segunda-feira, 26 de junho de 2017

20 ANOS DE HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL



Há exatos 20 anos, no dia 26 de junho de 1997, o mundo começava a ler e a conhecer o universo de Harry Potter com a publicação de Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro livro de uma série de sete.

A história do menino órfão que mora no armário em baixo da escada e que, aos 11 anos de idade, descobre ser um bruxo conquistou os corações de crianças e jovens do mundo inteiro, em um fenômeno cultural que só pode ser comparado ao impacto das peças de Shakespeare, de O senhor dos anéis e de Star Wars. Como era de se esperar, adultos também começaram a se interessar pelas aventuras do bruxinho e, mais tarde, o mundo acadêmico. Atualmente, Harry Potter se tornou um universo ficcional em expansão, contando com outras obras literárias, teatrais e fílmicas que se desenvolvem em seu mundo, jogos de videogame, card games e jogos de tabuleiro, gadgets e colecionáveis, parques temáticos, estilo e filosofia de vida.

Pelo menos duas gerações de crianças e jovens nasceram e cresceram lendo os livros e assistindo os filmes da série, e pessoas como eu – que eram adolescentes quando A Pedra Filosofal foi publicado – tiveram suas vidas influenciadas e mudadas por esse reino de fantasia. Lembro-me que, entre 1997 e 2003, quando eu trabalhava em uma fábrica de lápis, um lugar ao qual eu não pertencia e que só gerava sofrimento em minha alma, era ao livro e posteriormente ao filme de A Pedra Filosofal a que eu recorria em todos os domingos à noite – quando os horrores da angústia de ter que acordar cedo na segunda-feira para fazer o que não me dava nenhum alento ou prazer assolavam meu coração – para poder encontrar forças e não explodir. A Pedra Filosofal, muito em particular, foi o livro que não deixou a chama da esperança se apagar em mim e, a partir dele e com ele, a minha vida foi aos poucos mudando.

Em 1998, eu finalizava o ensino médio e me preparava para prestar o vestibular quando A Câmara Secreta foi publicado. Em 1999, meu primeiro ano de universidade, veio O Prisioneiro de Azkaban, meu livro favorito da série depois de A Pedra Filosofal, e no ano seguinte foi publicado O Cálice de Fogo. Em 2003, um ano muito especial para mim – eu terminei a faculdade; a pessoa que viria, um dia, a ser um dos meus amigos mais querido aceitou orientar-me na pós-graduação (o que foi o início de uma amizade e de um trabalho conjunto que já dura 14 anos); prestei o exame e passei no mestrado; prestei um concurso público para professor do estado e passei (e fui demitido, graças a Merlin, da fábrica de lápis) –, foi publicado A Ordem da Fênix, o livro mais longo e complexo da série (como a minha vida naquele ano). Em 2005, eu terminava de escrever minha dissertação de mestrado quando o mundo (e eu, é claro) leu O Enigma do Príncipe. E em 2007, outro ano muito especial para mim – comecei o doutorado, namorei pela primeira vez, assumi-me para mim mesmo como sou –, chegou o aventuroso, sombrio e difícil (era o último romance da série) As Relíquias da Morte.

A série Harry Potter me acompanhou em momentos importantes e divisores de água na minha vida, e desde então tem sido inspiração e motivo de alegrias. É por causa de tudo que ela significa para mim que, quando cheguei onde eu queria estar na minha profissão, decidi conceber um evento que a homenageasse e que pudesse inspirar outras pessoas a seguirem seus sonhos pelas veredas do mágico, do maravilhoso, do fantástico, da fantasia e do gótico, apesar de todas as dificuldades que a vida impõe. Foi assim que surgiu o Halloween Harry, que este ano comemorará os 20 anos de A Pedra Filosofal.

Hoje, Harry Potter é algo tão importante na minha vida que faz parte da minha profissão – e eu AMO minha profissão como AMO Harry Potter. Já orientei trabalhos sobre esse universo e, no momento em que verto, emocionado, essas palavras, escrevo um capítulo de livro sobre Horcruxes.

É por tudo isso que eu gostaria de agradecer publicamente J. K. Rowling por ter concebido Harry Potter e, com isso, dado alento, inspiração e mesmo salvado a vida de muitos.

E meus parabéns – e meu muito obrigado – ao ainda bastante jovem A Pedra Filosofal. Desejo-lhe vida longa e abençoada pelas graças dos grandes Merlin, Shakespeare e Tolkien, que enviam suas congratulações diretamente da mística e brumosa Avalon, para onde vão os mestres da literatura inglesa quando atravessam o Portal dos Mortos.


sábado, 26 de março de 2016

CONSIDERAÇÕES SOBRE O EPISÓDIO VII E A TERCEIRA TRILOGIA DE STAR WARS



AVISOS IMPORTANTES:

1. Se você tem problemas com spoilers, simplesmente pare de ler aqui.

2. Se você não assistiu as duas trilogias de Star Wars e o Episódio VII, o primeiro filme da Terceira Trilogia lançado até o momento; ou se assistiu esparsamente apenas alguns dos sete filmes; ou se assistiu apenas ao Episódio VII para acompanhar seus amigos nerds no cinema (e, obviamente, não entendeu absolutamente nada do que viu e ouviu e ficou boiando nas discussões); ou se não sabe que Darth Vader é pai de Luke Skywalker, sugiro que você primeiro assista a TODOS os sete filmes e depois volte aqui para ler estas considerações.

3. Se você ainda está aqui e está lendo este terceiro aviso importante, saiba que eu não me responsabilizo pelo que as considerações abaixo podem causar em sua vida. A partir daqui você está por sua própria conta e risco.


A tão esperada Terceira Trilogia de Star Wars, há tempos anunciada, chegou finalmente. Milhões de pessoas foram aos cinemas para assistir ao Episódio VIIO Despertar da Força, o primeiro dos três novos filmes que dão continuidade à saga da Força pela Galáxia.
Os velhos fãs ficaram felizes em rever velhos amigos de pipoca Han Solo, Chewbacca, Princesa Leia (agora General...), C-3PO e o amado R2-D2 — e conhecer novas figuras que têm potencial (que fofura é aquele BB-8!). Já os jovens fãs (sim, porque o que tinha de adolescentes e jovens de todas as idades nas sessões que fui era incrível!) puderam também, é claro, rever em novo contexto várias personagens clássicas da série e encontrar seus próprios pontos de identificação entre as novas personagens introduzidas.

Nostalgia e novidades à parte, a pergunta que ficou no ar é quais as intenções e pretensões do Episódio VII em relação ao núcleo principal do universo de Star Wars? Essa pergunta leva a uma questão mais ampla: quais as intenções e pretensões desta Terceira Trilogia como um todo (que na verdade é uma Tetralogia, pois há um filme inteiramente dedicado a Han Solo prometido para 2018, entre o Episódio VIII e o Episódio IX) em relação a esse universo ficcional?

Em reflexões pessoais e em conversas com parentes e amigos fãs da série, eu tenho buscado possibilidades de resposta a essas questões. É claro que muitas ideias e teorias tem me ocorrido; mas é claro também que nenhuma dessas minhas ideias e teorias tem um fundamento mais sólido em razão de um aspecto evidente: em termos de enredo, o Episódio VII é muito mal construído e, por essa razão, deixa mais fios soltos do que J. J. Abrams foi capaz de amarrar (propositalmente? Tenho minhas dúvidas...).

Os comentários que seguem são essas minhas ideias e teorias ainda infundadas, as quais compartilho aqui com vocês ao mesmo tempo em que as documento para a posteridade, ou seja, para futuramente comparar com o que será trazido nos lançamentos dos próximos dois filmes da Trilogia mais o filme sobre Han Solo.
Comentários, contra-ideias e contra-teorias são, evidentemente, sempre bem-vindos.

Começo com o ponto principal: a famigerada morte de Han Solo pelas mãos de seu filho Ben Solo, o qual usa, ao que tudo indica, seu nome de batismo Sith, Kylo Ren, no enredo do Episódio VII.
Não há sombra de dúvida que a morte de Solo-pai foi a cena mais impactante (mas não a mais importante) deste primeiro filme da Terceira Trilogia. Meu irmão Vanberto não se conforma até agora, e ainda ressoa em meus ouvidos o silêncio sepulcral que se instalou nas salas de cinema no momento em que isso aconteceu.
É a partir dessa cena que algumas polêmicas se instalaram, principalmente a extremamente discutível (e, em minha opinião, completamente furada) hipótese aventada por Jimmy Piroutek ("A melhor teoria do mundo sobre Star Wars veio da Mooca"), amplamente divulgada em sites nacionais e internacionais e redes sociais, de que Kylo Ren foi para o Lado Negro da Força como agente duplo com os objetivos de ajudar a Resistência e eliminar o Supremo Líder Snoke.

Encaremos os fatos: a personagem Kylo Ren, criada com o intuito evidente de dividir o posto de personagem principal junto de Rey, é muito mal-ajambrada e está sobrando no enredo do Episódio VII. A culpa disso recai no diretor J. J. Abrams, que tentou a todo custo tornar Ren uma personagem convincente usando para isso unicamente seu parentesco e obsessão doentia pelo inigualável e inimitável Darth Vader.
Kylo Ren é, em tudo, uma tentativa falha e de mal gosto de imitar Vader em duas perspectivas que não se ajustam: ele tenta arremedar Jedi/Sith/Jedi psicológica e fisicamente – usa uma máscara desnecessariamente, veste-se de preto desnecessariamente (e sem a capa glamorosa que era uma das marcas registradas do figurino do grande vilão) e fez um altar com a máscara remanescente da pira funerária do Lord Sith!!! (Eu estou absurdado com isso até agora...).
Esse último gesto merece um comentário particular. Rememoremos a cena do Episódio VII: Kylo Ren está dentro de uma sala que lembra a sala particular onde Vader retirava a sua própria máscara para curar suas feridas físicas (essa sala aparece de modo mais claro no Episódio V da saga). Nesse momento, a câmera foca a máscara de Ren enquanto ele faz uma espécie de oração a seu antepassado: “afaste-me da tentação da Luz” e “ajude-me a completar a sua missão”. Após a oração, eis que a câmera se move novamente para revelar o ídolo ao qual a prece fora dirigida: a máscara calcinada do próprio Vader.
O que era para ser uma cena assustadora, cheia de significados e revelações, torna-se quase cômica quando começamos a pensar como essa máscara foi parar nas mãos desse neto transviado: Ren teve que ir à lua de Endor onde foi feita a pira funerária de Vader por Luke Skywalker, enfrentar os ewoks (que são fofinhos, mas perigosos), encontrar o local da pira e, absurdo dos absurdos, pegar a máscara do avô, a qual contém também o seu crânio (sim, a tomada de câmera da cena em questão do Episódio VII dá um close bem demorado no crânio existente dentro dos remanescentes da máscara de Vader...).
Começo a rir ao pensar em Kylo Ren enfrentando os ewoks, ao mesmo tempo em que começo a chorar ao pensar nessa personagem bancando o ladrão de túmulos, praticamente um ghoul das estrelas ou uma versão futurista de Victor Frankenstein.
Essa situação tragicômica leva à segunda das perspectivas para o fato de Ren ser uma imitação de mal gosto de Vader: além de ser um arremedo do grande Sith Lord, Ren é materializado no enredo do Episódio VII como o novo Darth Vader, discípulo do último Jedi existente (Luke Skywalker) que se rebela contra este e sua Ordem para se tornar discípulo de uma pseudo-imitação bastante discutível do antigo Imperador (Snoke) que, hipoteticamente, o levou para o Lado Negro da Força, tornou-o seu “escolhido” e com ele conversa por meio de um holograma duas vezes maior do que o usado por Palpatine para conversar com Vader.
É ofensivamente pretensioso, por parte de J. J. Abrams, meramente cogitar a possibilidade de que possa existir uma outra personagem, parente ou não, capaz de ocupar o lugar de Vader no imaginário ocidental, e é pensando nas implicações de tamanha ofensa que adentro em problemas que me parecem muito mais sérios na trama do Episódio VII em relação ao enredo principal da saga, quais sejam a abordagem da Força escolhida por Abrams, a falta do elemento filosófico que é característico da série como um todo e a incômoda semelhança do enredo do Episódio VII com o enredo do Episódio IV.

Quanto à abordagem da Força mostrada no Episódio VII, é notável que ou J. J. Abrams não entendeu o conceito (o que eu não duvido...), ou a Força está passando por um momento ainda mais grave do que nas duas trilogias anteriores.
Como a primeira dessas duas hipóteses tem implicação direta com o segundo problema que listei, vou abordá-la quando tratar da questão da falta do elemento filosófico. Por hora, pensemos na possibilidade de que a Força está passando por uma crise mais séria.
Se voltarmos à personagem Kylo Ren na perspectiva da Força, notaremos que estamos diante de alguém que recebeu algum treinamento formal (Jedi por parte de Luke, tendo em vista que Ren é o discípulo que se revoltou contra a Ordem Jedi Restaurada que Luke tentou formar; e Sith por parte de Snoke, visto que este é o líder do grupo que se formou a partir dos remanescentes do Primeiro Império Galáctico – a Primeira Ordem – e é, provavelmente e segundo minhas interpretações pessoais, um antigo integrante do Inquisitorius), mas que não consegue controlar seu emocional, recaindo constantemente em arroubos violentos de ódio, o que torna seus poderes também descontrolados. Esse tipo de comportamento é totalmente inapropriado tanto para um Jedi quanto para um Sith, logo, Kylo Ren está perdido entre, no mínimo, duas perspectivas diferentes de abordagem da Força.
Esse drama do sempre estar dividido era o grande drama de Darth Vader e permanece uma espécie de maldição que assombra toda a família Skywalker. Todavia, seu absoluto comedimento e a frieza imprimiam um aspecto complexo e trágico a esse drama. Os arroubos violentos de Ren, no entanto, geram um efeito contrário e enfraquecem sobremaneira a personagem, que claramente foi eleita para ser o grande vilão dessa Terceira Trilogia, bem como o drama em si. Com seu comportamento, Ren torna o drama da ambiguidade, da luta interna entre Bem e Mal, entre Lado da Luz e Lado Negro, entre Anakin Skywalker e Darth Vader, algo caricatural, tolo, sem sentido, praticamente a manha de uma criança mimada. Não é essa, de forma alguma, a concepção dada por George Lucas ao enredo de Star Wars, e vejo nesse ponto o catastrófico “efeito Disney” em ação, que torna uma idiotice tudo que toca.
É justamente essa idiotice, a manha de uma personagem construída para ser o vilão, que vai fazer com que Ren perca a luta contra Rey. Veja bem, minha gente, a situação que nos é apresentada nessa luta: o líder dos Cavaleiros de Ren – uma ordem treinada de Force Sensitives estruturada aos moldes da Ordem dos Cavaleiros Templários (notemos que o lightsaber de Ren tem o formato exato de uma espada cruzada, a espada dos Cavaleiros Templários) –, com certa quantidade de treinamento formal nos dois lados da Força, capaz de parar no ar um tiro de raio laser só com os poderes que adquiriu (admito: essa cena foi genial!), é derrotado por uma Force Sensitive cujos poderes despertaram recentemente e que não detém nenhuma espécie de treinamento. Apesar de ter sido uma batalha memorável, a cena faz tanto sentido quanto a do ex-Stormtrooper Finn lutando com o lightsaber de Luke Skywalker contra um outro Stormtrooper: quando o lightsaber portado por Finn toca a arma de luta do inimigo, tal arma permanece intacta, quando deveria ter sido cortada ao meio, já que há pouquíssimos elementos existentes no Universo que são suficientemente resistentes para suportar o golpe de um lightsaber sem serem destruídos imediatamente. Ou seja, as duas cenas são totalmente incoerentes dentro de todos os preceitos já estabelecidos na saga: um Force Sensitive sem treinamento formal não é páreo para um Force Sensitive treinado (lembremos do famigerado – descartável para a trama, porém útil como exemplo – Episódio I), e o The Jedi Path aponta apenas seis elementos que podem resistir ao golpe de um lightsaber (cortosis, ultracromo, neurânio, phrik, ferro mandaloriano e os ossos e carapaças de algumas poucas criaturas). Mas é claro que, se os fãs reclamarem demais, Abrams vai dar um jeito de explicar esses deslizes flagrantes de quem não conhece adequada e suficientemente o universo ficcional com o qual está trabalhando.
Assim, é preciso que a Força esteja praticamente em vias de extinção para que haja um despertar como o ocorrido com Rey (e provavelmente com Finn também). A considerar que as duas primeiras trilogias da saga narram a história do desequilíbrio da Força e suas consequências e que, nos trinta anos que se passam entre a Batalha de Endor e o presente narrativo do Episódio VII, Luke Skywalker, o último Jedi vivo, não conseguiu reestabelecer ou criar uma ordem sob a qual o Lado da Luz pudesse se organizar, é exatamente nesse estado que a Força se encontra: fragmentada de tal maneira, dividida a tal ponto, que é necessário zerar tudo e retornar ao início. É por essa razão que, no Episódio VII, é dito que Luke desapareceu e foi para o lugar onde foi construído o primeiro templo Jedi, o local onde os Force Sensitives começaram a se organizar para melhor entender a manifestação do poder que sustenta a existência. Como o nome desse lugar não é revelado no filme, mas apenas mostrado, e tendo em vista o cânone da saga previamente estabelecido, talvez o lugar a que Luke se recolheu seja Tython, o planeta onde a Ordem Jedi teve início há trinta e seis mil anos, ou Ossus, o planeta onde a Ordem se consolidou antes de mudar-se para Coruscant.
Meu palpite é que se trata de Tython, um planeta inteiramente regido pela Força e o local onde os primeiros Force Sensitives descobriram como controlá-la e utilizá-la. Se for esse planeta, talvez Abrams tenha acertado (um tiro no escuro? acerto de principiante?) no argumento do retiro de Luke e do planeta onde ele se encontra, pois estando a Força excessivamente fragmentada, um Mestre Jedi só poderia encontrar respostas para suas indagações e preocupações no local onde tudo começou.
Infelizmente, o retiro de Luke é um elemento terciário no enredo do Episódio VII, praticamente uma nota de rodapé (pois é muito mais interessante – e lucrativo, claro – focar na morte de Solo-pai pelas mãos de Solo-filho), o que me leva ao segundo problema desse capítulo da trama.

O fato de Abrams ter relegado o personagem Luke Skywalker a um plano excessivamente secundário, bem como todos os eventos que o rodeiam e nos quais ele esteve envolvido direta e indiretamente nos trinta anos passados da Batalha de Endor, acabou gerando um efeito colateral preocupante: a falta do elemento filosófico, o qual sempre esteve presente no decorrer da saga como  um todo, mesmo na Segunda Trilogia e no desnecessário Episódio I, tendo em vista que a Força só pode ser entendida filosoficamente – ou seja, ela tem que ser interpretada antes de ser usada –, uma vez que o Lado da Luz e o Lado Negro são pontos de vista filosóficos sobre esse poder ancestral.
No contexto do Episódio VII, todos os mestres detentores de conhecimentos mais profundos sobre a Força e capazes de ensinar seus princípios filosóficos, na perspectiva Jedi ou Sith, estão mortos – Mestre Yoda, Darth Sidious, Obi-wan Kenobi e Darth Vader – e não há ninguém a altura para substituí-los a não ser o próprio Luke, que foi deliberadamente omitido no enredo deste primeiro filme da Terceira Trilogia.
Não se pode dizer que Luke, apesar de seus dons natos e grandes esforços, tenha se tornado um mestre da envergadura de Yoda – lembremos as palavras a ele dirigidas pelo próprio Yoda no Episódio V, “você é imprudente”; lembremos ainda que, por um curto período de tempo, Luke se bandeou para o Lado Negro na época em que um clone do Imperador tentou reassumir o poder. No entanto, ele é o herdeiro direto da linhagem de mestres. Aliás, o único herdeiro de ambos os lados da Força.
Kylo Ren, seu discípulo, parece ter aprendido muito pouco com ele, e Snoke está longe de ser um mestre como Darth Sidious, ainda que haja indícios no Episódio VII que apontam que ele pode ser bem mais poderoso no Ladro Negro do que mostram as aparências e, por isso, tenha omitido muita coisa de Ren.
De qualquer forma, no contexto do primeiro episódio da Terceira Trilogia, passados trinta anos da Batalha de Endor, a Força enquanto poder que organiza o Universo está em grande perigo, prestes a se extinguir ou tornar-se errática e, portanto, incontrolável. Não se trata mais de equilibrá-la ou desequilibrá-la, mas sim de voltar a (re)conhece-la para poder senti-la e canalizá-la de algum modo.
Mistério supremo, a Força é o que possibilita a existência de todas as coisas. Como tal, pode ser pensada como uma imensa rede senciente que, diante de sua atual situação, tende “naturalmente” a se reconstruir ao invés de deixar-se obliterar. Isso explicaria, em termos filosóficos, por que ocorreu o despertar em Rey e, muito claramente, em Finn: como nos primórdios em Tython, e sendo um impulso fenomênico, a Força se manifestou novamente em seu estado mais puro, nem Ashla (Lado da Luz) e nem Bogan (Lado Negro), apenas Poder. Por si só, ela não pode existir nesse estado puro, pois é incompreensível em si mesma a qualquer inteligência do Universo, mesmo aos Celestiais. Então, ela precisa direcionar-se, tornar-se conhecimento, e é aqui que a querida Rey retorna ao palco: em Araraquara... quer dizer, Jakku, a Força esteve com ela em estado puro por algum tempo (o motivo, ou um dos motivos, pelo qual a personagem foi ali abandonada, talvez). Mas, como essa situação não poderia permanecer assim, o acaso, o Fado ou o Destino providenciaram para que Rey tivesse a sua própria aventura e com isso chegasse ao local onde estava o lightsaber de Luke Skywalker, ao que tudo indica seu parente ou alguém predestinado a cruzar seu caminho. De posse da arma do último mestre vivo – que foi também a arma de Padawan do Escolhido –, a Força literalmente “desperta” em Rey e a leva não apenas ao conhecimento do paradeiro de Luke, mas também a ir até ele, em seu refúgio no planeta onde tudo começou, para lhe entregar a arma, em um gesto que a torna, de certa forma, sua Padawan.
Em termos de enredo, essa costura é perfeita: a Força desperta em alguém em um local randômico e sem importância e, por meio de sua teia existencial, atrai esse alguém até o local apropriado e a pessoa apropriada para que possa se tornar conhecimento. Ao entregar o lightsaber ao seu verdadeiro dono, Rey se torna, simbolicamente, uma Padawan, ou seja, escolhe um direcionamento, uma canalização, uma expressão de conhecimento para o Poder que a elegeu para “despertar”, para manter-se existente, conhecido, senciente. Com isso, e dessa forma, a Força se renova em Rey e a torna, literalmente, uma nova esperança.
Bem... uma interpretação linda, não? Tudo se encaixa bonitinho, de modo até bastante elaborado eu diria. Mas isso, minha gente, é a minha leitura, a leitura de um profissional em leitura. Duvido muito que J. J. Abrams ou outro diretor façam algo sequer semelhante ao que descrevi nos próximos filmes da Terceira Trilogia, pois, infelizmente, J. J. Abrams – e qualquer diretor que a Disney venha a contratar para dirigir Star Wars – não entendeu (ou não quis entender, ou foi proibido de entender) o conceito filosófico de Força, uma das ideias mais bem trabalhadas de George Lucas (que pode ser uma droga de diretor, mas é um gênio em termos de ideias para enredo).

E por falar em Rey como uma nova esperança, isso me leva ao terceiro e último problema mais sério (este nem tão sério assim se comparado aos outros dois...) do Episódio VII: a incômoda semelhança do seu enredo com o enredo do Episódio IV, justamente o intitulado Uma Nova Esperança.
Não vou fazer uma comparação minuciosa entre os dois filmes, pois basta assisti-los e as semelhanças ficarão gritantes (Tatooine vira Jakku, Luke vira Rey, R2-D2 vira BB-8, Vader vira Kylo Ren etc.). De pronto, uma conclusão gritante para quem assistiu a esses filmes em sequência: o Episódio VII é, em tudo, um remake (ou seria reboot?) do Episódio IV. Em outras palavras, temos, a princípio e virtualmente, a repetição e não a continuação da saga Star Wars.
Direto ao ponto, a questão que se coloca é: por quê? Por que tomar como base temático-estrutural para O Despertar da Força o primeiro episódio da Primeira Trilogia?
O resultado da equação J. J. Abrams mais Disney daria como resposta a essas perguntas um simples e categórico “falta de criatividade”, mal que vem assolando Hollywood há bastante tempo e do qual nem mesmo Star Wars escapou, ao que eu acrescentaria “dinheiro fácil e garantido”. Observo, no entanto, algo que considero mais preocupante do que questões de mercado: o fato das pessoas, dos expectadores nas salas de cinema, e principalmente dos fãs da saga não terem notado que a continuação é, literalmente, uma repetição disfarçada com pseudo-inovações, pseudo-novas-personagens, pseudo-novos-mundos e cenários resultantes de um pseudo-enredo que na verdade é uma cópia de algo feito no final do século XX turbinada para pseudo-públicos do século XXI. Ninguém notou que a ideia central, a espinha dorsal do roteiro do Episódio VII é exatamente a mesma do Episódio IV. Todos viram o novo Star Wars como... novo.
Ponto para J. J. Abrams e para o Departamento de Marketing da Disney, não há dúvida: eles conseguiram vender o mesmo velho produto só mudando o seu rótulo, e fãs, cinéfilos, público em geral e crítica especializada compraram e amaram o “novo” velho produto. Para quê Hollywood se preocuparia com algo tão difícil e caro quanto criatividade?
Duas respostas rápidas à questão, que são também duas conclusões rápidas, porém longe de serem precipitadas: 1) o Pós-moderno é um fato cotidiano e corriqueiro; logo, teoriza-lo, criticá-lo ou mesmo utilizá-lo já se tornou obsoleto (“bem-vindos ao deserto do real” meus queridos sociológicos, antropólogos, escoladeFrankfurtianos, marxistas em geral, positivistas, humanistas, realistas e coisas do gênero); 2) o mundo emburreceu e isso não é culpa e nem tem nada a ver com o Pós-moderno. É simplesmente isso: burrice, a mais preguiçosa burrice; “para que eu vou me dar o trabalho de pensar se o Google, a Wikipedia e o Rotten Tomatoes pensam por mim?”.
Acreditem, essas duas conclusões em nada me preocupam. Já aprendi, há muito tempo, a lidar com a burrice do mundo e a maquiavelicamente me aproveitar dela. 
O que me preocupa é que cada vez mais eu gosto menos do contemporâneo como fato histórico (apesar de amá-lo como teoria e filosofia), e menos ainda das continuações das sagas fílmicas que amei.