terça-feira, 20 de dezembro de 2011

KATE CHOPIN

Durante cerca de dez anos da minha vida Kate Chopin foi um assunto diário: seu nome e suas obras tomaram boa parte do meu tempo, das minhas leituras, do meu coração e mesmo da minha alma. Muitas vezes me peguei falando de Kate como se ela ainda estivesse viva, como se ela fosse um ser ainda existente aqui, neste Vale de Lágrimas, a que eu pudesse visitar, tomar um chá e conversar. Quantas vezes eu sonhei com essa oportunidade, com essa chance: conversar com Kate Chopin, olhar em seus olhos, vê-la escrever, ouvi-la ler em voz alta como Dickens tantas vezes fizera!
Infelizmente, quando eu nasci ela já havia falecido há 76 anos.

Kate Chopin
Incontáveis vezes me reconheci em seus escritos, me vi descrito em suas palavras, me vi usando, mesmo me apoderando, de seus vocábulos. Um dia Alcides, meu ex-orientador, hoje mestre e amigo, ao ler um texto que escrevi, disse-me, exercendo como poucos sua função de orientador, que aquela era a minha Edna Pontellier (a personagem principal da obra-prima da autora, O Despertar) e a minha Kate Chopin. Edna Pontellier c'est moi. Talvez mais do que isso: Kate Chopin c'est moi.

À Kate Chopin devo tudo que me tornei e tudo que conquistei nesta última década de vida: o primeiro trabalho que apresentei em um congresso foi sobre sua obra; finalizei minha graduação estudando sua obra; me tornei mestre por causa de sua obra; morei nos Estados Unidos por causa dessa mulher e de seus escritos; me tornei doutor por causa de seus textos. As coisas mais importantes que realizei, que escrevi e que vivenciei estiveram e estão sob a égide de Kate Chopin.
Lembro-me que, nas horas derradeiras em que estive diante das diversas bancas de especialistas que me avaliaram, nos instantes em que ninguém podia (ou queria) estar comigo, aqueles momentos em que eu entrei nas salas e me sentei frente à pessoas doutas para ouvir e ser ouvido, sempre pedi, orei, à Kate que ficasse comigo, que estivesse ali do meu lado, que falasse por mim, pois tudo aquilo era para ela, pela sua memória, em homenagem e agradecimento às mudanças que ela trouxe ao mundo (Kate foi precursora do Feminismo) e à Literatura (ela é a maior contista norte-americana do século XX). Ela sempre esteve comigo nessas e em diversas outras horas solitárias. Não parece, mas a vida de professor e pesquisador é muito solitária, especialmente para pessoas como eu, que têm verdadeira ojeriza e total descrença no trabalho em grupo.

Vocês podem me perguntar: porque Kate Chopin?
Ao que eu vou responder: eu nunca consegui entender por que Kate Chopin.

Tudo começou em 2002, quando eu comecei a procurar um orientador para desenvolver meu mestrado, pois durante a graduação eu acabei decidindo que eu queria seguir carreira acadêmica.
Naquele ano eu cursei a primeira parte da disciplina Literatura Norte-Americana com Alcides Santos, que viria a ser meu orientador mais tarde. Nós estudamos teatro americano naquele ano e, ao final da disciplina, ele solicitou um trabalho sobre uma das peças lidas. Eu escolhi, é claro, Um bonde chamado Desejo [A Streetcar Named Desire, 1947], de Tennessee Williams. Aliás, foi nesse ano que esse texto se tornou um dos meus preferidos, como vocês podem verificar no meu post "Os 10 livros que você tem que ler antes de morrer".
Eu tinha ficado tão encantado com a personagem Blanche DuBois que propus fazer uma análise do Mal relacionado ao feminino. Alcides gostou da idéia e me mandou ler um dos textos que abriram minha mente para várias coisas: o primeiro capítulo, intitulado "Sexo e violência, ou natureza e arte", de Personas Sexuais, a obra-prima da suprema Camille Paglia.
Eu fiquei em êxtase durante vários dias ao fazer esse trabalho.

No ano seguinte, cursei a segunda parte de Literatura Norte-Americana com o mesmo Alcides. Na segunda semana de aula ele trouxe os trabalhos do ano anterior para entregar aos alunos. Ele fez comentários sobre cada um dos trabalhos e deixou o meu e de um querido amigo (que hoje insiste que não é mais meu amigo) por último. Lembro-me como se fosse hoje que Alcides, de frente para a sala e encostado na mesa, pegou o meu trabalho e disse "Hum... muito bom. Daria uma boa pesquisa de mestrado...". Eu peguei o trabalho e, num impulso inexplicável, disse a ele, em voz alta e na frente de todos os meus colegas: "Você me orienta no mestrado?". E a resposta foi "Sim, com certeza". A sala ficou muda e eu fui embora feliz naquele dia. Ali começou uma relação de respeito e amizade que gerou um mestrado, um doutorado e mais um membro do Clã de Conselheiros de Cido.

Duas semanas depois Alcides e eu nos reunimos para iniciar os primeiros passos da pesquisa. Ele me disse que estudar a relação da mulher com o Mal me levaria ao Feminismo e que talvez eu gostasse dessa teoria. Eu disse a ele que não sabia que autor ou obra eu queria pesquisar. Sabia apenas que seria algo em literaturas de língua inglesa. Então, do meio da bagunça assustadora que existia sobre a mesa dele no Departamento de Letras Modernas da UNESP - Araraquara, e que hoje não existe mais (a bagunça, pois a mesa continua exatamente no mesmo lugar), e sob os auspícios, que à época eu não entendia, do "Ancient of Days" (1794), de William Blake, uma interessante reprodução que fica emoldurada e pendurada na parede em frente à mesa ocupada pelo meu ex-orientador, Alcides tirou de uma pilha absurda de papéis uma cópia de um conto de Kate Chopin chamado "The Story of an Hour" ["A história de uma hora", 1894] e disse "Tome. Leia isso e voltamos a conversar".
Eu li e tive um momento epifânico, uma iluminação inexplicável do Além, um orgasmo múltiplo: era aquilo! Eu tinha achado!
Meu coração estremeceu e meu fôlego se esvaiu. Ali estava tudo que eu tinha procurado até aquele momento em um texto literário: um abismo infinito de significações no qual eu pudesse me atirar de cabeça, de olhos fechados, com a certeza de que jamais eu chegaria ao fundo, mas que quanto mais eu caísse, quanto mais eu me aprofundasse, mais eu iria descobrir sobre o Tudo.
Para vocês terem uma idéia do que senti, o conto termina com a seguinte passagem:
Quando os médicos chegaram, disseram que ela havia morrido do coração de alegria que mata (CHOPIN, 2006, p. 390).

O "Ancient of the Days", de Blake, que fica reproduzido numa moldura na frente da mesa do meu querido amigo Alcides, na UNESP - Araraquara

Mal sabia eu que aquele era só o início dos meus êxtases chopinianos.
Quando voltei a me reunir com Alcides e lhe contei a minha experiência com "A história de uma hora" ele riu e, assumindo sua postura de Pai Mei, disse o seguinte: "Ótimo. Temos um começo. Agora você vai ler O Despertar".

A leitura de O Despertar [The Awakening, 1899] foi ela mesma o meu despertar. Essa leitura me trouxe a compreensão de muitas coisas, me garantiu momentos inenarráveis de prazer estético, me mostrou que existe vida na diferença e, principalmente, me ensinou a resistir: resistir às dificuldades, resistir à incompreensão das pessoas, resistir aos diversos preconceitos, resistir na luta diária que é a Vida, resistir às intempéries e adversidades que nos tomam de surpresa, resistir ao desrespeito e aos desparates das pessoas, resistir à falta de amor e de carinho que insistem em se abater por sobre os seres e o mundo. Resistir tornou-se sinônimo, para mim, de persistir, de insistir e de se rebelar. Resistir passou a ser, para mim e graças à Kate Chopin especificamente neste livro, sinônimo de Existência.
Eis algumas passagens de O Despertar que gosto muito:

A voz do mar é sedutora; ininterrupta, sussurrante, queixosa, murmurante, convidando a alma a errar atrás de uma explicação em abismos de solidão; a se perder em labirintos de contemplação interior.
A voz do mar fala para a alma. O toque do mar é sensual e estreita o corpo em seu suave e envolvente abraço
(CHOPIN, 1994, p. 25 - 26)
Esta é, talvez, minha passagem preferida da obra, pois ela, de alguma forma, me define: eu tenho essa fascinação sensual pelo mar, pela água de uma maneira geral, que é aqui descrita.

Eu desistiria do não-essencial; daria meu dinheiro, daria minha vida, por meus filhos; mas não daria a mim própria
(CHOPIN, 1994, p. 67)
Esta passagem se tornou uma espécie de lema de vida para mim. Nela está contido o resistir, o leitmotif que escolhi para dar sentido à minha Existência.

Vênus emergindo da espuma não teria apresentado um espetáculo mais arrebatador que a Sra. Pontellier, refulgindo de beleza e diamantes à cabeceira da mesa, enquanto as outras mulheres eram todas jovens huris de incomparável formosura
(CHOPIN, 1994, p. 147 - 148)
Sem dúvida a passagem mais imagética de O despertar. Toda vez que leio este trecho me vem à mente a minha pintura preferida: O nascimento da Vênus (c. 1485), de Sandro Botticelli. Talvez Kate vislumbrasse essa pintura quando escreveu essa passagem, ainda que eu saiba que ela tinha uma pequena estatueta que reproduzia a Vênus de Milo na estante que ficava na sala em que ela costumava escrever. Afrodite (Vênus) sempre foi uma das minhas paixões...

O Nascimento da Vênus, de Botticelli
Outra das minhas passagens preferidas da obra é também muito imagética e remete a uma pintura que me envolve no mistério. Essa pintura é o Baco (c. 1596), de Caravaggio. Da mesma forma que nunca consegui elucidar melhor em minha alma este trecho da obra-prima de Chopin, também nunca consegui clarear em minha alma a tela de Caravaggio. Isto não me dá medo e nem me frustra. Pelo contrário, me atrai profundamente, pois se trata da manifestação fenomênica do mistério, de um dos meus mistérios.
O mistério, o enigma, o indecidível, o phármakon. Todos fenômenos inexplicáveis que me atraem como os relâmpagos e trovões das tempestades.
A Sra. Highcamp estava tecendo uma grinalda de rosas, amarela e vermelha. Quando terminou a grinalda, colocou-a mansamente sobre os cachos negros de Victor. Ele estava reclinado bem para trás na luxuosa cadeira, segurando uma taça de champanhe contra a luz.
Se uma varinha mágica o tocasse, a grinalda de rosas o transformaria numa visão de beleza oriental. As maçãs de seu rosto estavam da cor de uvas esmagadas e seus olhos escuros brilhavam como fogo agonizante
(CHOPIN, 1994, p. 119)
Baco, de Caravaggio
Eu devia este post à minha amada Kate Chopin, em agradecimento a todas as coisas boas que sua obra me proporcionou e me proporciona sempre que a ela retorno. Certamente que há muito mais coisas sobre autora e obra que mereceriam ser ditas aqui, mas eu creio que já disse tudo que eu precisava dizer nos longos textos que escrevi para meu mestrado e meu doutorado.
 
Obrigado, Kate Chopin, por me ensinar a resistir. 

BIBLIOGRAFIA

Para aqueles que têm interesse em conhecer mais sobre a vida e a obra de Kate Chopin há o site da Kate Chopin International Society (www.katechopin.org/), onde pode ser encontrado biografia, fotos e algumas obras completas da autora.

Em português estão publicados seus dois romances e uma coletânea de contos:

* Culpados [At Fault], o primeiro romance de Chopin, publicado pela Editora Horizonte em 2005.
* O despertar [The Awakening], a obra-prima da autora, publicado pela Editora Estação Liberdade em 1994 (esta é a obra utilizada nas citações do romance no post).
* Kate Chopin: contos traduzidos e comentados, coletânea bilíngue (português/inglês) publicada em 2011 pela Editora Luminara contendo os principais contos de Chopin traduzidos ao português pela equipe de tradutores da renomada professora Beatriz Viégas-Faria.

Para quem quiser conhecer meu trabalho sobre a obra e a vida de Kate Chopin, é só acessar os seguintes links:




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6 comentários:

  1. No fim, nos lembramos do começo. E nos lembramos de como éramos, depois de tudo o que passamos no decorrer de uma longa jornada, e, por fim, é inevitável compararmos tudo isso com o que nos tornamos ao atingirmos o limite entre o caminho que se encerra e outro que se inicia. Eu imagino que você esteja se sentindo meio que como Frodo depois que tudo acabou. Sua missão estava cumprida, seu fardo teve o destinno que lhe cabia, o mundo estava salvo. Mas, faltava alguma coisa; um vazio ficou em sua alma. Jornadas longas e fardos pesados nos deixam marcas e toda vez que olhamos para elas, nos lembramos de alguma situação. No entanto, as marcas servem para nos dizer que nada nesse mundo tem fim senão a vida. E se continuamos vivos é porque temos alguma missão a cumprir. Você se tornou aquilo que nasceu para ser. Agora tem que ocupar o seu lugar de direito e esta é outra jornada árdua. Mas, se mantiver o mesmo espírito com que atravessou esses dez anos de infindáveis batalhas, as coisas serão diferentes.

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  2. Lindas as suas palavras, amado irmão.
    Realmente é isso: sobrou um vazio que está sendo difícil de lidar. Talvez... talvez seja por isso que eu precisa escrever isso aqui... eu precisa ainda falar de Kate depois de já ter dito que era para ser dito.
    Eu precisa, de alguma forma, ler/ouvir essas suas palavras: "as marcas servem para nos dizer que nada nesse mundo tem fim senão a vida".
    Obrigado! Obrigado mesmo.

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  3. Belo texto Cido e bela trajetória de vida também. Impressionante o poder da literatura na vida da gente, no caso a obra de Kate Chopin em sua vida. Uma vida dedicada a kate. Bom, seja lá onde ela estiver, com certeza ela deve estar orgulhasa de ver que o trabalho dela gerou frutos como a sua tese.

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    1. Obrigado pelas lindas palavras, Diógenes.
      Amém, meu caro, amém se Kate tiver se sentido de alguma forma orgulhosa por mim.

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  4. olá amigo... estava vendo sua tese e seu blog, estou fazendo meu tcc sobre escrita feminina equiparado na kate chopin, teria como vc me arrumar algumas coisinhas dela, em portugues... ou algum material outro q vc tivesse. podemos conversar? abraços.

    meus contatos: https://www.facebook.com/tcchagas
    chagas-ts@hotmail.com

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    1. Olá Tarcisio.

      Obrigado por ter acessado meu blog e por ler minha tese.

      Podemos conversar sim, é claro.

      Vou incluir você no FaceBook e conversamos por lá, OK?

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