas... e sempre há um maldito "mas"... Kill Bill é o meu filme preferido de Tarantino, o melhor de todos os filmes de todos os tempos e o primeiro filme que vocês têm que assistir antes de morrer! RSRSRSRS!
Não dá para falar ou escrever sobre Kill Bill. É preciso assistir Kill Bill para verificar e sentir in loco toda a força desse filme. Trata-se de um épico, a história de uma vingança justa e bem-sucedida: Beatrix Kiddo mata Bill... mas vocês só vão entender como se assistirem as duas partes do filme, e é o COMO que interessa aqui.
O que mais me encanta em Kill Bill é o jogo de referências. O filme é inteiramente construído a partir de referências a outros filmes. Não se trata de cópia ou de plágio, como seres não-evoluídos costumam me dizer, mas de saber citar, de saber fazer a referência certa na hora certa de modo a construir algo completamente novo. Nesse ponto, Tarantino é o que poderíamos chamar de pós-moderno: como não há mais originalidade, ele inventa o original a partir de uma miríade de referências.
Em Kill Bill Tarantino faz isso em uma estrutura de romance: cada parte do filme é numerada e intitulada, como se estivéssemos diante de um livro. Além disso, o diretor utiliza o flashback e o flash-forward à maneira dos ficcionistas da palavra, e não à maneira dos cineastas e dos padrões do cinema. Como se não bastasse tanta genialidade, Mestre Tarantino ainda cria uma história fundamentada em mitos: o mito do herói justiceiro e o mito do guerreiro samurai. Se Mestre Akira Kurosawa estivesse vivo e pudesse ter assistido esse filme, ele certamente deixaria a sala de cinema em lágrimas de emoção, pois veria ali o próximo passo transfigurador ao seu divino Os Sete Samurais (1954).
Apesar de todas as listas que existem na internet contendo os filmes referenciados por Tarantino no enredo e na estrutura de Kill Bill, e apesar da minha lista particular dos filmes referenciados (resultante de várias pesquisas e que divulgarei em um post específico sobre este filme), a verdade é que nunca chegaremos a uma lista final, nunca chegaremos à lista que contém todas as referências, visto que talvez nem mesmo o próprio Tarantino seja capaz de enumerar todos os filmes por ele citados nesta que é, na minha humilde opinião, a sua obra-prima até o momento e a obra-prima do cinema ocidental.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

KATE CHOPIN

Durante cerca de dez anos da minha vida Kate Chopin foi um assunto diário: seu nome e suas obras tomaram boa parte do meu tempo, das minhas leituras, do meu coração e mesmo da minha alma. Muitas vezes me peguei falando de Kate como se ela ainda estivesse viva, como se ela fosse um ser ainda existente aqui, neste Vale de Lágrimas, a que eu pudesse visitar, tomar um chá e conversar. Quantas vezes eu sonhei com essa oportunidade, com essa chance: conversar com Kate Chopin, olhar em seus olhos, vê-la escrever, ouvi-la ler em voz alta como Dickens tantas vezes fizera!
Infelizmente, quando eu nasci ela já havia falecido há 76 anos.

Kate Chopin
Incontáveis vezes me reconheci em seus escritos, me vi descrito em suas palavras, me vi usando, mesmo me apoderando, de seus vocábulos. Um dia Alcides, meu ex-orientador, hoje mestre e amigo, ao ler um texto que escrevi, disse-me, exercendo como poucos sua função de orientador, que aquela era a minha Edna Pontellier (a personagem principal da obra-prima da autora, O Despertar) e a minha Kate Chopin. Edna Pontellier c'est moi. Talvez mais do que isso: Kate Chopin c'est moi.

À Kate Chopin devo tudo que me tornei e tudo que conquistei nesta última década de vida: o primeiro trabalho que apresentei em um congresso foi sobre sua obra; finalizei minha graduação estudando sua obra; me tornei mestre por causa de sua obra; morei nos Estados Unidos por causa dessa mulher e de seus escritos; me tornei doutor por causa de seus textos. As coisas mais importantes que realizei, que escrevi e que vivenciei estiveram e estão sob a égide de Kate Chopin.
Lembro-me que, nas horas derradeiras em que estive diante das diversas bancas de especialistas que me avaliaram, nos instantes em que ninguém podia (ou queria) estar comigo, aqueles momentos em que eu entrei nas salas e me sentei frente à pessoas doutas para ouvir e ser ouvido, sempre pedi, orei, à Kate que ficasse comigo, que estivesse ali do meu lado, que falasse por mim, pois tudo aquilo era para ela, pela sua memória, em homenagem e agradecimento às mudanças que ela trouxe ao mundo (Kate foi precursora do Feminismo) e à Literatura (ela é a maior contista norte-americana do século XX). Ela sempre esteve comigo nessas e em diversas outras horas solitárias. Não parece, mas a vida de professor e pesquisador é muito solitária, especialmente para pessoas como eu, que têm verdadeira ojeriza e total descrença no trabalho em grupo.

Vocês podem me perguntar: porque Kate Chopin?
Ao que eu vou responder: eu nunca consegui entender por que Kate Chopin.

Tudo começou em 2002, quando eu comecei a procurar um orientador para desenvolver meu mestrado, pois durante a graduação eu acabei decidindo que eu queria seguir carreira acadêmica.
Naquele ano eu cursei a primeira parte da disciplina Literatura Norte-Americana com Alcides Santos, que viria a ser meu orientador mais tarde. Nós estudamos teatro americano naquele ano e, ao final da disciplina, ele solicitou um trabalho sobre uma das peças lidas. Eu escolhi, é claro, Um bonde chamado Desejo [A Streetcar Named Desire, 1947], de Tennessee Williams. Aliás, foi nesse ano que esse texto se tornou um dos meus preferidos, como vocês podem verificar no meu post "Os 10 livros que você tem que ler antes de morrer".
Eu tinha ficado tão encantado com a personagem Blanche DuBois da peça que propus fazer uma análise do Mal relacionado ao feminino. Alcides gostou da idéia e me mandou ler um dos textos que abriu minha mente para várias coisas: o primeiro capítulo, intitulado "Sexo e violência, ou natureza e arte", de Personas Sexuais, a obra-prima da suprema Camille Paglia.
Eu fiquei em êxtase durante vários dias ao fazer esse trabalho.

No ano seguinte, cursei a segunda parte de Literatura Norte-Americana com o mesmo Alcides. Na segunda semana de aula ele trouxe os trabalhos do ano anterior para entregar aos alunos. Ele fez comentários sobre cada um dos trabalhos e deixou o meu e de um querido amigo (que hoje insiste que não é mais meu amigo) por último. Lembro-me como se fosse hoje que Alcides, de frente para a sala e encostado na mesa, pegou o meu trabalho e disse "Hum... muito bom. Daria uma boa pesquisa de mestrado...". Eu peguei o trabalho e, num impulso inexplicável, disse a ele, em voz alta e na frente de todos os meus colegas: "Você me orienta no mestrado?". E a resposta foi "Sim, com certeza". A sala ficou muda e eu fui embora feliz naquele dia. Ali começou uma relação de respeito e amizade que gerou um mestrado, um doutorado e mais um membro do Clã de Conselheiros de Cido (composto atualmente pelos seguintes membros: minha mãe, Juliana Santini, Rogério Bernardo, Alcides Santos, Vanberto Rossi, Daiane Rossi, Isabel Rossi, Vívien Fonseca e Maykon Vieira).

Duas semanas depois Alcides e eu nos reunimos para iniciar os primeiros passos da pesquisa. Ele me disse que estudar a relação da mulher com o Mal me levaria ao Feminismo e que talvez eu gostasse dessa teoria. Eu disse a ele que não sabia que autor ou obra eu queria pesquisar. Sabia apenas que seria algo em literaturas de língua inglesa. Então, do meio da bagunça assustadora que existia sobre a mesa dele no Departamento de Letras Modernas da UNESP - Araraquara, e que hoje não existe mais (a bagunça, pois a mesa continua exatamente no mesmo lugar), e sob os auspícios, que à época eu não entendia, do "Ancient of Days" (1794), de William Blake, uma interessante reprodução que fica emoldurada e pendurada na parede em frente à mesa ocupada pelo meu ex-orientador, Alcides tirou de uma pilha absurda de papéis uma cópia de um conto de Kate Chopin chamado "The Story of an Hour" ["A história de uma hora", 1894] e disse "Tome. Leia isso e voltamos a conversar".
Eu li e tive um momento epifânico, uma iluminação inexplicável do Além, um orgasmo múltiplo: era aquilo! Eu tinha achado!
Meu coração estremeceu e meu fôlego se esvaiu. Ali estava tudo que eu tinha procurado até aquele momento em um texto literário: um abismo infinito de significações no qual eu pudesse me atirar de cabeça, de olhos fechados, com a certeza de que jamais eu chegaria ao fundo, mas que quanto mais eu caísse, quanto mais eu me aprofundasse, mais eu iria descobrir sobre o Tudo.
Para vocês terem uma idéia do que senti, o conto termina com a seguinte passagem:
Quando os médicos chegaram, disseram que ela havia morrido do coração de alegria que mata (CHOPIN, 2006, p. 390).

O "Ancient of the Days", de Blake, que fica reproduzido numa moldura na frente da mesa do meu querido amigo Alcides, na UNESP - Araraquara

Mal sabia eu que aquele era só o início dos meus êxtases chopinianos.
Quando voltei a me reunir com Alcides e lhe contei a minha experiência com "A história de uma hora" ele riu e, assumindo sua postura de Pai Mei, disse o seguinte: "Ótimo. Temos um começo. Agora você vai ler O Despertar".

A leitura de O Despertar [The Awakening, 1899] foi ela mesma o meu despertar. Essa leitura me trouxe a compreensão de muitas coisas, me garantiu momentos inenarráveis de prazer estético, me mostrou que existe vida na diferença e, principalmente, me ensinou a resistir: resistir às dificuldades, resistir à incompreensão das pessoas, resistir aos diversos preconceitos, resistir na luta diária que é a Vida, resistir às intempéries e adversidades que nos tomam de surpresa, resistir ao desrespeito e aos desparates das pessoas, resistir à falta de amor e de carinho que insistem em se abater por sobre os seres e o mundo. Resistir tornou-se sinônimo, para mim, de persistir, de insistir e de se rebelar. Resistir passou a ser, para mim e graças à Kate Chopin especificamente neste livro, sinônimo de Existência.
Eis algumas passagens de O Despertar que gosto muito:

A voz do mar é sedutora; ininterrupta, sussurrante, queixosa, murmurante, convidando a alma a errar atrás de uma explicação em abismos de solidão; a se perder em labirintos de contemplação interior.
A voz do mar fala para a alma. O toque do mar é sensual e estreita o corpo em seu suave e envolvente abraço
(CHOPIN, 1994, p. 25 - 26)
Esta é, talvez, minha passagem preferida da obra, pois ela, de alguma forma, me define: eu tenho essa fascinação sensual pelo mar, pela água de uma maneira geral, que é aqui descrita.

Eu desistiria do não-essencial; daria meu dinheiro, daria minha vida, por meus filhos; mas não daria a mim própria
(CHOPIN, 1994, p. 67)
Esta passagem se tornou uma espécie de lema de vida para mim. Nela está contido o resistir, o leitmotif que escolhi para dar sentido à minha Existência.

Vênus emergindo da espuma não teria apresentado um espetáculo mais arrebatador que a Sra. Pontellier, refulgindo de beleza e diamantes à cabeceira da mesa, enquanto as outras mulheres eram todas jovens huris de incomparável formosura
(CHOPIN, 1994, p. 147 - 148)
Sem dúvida a passagem mais imagética de O despertar. Toda vez que leio este trecho me vem à mente a minha pintura preferida: O nascimento da Vênus (c. 1485), de Sandro Botticelli. Talvez Kate vislumbrasse essa pintura quando escreveu essa passagem, ainda que eu saiba que ela tinha uma pequena estatueta que reproduzia a Vênus de Milo na estante que ficava na sala em que ela costumava escrever. Afrodite (Vênus) sempre foi uma das minhas paixões...

O Nascimento da Vênus, de Botticelli
Outra das minhas passagens preferidas da obra é também muito imagética e remete a uma pintura que me envolve no mistério. Essa pintura é o Baco (c. 1596), de Caravaggio. Da mesma forma que nunca consegui elucidar melhor em minha alma este trecho da obra-prima de Chopin, também nunca consegui clarear em minha alma a tela de Caravaggio. Isto não me dá medo e nem me frustra. Pelo contrário, me atrai profundamente, pois se trata da manifestação fenomênica do mistério, de um dos meus mistérios.
O mistério, o enigma, o indecidível, o phármakon. Todos fenômenos inexplicáveis que me atraem como os relâmpagos e trovões das tempestades.
A Sra. Highcamp estava tecendo uma grinalda de rosas, amarela e vermelha. Quando terminou a grinalda, colocou-a mansamente sobre os cachos negros de Victor. Ele estava reclinado bem para trás na luxuosa cadeira, segurando uma taça de champanhe contra a luz.
Se uma varinha mágica o tocasse, a grinalda de rosas o transformaria numa visão de beleza oriental. As maçãs de seu rosto estavam da cor de uvas esmagadas e seus olhos escuros brilhavam como fogo agonizante
(CHOPIN, 1994, p. 119)
Baco, de Caravaggio
Eu devia este post à minha amada Kate Chopin, em agradecimento a todas as coisas boas que sua obra me proporcionou e me proporciona sempre que a ela retorno. Certamente que há muito mais coisas sobre autora e obra que mereceriam ser ditas aqui, mas eu creio que já disse tudo que eu precisava dizer nos longos textos que escrevi para meu mestrado e meu doutorado.
 
Obrigado, Kate Chopin, por me ensinar a resistir. 

BIBLIOGRAFIA

Para aqueles que têm interesse em conhecer mais sobre a vida e a obra de Kate Chopin há o site da Kate Chopin International Society (www.katechopin.org/), onde pode ser encontrado biografia, fotos e algumas obras completas da autora.

Em português estão publicados seus dois romances e uma coletânea de contos:

* Culpados [At Fault], o primeiro romance de Chopin, publicado pela Editora Horizonte em 2005.
* O despertar [The Awakening], a obra-prima da autora, publicado pela Editora Estação Liberdade em 1994 (esta é a obra utilizada nas citações do romance no post).
* Kate Chopin: contos traduzidos e comentados, coletânea bilíngue (português/inglês) publicada em 2011 pela Editora Luminara contendo os principais contos de Chopin traduzidos ao português pela equipe de tradutores da renomada professora Beatriz Viégas-Faria.

Para quem quiser conhecer meu trabalho sobre a obra e a vida de Kate Chopin, é só acessar os seguintes links:




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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

CRÔNICAS [NADA HERÓICAS] DE CIDO - PARTE 1: A NOVELA VAMP, A PSICANÁLISE FREUDIANA E CIDO

Bem, meus caros. Há algum tempo este meu blog está jogado às traças e é hora de dar uma chacoalhada na poeira lançando a minha mais nova minissérie de sabe-se Deus quantos capítulos: Crônicas [nada heróicas] de Cido.
Nessas crônicas pretendo contar um pouco sobre as leituras, os filmes e os aspectos culturais que são chaves para eu ter me tornado o que sou hoje: um ser humano como qualquer outro, ou seja, alguém como você, mas com o fator imensamente complicador de ter consciência dessa condição.
Esses livros, filmes e gadgets culturais são, até o momento, os meus Outros, aquilo em que me reconheço e que, por conseguinte, me reconhece. Essas coisas estão em mim e eu nelas e falar sobre elas é, até onde consigo perceber, falar de mim e, sobretudo, falar sobre Literatura, Cinema e cultura de modo geral.
Horrorizem-se!

PARTE 1:

A NOVELA VAMP, A PSICANÁLISE FREUDIANA E CIDO

No último dia 26 de setembro recebi um e-mail da minha amiga Cher Lopes (do Literando) contendo um link para o post dela naquele dia: "Sangue. (Vampiro como Figura Pop)". Ali Cher narra toda a sua incrível trajetória de vida (ou seria morte?) relacionada aos vampiros, essas criaturas tão banalizadas ultimamente. Cher escreve de tal forma que estou em dúvida se ela não é a Rainha dos Condenados perambulando entre nós...
Nesse texto Cher menciona a novela Vamp, veiculada pela famigerada Rede Globo entre 15 de julho de 1991 e 8 de fevereiro de 1992. Bem... se você é muito jovem para conhecer essa novela, se estava morto(a) na época e agora miraculosamente voltou à Vida e quer se interar de tudo que aconteceu de interessante nos últimos 20 anos ou se simplesmente não se lembra mais eu sugiro a consulta dos links abaixo.
Ah! E antes que me perguntem: não tenho absolutamente nada contra novelas. Assisti muitas no decorrer das décadas de 1980 e 1990. Parei de assistir novelas a partir 1996 pelo fato da qualidade ter caído a níveis insustentáveis já naquela época. Não se faz mais novelas com a qualidade artística e de roteiro de Roque Santeiro (1985 - 1986), Vale Tudo (1988 - 1989), Que Rei Sou Eu? (1989), Rainha da Sucata (1990) ou Éramos Seis (1994). Vamp foi a penúltima novela decente que assisti. A última foi a A Próxima Vítima (1995). Hoje eu me recuso terminantemente a assistir novela. Aliás, recuso-me a assistir TV (aberta, pelo menos).

AVISO: HÁ SPOILERS NO TEXTO QUE SEGUE AOS LINKS (rsrs)

Detalhes sobre a novela no Teledramaturgia: http://www.teledramaturgia.com.br/tele/vamp.asp
(Para quem deseja saber quantos capítulos, quem era o elenco e os nomes das personagens, quem dirigiu a novela etc.)

Para quem quer saber curiosidades sobre a trama: http://pt.wikipedia.org/wiki/Vamp_%28telenovela%29
(Só interessam as curiosidades, pois o resto é plágio do conteúdo do Teledramaturgia)

Para quem quer assistir a novela toda no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=HlIbLJ9_lNc&feature=autoplay&list=PLDDE1B39252D69F8E&lf=results_main&playnext=3
(A qualidade do vídeo, é claro, não é boa, mas dá para acompanhar tranquilamente)

* * *

Eu tinha entre dez e onze anos de idade quando Vamp foi veiculada no horário das 19h. Nessa época eu cursava a quinta série do ensino fundamental, no período da manhã, em uma das unidades do SESI aqui de São Carlos e, à tarde, trabalhava meio período como empacotador numa filial das redes de supermercados Jaú Serve (que só existem aqui nesta região do interior paulista). Empacotador de supermercado foi meu primeiro emprego. Evidente que a legislação não permitia que eu trabalhasse com carteira assinada (eu era uma criança, neh minha gente! Não nos esqueçamos desse detalhe nada agradável), logo esse tempo não vai contar para a minha aposentadoria (rsrsrsrs).
Eu trabalhava até umas seis da tarde e dava tempo de chegar em casa e assistir Vamp.

Acompanhei a trama toda do primeiro ao último capítulo e há lembranças muito vívidas em minha mente ainda hoje, passados praticamente vinte anos: a cena do primeiro capítulo em que Natasha (Cláudia Ohana) dança Sadness, do Enigma, na praça da catedral de São Marcos em Veneza; a dança dos mortos-vivos ressuscitados por Vlad (Ney Latorraca) no cemitério de Armação dos Anjos (cidade fictícia onde se passava a história); Jorge Fernando interpretando o médico hipnotizador maluco Vicentinho Fernando; Rita Lee de vampira; os tapas na cara que Vlad aplicava à perigosa e ao mesmo tempo cômica família Mattoso; a cena em que Mary Mattoso (Patrícia Travassos) resolve se tornar bruxa e concentrar seu poder no seu rabo de cavalo; a cena em que Vlad coloca um zíper na boca de Mary Mattoso; a caça-vampiros inglesa (e que é ironicamente transformada em vampira e não é inglesa...) Alice Penn Taylor (Vera Holtz); a linda transformação de Pai Gil (Tony Tornado) e Branca (Aída Leinner) respectivamente em Oxalá e Ogun para lutar contra os vampiros e contra Vlad; a transformação de Vlad em Nosferatu (a Besta do Apocalipse no enredo) e tantas outras cenas que me fizeram rir e, sem o saber, aprender muito.

Vamp foi meu primeiro contato com o mundo dos vampiros. Eu só viria a ler Dracula, a bíblia do mito, dezenove anos depois (sim, é isso mesmo: li Dracula no ano passado, pois eu queria ler a obra em seu original inglês, não em tradução, e só tive tempo de fazer isso em 2010).
Depois de muito pesquisar a figura do vampiro, acabei descobrindo que todos os elementos principais de sua mitologia estavam contidos naquela novela, hoje aparentemente boba aos olhos de muitos. E aqui quem fala é o doutor em Literatura, não o leitor Cido.

A novela de Antônio Calmon tinha uma quantidade imensa (e desnecessária) de personagens secundárias. Para se ter uma ideia, duas das personagens principais, Carmem Maura (Joana Fomm) e o capitão Jonas Rocha (Reginaldo Faria), tinham cada uma seis filhos. É uma dessas personagens secundárias, um dos filhos de Carmem Maura, que vai acabar mudando a minha vida para sempre.

O filho mais novo da personagem de Joana Fomm se chamava Sig (interpretado por João Rebello). Ele usava óculos fundo de garrafa, era excessivamente inteligente, falava um português quase incompreensível de tão castiço e foi o primeiro a descobrir — ainda que tenha sido um dos últimos a acreditar — a existência de vampiros em Armação dos Anjos.
Uma característica fundamental que me chamou atenção na época era o livro que Sig vivia carregando para todo lado embaixo do braço: um volume único das Obras Completas de Freud (a edição é espanhola, certamente, pois esse livro só existe em volume único nessa língua). Sig, cujo nome obviamente remete ao primeiro nome do Médico de Viena (Sigmund), vivia citando Freud na trama, numa clara alusão à relação entre vampiros e sexualidade. A personagem era, evidentemente, um nerd, mas isso é outro capítulo das Crônicas [nada heróicas] de Cido, ou seja, como Cido se torna Darth Vader... quero dizer, nerd.

Sendo a criança que eu era — precoce, para dizer o mínimo, por força das circunstâncias —, imediatamente identifiquei-me com Sig: eu queria ser Sig. Eu queria ler o livro que Sig segurava sob o braço. Eu queria falar como ele. Eu queria usar os óculos que ele usava (na época eu não usava óculos ainda). Depois de Vlad, Sig era a minha personagem preferida. Como Sig vivia repetindo o clichê "Freud explica", eu fiquei muito curioso em saber quem era Freud, e hoje isso pode soar estranho aos meus alunos, por exemplo, que me ouvem falar de Freud como seu eu fosse Freud (e eu sou): sim, meus caros, houve um tempo em que Cido não sabia quem era Freud.

Eu comecei então a tentar buscar informações sobre esse tal Freud: quem era ele? o que ele fez? por que havia um livro tão grande escrito por ele? o que significa "Freud explica"?
O primeiro lugar, e único disponível para as minhas limitações de tempo (não dava para ir à Biblioteca Municipal de São Carlos, por exemplo... eu trabalhava à tarde, certo? E não existia computador ou internet na época), era a Biblioteca do SESI. Havia livros de Freud nessa biblioteca. Aliás, havia uma quantidade imensa de livros dele lá, o que me assustou bastante na época (eu não sabia ainda que as Obras Completas tinham, em sua edição brasileira, 24 volumes). Tirei um dos livros da estante, não me lembro qual, e me dirigi ao balcão. Qual não foi minha frustração ao ser informado pela adorável dona Marisa (sim, ela era adorável mesmo, não é ironia), a bibliotecária, que eu não podia retirar aquele livro porque ele era restrito apenas aos professores. Hoje eu sei por que Freud era restrito aos alunos na época: seria uma imprudência deixar uma criança de 11 anos de idade conhecer segredos que ela mesma não entendia, como sua sexualidade, por exemplo. Não é mesmo? (rsrsrs).

Eu fiquei triste por não poder ler um daqueles livrões de capa vermelha do tal Freud. Aí, não sei por que cargas d'água, resolvi consultar uma enciclopédia. Uma Barsa da vida (essa era permitida, pelo menos). No verbete "Sigmund Freud" da Barsa eu descobri que o tal Freud se chamava Sigmund, que ele era austríaco e que tinha inventado uma coisa chamada Psicanálise, algo que tinha revolucionado o mundo. Cheguei a dar uma olhada no verbete "Psicanálise", mas não entendi uma palavra: eu ainda não sabia que esse verbete tinha sido escrito pelo próprio Freud e que ler qualquer texto do Psicólogo de Deus é a mesma coisa que ler Literatura Clássica ou Filosofia. Eu fui obrigado a desistir da minha busca e ficar só com as pouquíssimas cenas em que Sig aparece em Vamp.

O tempo passou, mas o fogo da curiosidade sobre Freud e a Psicanálise não passaram. Quando eu entrei na universidade, aos dezoito anos, uma das minhas primeiras visitas à biblioteca da UNESP - Araraquara foi justamente para matar essa curiosidade. E eu me apaixonei pelo Mestre de Viena.
Li vários de seus textos, estudei sua vida, contemplei seu semblante por meio das diversas fotos que existem, li textos sobre seus textos, li os textos lidos pelo próprio Freud, li seus seguidores e detratores, cursei disciplinas de pós-graduação sobre seu pensamento, me deixo analisar por suas teorias desde os 20 anos de idade e descobri quem eu sou neste percurso. Acabei usando seus textos em meu mestrado, influenciando minha irmã de tal forma que ela está para se tornar uma psicanalista freudiana, influenciando minha amiga Vívien de modo que ela tomou Freud como um dos pilares teóricos de sua dissertação de mestrado, analisando minha própria mãe segundo o pensamento do Pai da Psicanálise, analisando meus amigos e alunos da mesma forma. Muitas das minhas aulas sobre Literatura são inteiramente calcadas nas teorias freudianas. O pensamento de Freud tornou-se uma das maneiras pelas quais eu vejo e interpreto o mundo, os textos, a Arte, o outro e a mim mesmo.

É por tudo isso que eu disse na minha defesa de doutorado que Freud não explica nada. Ele apenas sugere.
De fato, Freud não explica nada, mas concede àqueles que se aventuram pelos seus textos as ferramentas para explicar, e normalmente essa explicação, não importa do que, é extremamente complexa e multifacetada. Vários segredos da existência podem estar nela contidos, daí sempre a sugestão, e nunca a resposta.

É por tudo isso também que, na dedicatória da minha tese de doutorado, eu escrevo o seguinte para o Médico de Viena: "A Sigmund Freud, que me salvou, in memoriam".

Obrigado Antônio Calmon, Jorge Fernando e Rede Globo por terem me dado a oportunidade de ter assistido Vamp. Eu não seria a metade do que sou se não tivesse assistido essa novela.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"EU VOU MOSTRAR PARA VOCÊ, E PARA VOCÊS TODOS QUE ESTÃO AQUI, E PARA TODOS QUE NOS ACOMPANHAM DO ASTRAL O QUE, EXATAMENTE, SÃO AS TREVAS"

As palavras que intitulam este post encontram-se na página 246 da primeira edição de Anjo: A Face do Mal (2004), de Nelson Magrini.

Há bastante tempo eu tenho pensado sobre qual livro escrever a primeira resenha literária aqui no meu blog, e depois de muito refletir eu cheguei à conclusão de que Anjo é uma boa escolha.

No dia primeiro de abril de 2005 eu estava passeando pelo shopping aqui em São Carlos e fui à Livraria Nobel, como sempre faço, para dar uma olhada nos lançamentos e nas coisas que os leitores normais estão lendo. Nada contra os leitores normais, é claro, mas TUDO contra o que eles lêem. As vitrines e as ilhas principais das livrarias estão cada vez piores e tem sido um sacrifício para mim procurar estar a par do que vem sendo publicado para o grande público em termos de Literatura. Infelizmente, eu tenho que fazer isso por ser um profissional da área e, como tal, é sempre necessário contextualizar as obras literárias numa aula, por exemplo, o que demanda trazê-las o mais próximo possível do leitor... que normalmente é um adolescente que se acha adulto e, na melhor das hipóteses, está lendo algo da Contra Cultura, da Geração Beat ou dos Românticos ou, na pior das hipóteses (e esta é a situação mais comum), está lendo o que há de mais execrável já escrito e publicado, atualmente: Crepúsculo, Paulo Coelho e coisas do gênero.

[Parênteses desnecessário] (É, minha gente... vida de professor de Literatura não é fácil, principalmente quando você tem que falar de Crepúsculo para o seu aluno se tocar quanto à atualidade de O Morro dos Ventos Uivantes... e esse aluno cursa o terceiro ano de Letras na UNESP...)

Enfim... aproveitando que eu já estava ali mesmo, decidi dar uma olhadinha na prateleira de Literatura Brasileira para ver se tinha algo de novo no fronte. Como sempre, me decepcionei. Mas, heroicamente, decidi dar uma olhada naqueles estantes que ficam mais abaixo, onde normalmente são colocados os livros das editoras que não têm contrato ou que não fazem lobby com a livraria (sim, isso existe... sim, isso é infame... sim, é assim que funciona o mercado). Foi aí que eu encontrei toda uma coleção, então recém lançada, da Editora Novo Século chamada “Novos Talentos da Literatura Brasileira”. Tudo o que eu conhecia até então dessa editora era o decepcionante e risível O Senhor da Chuva (2001), de... bem... André Vianco. Em suma, a primeira impressão já não foi das melhores.

Num primeiro momento eu ri. Talento e Literatura Brasileira são duas coisas que normalmente se excluem mutuamente, salvo raríssimas exceções... e quase tive um enfarto quando notei que a coleção toda era composta de livros de ficção fantástica, ou seja, o gênero mais pífio da Literatura nacional, que está há séculos-luz de produzir algo decente nesse tipo de ficção.
Dei uma olhada nos títulos só para me certificar de que eu realmente tinha perdido o meu tempo e ganhado dores nos joelhos por ter me abaixado pra ver as estantes inferiores. Decepcionante para dizer o mínimo, por isso nem vou me dar o trabalho de reproduzir alguns desses títulos aqui.

Eu já estava para me levantar e ir embora quando os espíritos sagrados de John Milton e William Blake, enviados certamente por Dante e Shakespeare, guiaram meus olhos, que recaíram sobre um título meio escondido entre os demais: Anjo: A Face do Mal. Milton e Blake também guiaram minha mão e eu peguei o livro. A primeira impressão não foi das melhores... a capa da primeira edição de Anjo, como boa parte das capas dessa coleção da Editora Novo Século, nada diz sobre o livro. Mas os espíritos poderosos que estavam me guiando não me permitiram desistir. Eu gostei da antítese presente no título: como pode a figura do anjo, um ser celestial, ser a face do mal? Algo já me interessou aí e eu fiz, então, o primeiro movimento que faço toda vez que pego um livro novo na mão: virá-lo de costas para ler a contra-capa. Diz a contra-capa da primeira edição de Anjo:

A partir de dois Princípios, a Ação e a Oposição, houve luz. Agora, infinitas eras após a Criação, o Princípio da Oposição, o indivisível, irá se dividir novamente.
Anjos, os que governam o Céu, querem impedir a divisão, pois, para eles, a Oposição são as Trevas Eternas, o inimigo máximo de Deus. Aos seus olhos, mesmo os Demônios, seus opostos, são toleráveis por serem originários da Ação, e vistos como partes da obra de Deus.
Por sua vez, os Demônios são a favor da divisão, até mesmo porque querem descobrir os segredos ali escondidos e utilizá-los na eterna luta contra os angelicais.
Em meio à tensão crescente, que ameaça eclodir em uma guerra que devastaria toda a existência, um ser observa, um ser único, sem igual, possuidor tanto da energia da Ação, quanto da Oposição.
Seu nome é Lúcifer.
Enquanto isso, na Terra, uma entidade misteriosa, incrivelmente poderosa, caça indiferentemente Anjos, Homens e Demônios, guiada apenas pelo seu propósito sombrio, uma entidade que só poderia ser descrita em pesadelos, a própria entropia encarnada.
É chegada, então, a hora de Lúcifer intervir. O futuro de tudo o que existe está em suas mãos. Se falhar, nada restará além de desolação e fria destruição.

 Capa da primeira edição de Anjo

Sim, meus amados leitores. Eu também fiquei boquiaberto, estarrecido, atônito diante dessas palavras.
Até hoje, relendo-as, elas ainda conseguem me espantar.

Sem perceber eu estava sentado numa das poltronas da livraria com o livro aberto à frente dos olhos, ávido e em êxtase. E sem perceber também eu estava perdendo o fôlego já no primeiro parágrafo do Prólogo:

Era o Tudo e o Nada, a Potencialidade de tudo existir. A Onipotência, a Onipresença e a Onisciência e, exatamente por isso, manifestou-se sob a forma de dois Princípios contrários. Um de Ação, que se multiplicaria ao infinito e daria existência e vida à criação; o outro de Oposição, que se contraporia à multiplicação, uno e indivisível. Mas, por serem iguais em potencial, nada aconteceu e ambos se anularam.
(MAGRINI, 2004, p. 9)

Em suma, num único parágrafo está contida toda a História da Criação, inclusive seu fim e seu eterno recomeço. Somente dois escritores foram capazes de lidar com um tema tão forte como esse e de uma forma tão impressionante e impactante: John Milton e William Blake, os dois maiores mestres da Literatura Inglesa depois de Shakespeare.
Não consegui mais parar de ler o livro, tendo devorado suas mais de 250 páginas naquele mesmo dia.

O enredo é muito bem articulado, ainda que prescindível de um certo detetive que aparece na história e introduz peripécias pela noite de São Paulo. As duas personagens principais, Lúcifer e Lucas, são de uma força e de uma profundidade estonteantes. Lúcifer, é claro, rouba a cena por completo com um charme que coloca as melhores personagens de Stephen King (se é que elas existem...) no chão sem a menor piedade. Nem Roland de Gilead, o impressionante herói do ciclo da Torre Negra [The Dark Tower, 1982 - 2012], é tão bem construído.

O Lúcifer de Magrini é um interessante suplemento ao Satã de Milton, personagem do Paraíso Perdido [Paradise Lost, 1667]: enquanto este é o Demônio como pintado em nossa cultura ocidental, aquele é um ser evoluído, divinal, que protege e busca a evolução da humanidade ao invés de torná-la vítima de sua vingança cega contra o Criador. Os dois, no entanto, transformam-se nas forças centrípetas e centrífugas dos multiversos ficcionais aos quais pertencem e tornam-se personagens de grande complexidade. O Lúcifer de Magrini é, sem dúvida, uma releitura contemporânea do Satã miltônico, e explicar exatamente como isso ocorre demandaria um ensaio acadêmico que eu ainda hei de escrever (mas não aqui). A única coisa que eu posso sussurrar para vocês é que o Lúcifer de Magrini, como o Satã de Milton, revela-se o verdadeiro Criador da humanidade, o Demiurgo, o Deus Pai. As implicações literárias, filosóficas e religiosas disso colocam em xeque as bases da Metafísica Ocidental, ou seja, as bases que fundaram e que ainda sustentam toda a nossa cultura.

Percebe, minha gente, que não estamos diante de um texto comum? Percebem que um tal tratamento de um tema complexo como este — ainda que tenha sido muito batido na ficção do século XIX —, da forma como é conduzido em Anjo, torna esse livro algo de extremo destaque em meio à ridícula ficção fantástica brasileira? Só Neil Gaiman, talvez o maior mestre da ficção fantástica na atualidade, é capaz de fazer frente a um enredo deste tipo (aqui eu estou pensando no irretocável American Gods, é claro...).

É evidente que, quando tive a oportunidade de estabelecer contato com Nelson, coloquei para ele algumas aproximações entre Anjo e os textos de Milton e Blake que me ocorreram na leitura que fiz desta que, sem sombra de dúvida, é até o momento sua obra-prima.
A reação e os comentários, mais do que esperados, foram de espanto e negação. Nelson disse-me que nunca leu Milton ou Blake e que baseou algumas das concepções que traz no seu tratamento do Bem e do Mal, por exemplo, no famosíssimo Dogma e Ritual da Alta Magia [Dogme et Rituel de la Haute Magie, 1854], de Éliphas Lévi. Como todos os pottermaníacos sabem (sim... eu sou um deles...), este é um dos livros que J. K. Rowling afirma tê-la inspirado para escrever a saga Harry Potter. Entretanto, antes que vocês me perguntem, à época em que Nelson mencionou-me o livro de Lévi esta referência de Rowling era ignorada.

A mesma reação de Nelson foi por mim observada quando, em um interessante tópico do Orkut sobre Anjo desenvolvido na comunidade do livro (eis o link específico desse tópico para quem se interessar: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=3606150&tid=5256635758122735228), eu comentei sobre a igualdade existente na raiz dos nomes das duas personagens principais da obra. Notem que o radical “Luc”, transformação da palavra latina “lux” (“luz”), ocorre tanto no nome Lúcifer quanto no nome Lucas. Isso gera uma identificação inexorável entre o divinal Lúcifer e o humano Lucas, que na história é o guia do grande Serafim em sua busca para conter o “Anjo” do título, um “Anjo” que, sem dúvida, não é um anjo e nem é concebível por quaisquer definições de que dispomos no momento. Com esse movimento quase imperceptível presente nos nomes dessas duas personagens, e talvez sem o perceber e sem o querer, Nelson simplesmente coloca no mesmo patamar o divino e o humano, Lúcifer e Lucas, o Criador e a Criatura. Isso é uma característica básica das obras de William Blake e de boa parte dos poetas românticos ingleses.
Nelson, no entanto, afirma que foi mera coincidência e que nomeia suas personagens sem refletir sobre seus nomes: eles simplesmente lhe ocorrem e ele as nomeia. Quem sou eu para contradizer o autor da obra, mas a experiência com crítica literária me revelou que isso pode ser um interessante jogo que é típico dos grandes autores de Literatura, o jogo embutido nas palavras do nosso amado Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor”.

Minha amiga Cher Lopes, do Literando, que também foi minha aluna de graduação e minha orientanda, escreveu seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre Anjo. O trabalho se chama "Configurações do estranho e do duplo em Anjo: a Face do Mal, de Nelson Magrini" (2009). Nele, Cher analisou justamente a identificação entre Lúcifer e Lucas e fez aproximações incríveis dessa obra de Nelson com obras de Milton e Blake. O capítulo sobre Lúcifer é simplesmente magistral. Infelizmente, esse TCC não está publicado, mas eu tenho certeza que se vocês entrarem em contato com a autora ela terá o maior prazer em falar tudo sobre ele e até enviá-lo para vocês.  

Independentemente disso ou de qualquer coisa, Anjo é uma obra-prima, uma das pouquíssimas leituras de Literatura fantástica nacional que eu recomendo de verdade. E o livro já está na segunda edição!

 Capa da segunda edição de Anjo

Para finalizar, eu gostaria de convidar vocês a lerem e compararem os três trechos abaixo reproduzidos. O primeiro é do Paraíso Perdido, de Milton; o segundo é do Matrimônio do Céu e do Inferno [The Marriage of Heaven and Hell, 1790 - 1793], de William Blake; e o terceiro é de Anjo: a Face do Mal. Vocês enxergam alguma aproximação entre esses três textos tão distantes no tempo e no espaço?

DIVIRTAM-SE!

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Trecho 1: extraído do Canto 1 do Paraíso Perdido, de Milton.
O arqu'inimigo [Satã] prontamente o atalha [a Belzebu]:
Degenerado querubim! Faz pejo
Não ter constância na paciência e lidas.
Podes seguro estar que jamais, nunca,
Fazer um bem qualquer nos é possível;
Mas que sempre será da essência nossa
Fazer todos os males que atormentam
A alta vontade do Opressor ovante [Deus].
Se acaso intenta a Providência sua
Algum bem extrair dos males nossos,
Busquemos perverter-lhe o fim proposto
Fazendo de tal bem fonte de males.
[...]
Reinar no Inferno preferir nos cumpre
À vileza de ser no Céu escravos.
(MILTON, 2003, p. 31 - 32 e 36)

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Trecho 2: extraído da quinta placa do Matrimônio do Céu e do Inferno, de Blake.

A história está escrita no Paraíso Perdido, & o Governante ou Razão é chamado Messias.
E o Arcanjo original ou possuidor do comando da hoste celeste é chamado Demônio ou Satã, e seus filhos são chamados Pecado & Morte.
Mas no Livro de Jó, o Messias de Milton é chamado Satã.
Pois essa história foi adotada por ambas as partes.
De fato pareceu à Razão que o Desejo fora jogado fora, mas o relato do Demônio diz que o Messias caiu e formou um céu com o que ele roubou do Abismo.
(BLAKE, 2004, p. 15)

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Trecho 3: extraído do capítulo 8 de Anjo: a Face do Mal, de Magrini.
— Trevas? — perguntou Lúcifer, arcando as sobrancelhas. — O que você sabe sobre elas?
— As Trevas são o Mal, o Mal verdadeiro, e do qual parte de você pertence. [...].
— [...] não se preocupe — continuou Lúcifer sem dar chance de Mikael lhe interromper —, eu vou mostra para você, e para vocês todos que estão aqui, e para todos que nos acompanham do Astral o que, exatamente, são as Trevas. [...].
A intensidade da luz era incomensurável. [...]. A luz penetrava em todos os cantos, todos os lugares. Fechar os olhos não adiantava, pois a luz penetrava através das pálpebras.
— Diga-me, Mikael, o que você está vendo?
— Não estou vendo nada! — gritou Mikael, desesperado.
A luz aumentou ainda mais.
— Exatamente — gritou Lúcifer —, você não vê nada, não sabe o que há à frente, ou atrás, não vê o futuro, não vê o caminho. Que esperança pode existir, assim? [...].
— Eu sou o Portador da Luz — gritou, sendo ouvido em todo o mundo espiritual. — Eu trago a Luz em mim, e não as Trevas. Você tinha razão quando descreveu as Trevas, Mikael, você e todos os Celestiais. Elas são algo no qual não se pode ver nada. Você vê alguma coisa agora, Mikael? [...].
— Agora todos vocês sabem. As Trevas são as luzes mais intensas do universo [...].
(MAGRINI, 2004, p. 245 - 250)

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLAKE, William. Matrimônio do Céu e do Inferno. São Paulo: Madras, 2004.
MAGRINI, Nelson. Anjo: a Face do Mal. Osasco (SP): Novo Século, 2004.
MILTON, John. Paraíso Perdido. São Paulo: Martin Claret, 2003.

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